“El filósofo del fracaso: Émile M. Cioran” (Costica Bradatan)

Originalmente publicado en inglés: The Los Angeles Book Review, 28 de noviembre, 2016. Este ensayo se incluirá en el libro En elogio del fracaso, título contratado por Harvard University Press. Traducción de María del Carmen Navarrete.

Para algunos, fue uno de los pensadores más subversivos de su época, un Nietzsche del siglo XX, sólo que más sombrío y con un mejor sentido del humor. Muchos pensaban que era un loco peligroso, sobre todo en su juventud.Sin embargo, según otros, simplemente era un encantador joven irresponsable que no constituía ningún peligro para los demás, tal vez sólo para sí mismo. Cuando su libro sobre el misticismo llegó a la imprenta y el tipógrafo se percató de cuán blasfemo era su contenido, se negó a tocarlo, era un buen hombre temeroso de Dios; el editor se desentendió del asunto y el autor tuvoque publicar sus blasfemias en otra parte, por cuenta propia. ¿Quién fue este hombre?

Émile Cioran (19111995) fue un filósofo francés, rumano de nacimiento, y autor de unas dos docenas de libros de perturbadora y despiadada belleza. Es un ensayista en la mejor tradición francesa, y aunque su lengua maternano fue el francés, muchos lo consideran uno de los mejores escritores en ese idioma. Su estilo de escritura es caprichoso, poco sistemático, fragmentario; es proclamado como uno de los grandes maestros del aforismo. Pero para Cioran la “fragmentación” fue, más que un estilo de escritura, una vocación y una forma de vida; él mismo se llamaba “un homme de fragment”… [+]

Resenha: “O mundo segundo o jovem Cioran” (Fernando Klabin)

download (1)O Globo (caderno “Prosa”), 01 de março de 2014

Alvíssaras para o crescente, fiel e tenaz grupo dos amantes do pensador Emil Cioran no Brasil. Vertido pela primeira vez para o português pelo professor e filósofo José Thomaz Brum, maior especialista e promotor brasileiro da obra cioraniana, chega a nós, 78 anos depois de sua primeira publicação na Romênia, “O livro das ilusões”.

Esse raro evento editorial vem contribuir com mais uma pérola à realização que muito esperamos testemunhar: a tradução para o português da obra integral do “Diógenes transilvano”. Nos últimos anos a Rocco publicou outras obras do autor, como “Breviário de decomposição” e “Silogismos da amargura”. Juntamente com “Nos cumes do desespero” (Hedra, 2012), “O livro das ilusões” começa a preencher entre nós a lacuna da criação juvenil de Cioran, composta por meia dúzia de volumes em língua romena daquele que mais tarde viria a ser considerado um dos maiores estilistas da língua francesa no século XX.

A empresa de traduzir Cioran, concluída de maneira exímia pelo professor Brum, é difícil e arriscada em grande parte devido à sutileza e à intensidade dos conceitos desenvolvidos pelo autor, febril e literalmente insone quando jovem, em seu romeno materno. Cabe lembrar que a língua romena é tão neolatina quanto a pretensa “última flor do Lácio”, porém marcada por um enriquecedor acréscimo de léxico eslavo, húngaro e turco. Esse aporte reflete boa parte das vicissitudes históricas de seu povo. Os romenos costumam declarar, no seu enraizado estilo de “rir para não chorar” (a face haz de necaz, em romeno), que, nos mais de três mil quilômetros de fronteira estabelecida só em 1878 pelo país, cercado hoje por Hungria, Sérvia, Bulgária e Ucrânia, o seu mais leal vizinho é o Mar Negro.

A dificuldade de tradução já se torna patente no título da obra em questão. “Cartea amăgirilor” foi traduzido, por exemplo, como “The Book of Delusions” e “El libro de las quimeras”. O substantivo romeno amăgire (que pode significar engano, sedução, ilusão, quimera, mentira) está ligado também por sua raiz comum ao verbo a amăgi (enganar, induzir ao mal, atrair com promessas mentirosas). A origem está na raiz latina ammagire, que por sua vez teria bebido nos termos gregos μαγεύω, encantar, e μάγος, mago, feiticeiro… [+]

Artigo de juventude: “Oskar Kokoschka” (Emil Cioran)

Extraído de Solitude et destin. Trad. de Alain Paruit. Paris: Gallimard, 2001, p. 30-32.

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O ovo vermelho (1941)

Se Picasso é característico de nossa época (entendendo-se as últimas décadas) por sua mobilidade e por seu espírito proteiforme, pelas numerosas correntes das quais participou sem ser capaz de encontrar uma consistência espiritual, Kokoschka não é menos representativo pela ansiedade e pela eferverscência às quais ele deu uma expressão altamente dramática. Há, em toda sua obra, uma insatisfação permanente, um medo do mundo e do futuro que fazem pensar que, na sua visão, o homem não provém do mundo, que ele caiu, desorientado, numa existência estrangeira à sua natureza. Sua ansiedade é tão forte que se torna significativa em si mesma, como expressão autônoma, de modo que o indivíduo que a experimenta se transforma em simples símbolo de um estado de alma essencial. É apenas neste sentido que se pode falar de arte abstrata em Kokoschka, à proposito do absoluto conferido à expressão, e não da pureza formal ou do esquematismo linear. Pois a arte abstrata tem por característica reduzir o linear ao ponto de negá-lo. O linear só está presente onde uma expressão ou uma experiência aceitam a forma, onde há adequação entre as delimitações formais e o conteúdo objetivado. A presença do linear indica quase sempre um equilíbrio interior, uma maestria de si e uma harmonia possível. É uma existência cerrada, que encontra reservas e possibilidades nela mesma. As épocas clássicas sempre conheceram um florescimento do linear. Assim que as linhas desaparecem e o contorno se faz ilusório, todo ideal de tipo clássico torna-se impossível. A consciência anarquizante de Kokoschka (considerando-se aqui apenas o pintor, não o dramaturgo) destruiu a consistência psíquica do homem ao mostrá-lo, para nós, prisioneiro no turbilhão de um caos. O tormento e o remoro interiores tornam-se constitutivos do mundo exterior. Não se trata apenas de um caos interior, mas igualmente de um caos exterior. A este respeito, Kokoschka não é um isolado. Não posso falar dessas coisas sem rever um quadro fascinante de Ludwig Meidner, Paysage apocalyptique, que apresenta a visão de um mundo em que os objetos, animados de um impulso absurdo, abandonaram seus limites habituais, de um mundo em que o caos é a norma e cuja intenção é a loucura. Esse apocalipse não é religioso, não tem a salvação por objeto, é, ao contrário, fruto do desespero. Nenhum brilho aparece nas trevas que esta visão revela, nenhuma esperança de redenção na alma entregue à desolação. A arte de Kokoschka é uma expressão da desagregação psíquica. A ausência do linear não encontra aí uma mais profunda justificação? A desagregação psíquica recusa a consistência formal e anula o contorno. Isso implica a fluidez pictórica e a interpenetração dos elementos na continuidade e na mobilidade qualitativas. Mas, aqui, a pintura é levada ao paroxismo. Até aí, ela era um meio de remarcar as nuanças , e o indivíduo participava de uma totalidade qualitativa sem representar um isolamento no seio dessa totalidade. Em Kokoschka, ela é uma revolta, uma expansão de todos os elementos em uma tensão demente, uma explosão qualitativa de todo um continente. A que poderia servir ainda o equilíbrio das nuanças? Para nada. Eis porque pode-se falar de um naufrágio da arte pictórica na pintura das últimas décadas, o que tornou possível um retorno do linear, visível também nas novas tendências da arquitetura funcional.

As insuficiências técnicas formais constatadas na obra de Kokoschka não se devem, como erroneamente se afirmou, a uma incapacidade artística; elas são condicionadas por uma visão fixada nas origens do mundo, são o seu resultado. O salto no caos e o no nada, essencial para essa perspectiva, elimina toda problemática do formal. Der irrende Ritter [O Cavaleiro errante] anula, do ponto de vista temático, o cuidado da forma. O equilíbrio no caos, que é a substância deste quadro, nos desvela uma volúpia no desespero, um arrebatamento louco na queda, um êxtase do nada.

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O Cavaleiro errante (1915)

Um masoquismo metafísico mistura a volúpia ao fenômeno da desagregação, encontrando prazer no caos cósmico. Quando o nada é vivido na arte, é que o equilíbrio vital foi seriamente danificado. Toda a criação de Kokoschka revela uma desintegração da vida, atormentada, supliciada ao ponto em que se confundem tragédia e caricatura, terror e grotesco. A ansiedade contínua é o caminho mais seguro em direção ao caos e ao nada.

Originalmente publicado em Gândirea, Bucareste, setembro/novembro de 1931.
Traduzido do francês por Rodrigo I. R. S. Menezes

“El insomnio de Cioran” (Willis G. Regier)

“Cioran’s Insomnia”, en MLN, Volume 119, Number 5, December 2004 (Comparative Literature Issue), Johns Hopkins University. Versión de Rodrigo García Bonilla. Descargables [ensayo], 4, en Fundación. Revista en Línea, núm. 6, abril – mayo 2013.

Insomne de carrera, Cioran hizo del insomnio un laboratorio —lugar poco cómodo para trabajar a gusto. En 1970 le confesó a François Bondy: “sólo he podido escribir en la melancolía de las noches de insomnio”. En 1994 le dijo a Michael Jakob que consideraba el insomnio como la “mayor experiencia” de su vida. Cioran describía “un drama que duró muchos años y que me ha marcado por el resto de mis días. Todo lo que he escrito, todo lo que he pensado, todo lo que he elaborado, todas mis divagaciones tienen su origen en ese drama. Fue más o menos a los veinte años cuando perdí el sueño y lo considero el mayor drama que pudo ocurrir… Erraba por horas en las calles, como una especie de fantasma, y todo lo que escribí más tarde fue elaborado durante aquellas noches”. Adam Gopnik dijo que Cioran consideraba no haber dormido durante cincuenta años: “Esta afirmación, concuerdan los doctores y el sentido común, era una exageración poética; sólo se preocupaba demasiado por tener un buen descanso en la noche. Pero la insistencia en vestir sus piyamas como cilicios, en hacer absoluto su insomnio —un tipo de estado mental simbólico—, era, en un país tan afecto a los absolutos como Francia, irresistible”. El insomnio se convirtió en su rúbrica, un tema trascendental que lo vinculó con otros insomnes; durante el curso de su carrera nombró a Hitler, Nerón y Mallamé. “Para Mallarmé, condenado —creía él— a velar las veinticuatro horas, el sueño no era una ‘verdadera necesidad’ sino un ‘favor’. Sólo un gran poeta puede permitirse el lujo de tal insania”… [+]

 

Book review: “The Temptation to Exist” (The Los Angeles Times, July 27, 1986)

By David Rodman Smith (professor of literature at Caltech and co-translator of selected Gobineau short stories being published by University of California Press).

The Temptation to Exist: by E. M. Cioran; translated by Richard Howard; introduction by Susan Sontag (Seaver: $17.95; 223 pp.)

Source: The Los Angeles Times, July 27, 1986

If you would like to know what philosophizing was like in the ’50s, particularly in Paris, you might well try E. M. Cioran’s “The Temptation to Exist,” but if you already know those times, these essays may produce groans of, “Aw, c’mon, not that again.” Yet, “The Temptation to Exist” is an “underground classic.” It first appeared in France in 1956, was subsequently translated by Richard Howard and published in the United States in 1968, with an introduction by Susan Sontag. This re-publication, which will give Cioran new readers, testifies to its staying power, though despite its stature and the admonition of both Cioran and Sontag against historicising (which sucked the marrow out of philosophy’s abstractionist bones), the book has aged and entered history.

Little known in this country, Cioran may be the most distinguished contemporary in a line descending from Kierkegaard, Nietzsche and Wittgenstein, whom he resembles in his avoidance of traditional modes of philosophical discourse. He employs instead the personal essay, developing it lyrically, surprisingly, from paradox to aphorism: “Masters in the art of thinking against oneself, Nietzsche, Baudelaire and Dostoevsky have taught us to side with our dangers, to broaden the sphere of our disease, to acquire existence by division from our being.” The phrase, “thinking against oneself,” provides the title of the essays and suggests the explosively paradoxical nature of most of them.

But there are problems inherent in the style, for there is a danger that a manner so self-aware, commanding a matter so nebulous, will drift over the boundary between meaning and posture and put us in view of a literary Muscle Beach. Moreover, his wearing the mantle of the “tired European intellectual” may bore and his concern with “being and nothingness” appear a form of intellectual self-abuse. There are dangers in re-publication, 30 years being, perhaps, exactly the wrong delay.

Most of these essays operate within a central paradox, for while Cioran seeks the void where existence can be separated from being and thus asserted, he does not give up time and society. It is complexity forced on him by history, by what is for him Europe’s irreversible decline. Together, Europe and its decline give him responsibility for his own and society’s health and free him from it, place him both inside and outside of engagement and history. He holds to the aristocratic and romantic view of the healthy life by opposing the intellect (“Too much lucidity results in a loss of equilibrium”) and the free mind (“ultimately anti-social, detrimental to the health of the community”). Yet he attacks action (“Led on by the whirlwind of acts , I am nothing but an acolyte of time”) and seeks to free the intellect (“The only free mind is the one that, pure of all intimacy with beings or objects, plies its own vacuity”). At the risk of “a certain coquetry of the void,” as Sontag puts it (what for another might seem a pleasure in carrion, a lack of fresh air, too many Gauloises), the mind becomes its own subject, a voyeur of the self.

Son of an Orthodox priest, Cioran emigrated in 1937 from Romania, where he had been a student of philosophy, to France, where he has since lived and written. He has, he says, “no nationality–the best possible status for an intellectual.” Or, rather, he has taken on a more abstract nationality, for he is self-consciously and nostalgically a European with a sense of cultural fatigue and superiority looking back at national destinies which have run their course: “If, in the past, (national) died for the absurdity of glory, they abandon themselves now to a frenzy of small claims. ‘Happiness’ tempts them; it is their last prejudice, from which Marxism, that sin of optimism, derives its energy.” Or, “When a nation begins to show its age, it orients itself toward the condition of the masses.” He rejects this “coward’s pact,” which has replaced the ruthless energies that built past glories and holds to an aristocratic and organicist view of nations.

He brings to mind another who moved west and wrote in a second language, an aristocrat, but Joseph Conrad wanted “History not Theory.” For him, organicism and ideas of national destiny were a blind for Russian absolutism and mysticism, belief without an idea. One of his Russian characters calls the pragmatic and reasoned Western solutions to government “a pact with the Devil.” But Conrad admired the rational, whereas Cioran sees the Age of Enlightenment as the enemy.

“Sobre a França” de Emil Cioran

e3f9ce851180e3907b50062fc20234abLivro crucial de Cioran. Ele escreve, ainda em romeno mas já na França, uma ode à França, amada inclusive em sua decadência, em seu fim, em sua queda, que não poderá ser sem grandeza por ter sido, a França, tão grande. A Inglaterra, a Alemanha, até a Rússia são mais fortes? Talvez. Mas é pela França que seu coração bate. A larva de ontem é, hoje, crisálida, e amanhã o imago abrirá suas asas sobre as letras francesas, e a Decadência se tornará Decomposição, num magistral Breviário. O novo Cioran surge tão rapidamente, tão subitamente, que nos perguntamos qual mistério pode se ocultar por detrás desta data: 1941. (da introdução de Alain Paruit)

SOBRE A FRANÇA

Editora: Ayine
Tradução: Luciana Persice Nogueira
Revisão: Maria Fernanda Alvares
Preparação: Mariana Delfini
Capa: Julia Geiser
Série: BIBLIOTECA ANTAGONISTA
Tags: Filosofia literatura europeia
Ano de publicação: 2016 Páginas: 119
ISBN: 978-85-92649-03-6

“O Êxodo – Super Flumina Babylonis” de Benjamin Fondane (trad. de Vinicius Nicastro Honesko)

Publicado na Revista Polichinello, nº 17, Belém do Pará, 2016 – “Por uma vida não-fascista”

«Os deuses ordenaram a morte desses homens a fim de que fossem de cantos para as gerações que vêm.» (Homero)

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