Niilismo

Todos os niilistas tiveram problemas com Deus. Uma prova a mais da proximidade do nada com a divindade. Tendo profanado tudo, já não nos resta mais do que destruir essa última reserva do nada. (Lacrimi şi Sfinţi)

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Ter amado sempre as lágrimas, a inocência e o niilismo. Os seres que sabem de tudo e os que não sabem de nada. Os fracassados e as crianças. (Lacrimi şi Sfinţi)

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Não podes entender o que significa a “meditação” se não estás habituado a escutar o silêncio. Sua voz incita à renúncia. Todas as iniciações religiosas são imersões em sua profundidade. Passei a suspeitar do mistério de Buda quanto senti medo do silêncio. A mudez cósmica te diz tantas coisas que a covardia te empurra para os braços deste mundo.
A religião é uma revelação atenuada do silêncio, uma dulcificação da aula de niilismo que nos inspiram seus sussurros, filtrados por nosso medo e nossa prudência… Dessa forma, o silêncio se situa nas antípodas da vida. (Amurgul Gândurilor)

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A imprecação é uma adesão à vida sob a aparência de destruição; um falso niilismo. Porque só se pode trovoar e fulminar a partir do absoluto de um valor. Jó amava a vida com uma paixão doente, e o rei Lear se apoiava no orgulho como se fosse uma deidade. Todos os profetas do Antigo Testamento se enfurecem em nome de algo, em nome do povo ou de Deus. E em nome do nada pode-se lançar maldições se não aderimos a ele dogmaticamente. Uma explosão impiedosa e incendiária, um absoluto em tom direto, uma torrente de destruição apoiado em uma certeza, confessada ou não. Que ao redor do desespero se esconda uma fé ou o titanismo do eu, pouco importa para a fúria da maldição como tal. O nível da alma, o grau da paixão de um ser, eis tudo. Porque em si, a maldição não é mais que um dogmatismo lírico. (Amurgul Gândurilor)

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O homem está tão apegado ao vazio da existência que por ele daria sua vida a qualquer momento, e está tão embebido do infinito do fastio que aguenta o suplício de viver como uma delícia.
Quanto mais clara lhe é a pequenez do todo, mais te apegas a ela. E a morte te parece muito pouco para salvá-la. Só assim se explica porque as religiões são contra o suicídio. Já que todas tentam dar um sentido à vida no instante em que esta menos sentido tem. Em essência, não passam disso: um niilismo contra o suicídio. Toda redenção nasce do rechaço às últimas consequências. (Amurgul Gândurilor)

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O niilismo é a forma limite da benevolência. (Amurgul Gândurilor)

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Não sei até que ponto é o céu. Mas sei muito bem até que ponto eu não sou sob o sol. Quem, diante das ondas do mar, durante horas seguidas, com os olhos entreabertos, paralelamente ao tempo, durante a horizontal do sonho e tão fugaz como a espuma sobre a areia dourada, não sentiu a mescla de felicidade e de nada desse lixo de resplendor, esse não conhece nenhum dos perigos que a beleza trouxe ao mundo. (Îndreptar pătimaş)

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Eu me cria jovem sob o sol e encontrei-me sem idade. E se à meia-noite possuía anos, já não os tinha no meridiano. Todas as idades fogem e permanecem entre o ser e o não-ser, vestígio vibrante no niilismo místico das insolações. (Îndreptar pătimaş)

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Com um pouco mais de ardor no niilismo, me seria possível — negando tudo — sacudir minhas dúvidas e triunfar sobre elas. Mas só tenho o gosto da negação, não seu dom. (Silogismos da Amargura)

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A sátira e o suspiro me parecem igualmente válidos. Tanto em um panfleto como em um Ars moriendi, tudo é verdadeiro… Com o desembaraço da piedade adoto todas as verdades e todas as palavras.
“Serás objetivo!” — maldição do niilista que acredita em tudo. (Silogismos da Amargura)

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Diante da morte só há duas fórmulas possíveis: o niilismo e o Vedanta. Passo de um ao outro sem poder me deter ou fixar em nenhum dos dois. (Silogismos da Amargura)

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Sobre Valéry ainda. A atenção às palavras é nefasta. Mas não é apenas isso. Para que um pensamento dure e nos agarre, é preciso que tenha algo de necessário e de patético (esse patético permanecendo suficientemente secreto). Mas Valéry foi um homem que jogou com a inteligência, que abusou da ideia que se fazia de sua inteligência. Seu niilismo me cativou. É preciso uma dose de trágico – quando  não se crê em nada. Sem o qual cai-se no exercício. Tal foi o caso de Valéry. (Cahiers)

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Como o catolicismo se esvaziou de todo conteúdo! Pelo fato de que em meu último livro eu falei de queda, de pecado, de maldição, nas revistas católicas estão me tratando de niilista! Evidentemente, se eu tivesse abordado nele qualquer “problema social”… (Cahiers)

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Entre a mística e o “niilismo”, a diferença é puramente verbal, quero dizer que toda experiência do nada é de ordem mística. (Cahiers)

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No cristianismo, a ascese é inconcebível sem a fé; a yoga não seria possível dentro dele. O exercício puro, a disciplina em si, dissociada de todo credo, participa da aberração ou do niilismo, aos olhos do cristão. (Cahiers)

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Arrasto atrás de mim farrapos de teologia… Niilismo de filho de pope. (Cahiers)

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Acabo de dar uma entrevista para a Time Magazine: durante duas horas falei de mim, e acho que respondi às perguntas que me foram feitas sobre todos os assuntos imagináveis.
Na França, eu não me prestaria a uma operação semelhante; mas como nesse caso, se trata de outro continente… Eu disse a esse jornalista que a vida era para mim “an intriguing Nothingness”. Eu quis dizer que aos meus olhos o que torna a vida interessante é o fato de que ela é impossível e impraticável. Eu lhe disse que era “a religious-minded nihilist”. (Cahiers)

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Do meu país eu herdei o niilismo inato, seu traço fundamental, sua única originalidade. Zădărnicie, nimicnicie – essas palavras extraordinárias, não, essas não são palavras, são a realidade do nosso sangue, do meu sangue. (Cahiers)

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Esta noite eu pensei na palavra romena: nimicnicie, que vem de nimic, “nada”, e que exprime o sentimento de vaidade, de frustração, de inanidade. Um sentimento de nadidade. (Cahiers)

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Anti-révolutionnaire par nihilisme. (Cahiers)

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J.-F.D.: Você é justamente considerado como um mestre do aforismo. Nos dicionários, também colam em você, frequentemente, a etiqueta de niilista.
C.: Como uma outra…  Isso me deixa completamente indiferente. Se poderia dizer que sou, mas isso não quer dizer nada. Para mim, é uma fórmula vazia. Se poderia dizer, para simplificar, que tenho uma obsessão pelo nada [néant], ou antes pelo vazio. Isso sim. Mas não que eu seja niilista. Porque o niilista no sentido corrente é um tipo que demole tudo [qui fout tout pour par terre], com reservas mentais [arrière-pensées] mais ou menos políticas, ou Deus sabe lá o quê! Mas quanto a mim, não tem nada a ver com isso. Então, se poderia dizer que sou niilista no sentido metafísico. Mas mesmo isso não recobre nada. Aceito mais o termo cético — ainda que eu seja um falso cético. Se preferir, não acredito em nada, é bem neste sentido que… e mesmo isso não é verdade!
(Entretien avec Jean-François Duval)

Um comentário em “Niilismo”

  1. o nada é dissuador, tirando isso é uma ciência exata, estás longe de interpretar o nada, não se aplica nos nadas dos adjectivos ou sentimentos humanos, sou autor de uma lista extensa de aforismos niilistas

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