“L’héritage de Pascal dans l’oeuvre de Cioran” (Manuel de Diéguez)

Revue des études roumaines et Arena, 1961

Le meilleur hommage que nous puissions rendre à un écrivain vivant est d’en parler avec la haute cruauté de l’amour que nous portons aux morts, parce que la République des Lettres est la seule où devrait régner la justice éternelle des trépassés. C’est pourquoi Montherlant voulait qu’on écrivît comme si l’on était mort. Chez Cioran, justement, ce qu’il y a de plus vivant et de proprement pascalien, est de l’ordre de la mort, ce “roi des épouvantements“. Entrons donc un peu dans la nuit des modernes, celle d’un Pascal sans Dieu et admirons?en les vertiges. Il faut parler sans fioritures de Cioran. Le crime de frivolité est le pire à l’égard du Précis de décomposition, dont la parution a illustré avec éclat l’heureuse évidence que la littérature française comptait un authentique écrivain roumain de plus.

De la famille roumaine dans nos Lettres, Cioran présentait quelques traits essentiels: comme Panaït Istrati ou Gheorghiu, le jeune écrivain était, au fond, un moraliste; et comme eux, un moraliste indigné; et comme eux encore, tumulteux et profond, tragique et hyper lucide, comme si la race latine de là?bas était seule parvenue à introduire nos démons de la clarté, de l’analyse et de la précision dans le gouffre asiatique et les vertiges dostoiewskiens. Curieux phénomène, en vérité : les grands écrivains roumains de langue française ont un sens de la crispation, de la solitude, de la fureur et des abîmes qui se nourrit de la proximité des steppes; mais, latins, ils le sont jusqu’au bout des ongles par l’ordonnance de leurs écrits et par l’élégance qu’ils introduisent dans leurs tempêtes.phénomène, en vérité : les grands écrivains roumains de langue française ont un sens de la crispation, de la solitude, de la fureur et des abîmes qui se nourrit de la proximité des steppes; mais, latins, ils le sont jusqu’au bout des ongles par l’ordonnance de leurs écrits et par l’élégance qu’ils introduisent dans leurs tempêtes… [+]

“O homem e sua inconsistência: traços de uma leitura antropológica na filosofia de Nicolás Gómez Dávila” (Pablo Andrés Villegas Giraldo)

Nicolás Gómez Dávila

Sobre Nicolas Gómez Dávila (1913-1994): Wikipedia (Esp) | Wikipedia (Ing)

Sobre Pablo Andrés Villegas Giraldo: Filósofo, ensaísta e poeta, nascido em Santa Rosa de Risaralda, na Colômbia. Graduou-se em Filosofia pena Universidad Tecnológica de Pereira (UTP) e, desde 2010, pertence ao grupo de investigação “Filosofia e ceticismo” da mesma instituição. Participou de congressos nacionais e internacionais com conferências sobre estética e teoria da arte. Publicou trabalhos sobre Nietzsche, Bataille, Oscar Wilde, Cioran e Nicolás Gámez Dávila. Sobre o pensador bogotano foi dedicada seu trabalho de conclusão de curso em Filosofia. É autor, entre outros trabalhos, de “Nietzsche y la voluntad de poder como arte”, publicado na coletânea Em torno a Cioran – nuevos ensayos y perspectivas (Pereira, 2014). Em 2015 serão publicados “El Ruiseñor y la Rosa de Óscar Wilde y el sentido del sacrificio”, na revista argentina Realidad y Ficciones, “La educación y el escepticismo:contrastes de un filósofo auténtico”, no volumen de memorias do V Congreso Colombiano de Filosofia, e “El escepticismo y la fe en el pensamiento de Gómez Dávila”, nas Memórias do V Encuentro Internacional Emil Cioran. Trabalha como revisor em diversas revistas eletrônicas nacionais e internacionais e redige uma coluna para o jornal El Faro sobre temas como poesia, literatura, arte, teatro, realidade social e violência de gênero enfocada desde a dignidade da mulher.

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A filosofia do pensador colombiano Nicolas Gómez Dávila parece estar em uma constante tensão entre o ceticismo e a fé. Pode-se ver, ao longo de sua obra e em grande parte de suas anotações, essa atitude descrente que provoca a dúvida filosófica; do mesmo modo ratifica, em outros, sua total confiança em Deus e na Igreja pré-conciliar,[1] vista não apenas como exemplo de governo hierárquico perfeitamente organizado, mas também como educadora: mãe e mestra (mater et maestra). Tanto para defender seus próprios argumentos como para atacar e criticar seus adversários, o autor colombiano se vale de sua fé através do descrédito nos ideais da razão, da ciência, da técnica, da democracia, da modernidade e do progresso, entre outros. Mas não creia o leitor que o autor deste ensaio tenha a intenção de reduzir o pensamento de Don Nicolás à tensão expressada no começo. Não, de modo algum, e seria um erro pretendê-lo, já que a obra de Gómez Dávila é irredutível, tem mil matizes aqui e lá que não podem ser contidos todos em uma só linha de leitura, e que estão deste modo estruturados, enriquecendo seu pensamento.

Não obstante, se tivéssemos que resgatar um traço, se fosse necessário determinar: “o que é que unifica a filosofía gomezdaviliana?”, concluiríamos sem equívoco que é essa tensão entre o ceticismo e a fé. Os inimigos de Gómez Dávila são os inimigos da fé católica que se alçam como estandarte na modernidade e que são tomados como protótipo nos anos seguintes, entre outros: o progresso, a técnica, a democracia, a moda, a razão divinizada, o homem emancipado de Deus, etc. E para lutar contra esses inimigos, reveste seu pensamento de ceticismo, para atacá-los com as armas da dúvida, da ironia, da indeterminação, mas também com a máxima, com a sentença, com a conclusão irrefutável, com a expressão dogmática amparada na tradição. Para este combate, Gómez Dávila recorrerá a um estilo arcaico no qual se contam os mais antigos e clássicos fragmentos assim como os mais recentes aforismos.

Don Colacho, como o chamavam carinhosamente seus amigos mais próximos, prefere não chamar suas anotações de “aforismos” mas tão somente como escólios. O aforismo é – de acordo com a definição mais aceita – uma sentença breve e doutrinal que se propõe como regra em alguma ciência ou arte, e neste sentido as anotações de Gómez Dávila não têm nada em comum com estas aspirações, ainda que algumas de suas frases são tão breves que cabem em seis ou sete palavras, enquanto outros ocupam várias linhas; por outro lado, suas frases não mostram nenhuma intenção de doutrinar, sendo ocorrências que se acrisolam com o passar dos dias, que se alimentam com as leituras do autor e que finalmente caem sobre o papel como gotas de chuva, condensadas pela paciência e pela espera. De modo que suas anotações não passam disso: notas à margem, ou seja, escólios. Talvez se possa tampouco reduzir a obra do pensador bogotano a uma forma específica, de modo que tenhamos de nos contentar com analisar cada fragmento em si mesmo e/ou recorrendo a algumas relações com o resto de sua obra, mas sem chegar a definir de maneira estrita qual é a forma ou o esstilo de sua escritura.

Por outro lado, um escólio é uma nota marginal que se escreve sobre um texto. Trata-se de uma prática muito antiga que remonta aos copistas alexandrinos, e que foi amplamente praticada pelos monges medievais, que tinham a difícil tarefa de transcrever símbolo por símbolo, letra por letra, tratando de nada alterar nos textos clássicos, quer se tratem de obras filosóficas ou literárias. Esse exercício que se pode comparar a uma difícil pintura foi o que permitiu que muitas obras antigas fossem conservadas até os nossos dias, anteriormente ao surgimento da imprensa. Além disso, havia, entre esses amanuenses, homens mais dotados intelectualmente que, tendo compreendido o obscuro sentido de um texto, se aventuravam a comentá-lo, às vezes de forma breve (escólio), às vezes extensa (glosa). Don Nicolás não é um amanuense mas pode ser considerado, isso sim, um escoliasta, de modo que o texto comentado é o grande miolo da sua obra – oculto entre suas linhas nos sai um Texto Implícito que alguns ousaram definir. Um texto implícito que pode ser sua obra, sua vida, sua biblioteca, a democracia, o reacionarismo, a tradição ocidental, o homem, Deus, entre muitos outros, um texto implícito que não é apenas um, mas o conjunto de todos os textos implícitos que habitam o pensamento de Don Colacho. Pensamento que se estende desde Textos I e Notas até o último de seus escólios. Tampouco se pode, e nisso é preciso ser radical, reduzir o que este texto contém, não se pode determinar de maneira nenhuma o que o implícito em sua obra nem mesmo se ele nos contasse em meio a risadas. Porque, como fora dito, não é apenas um texto a ser comentado senão muitos, todos e qualquer dos mundos que habitam sua biblioteca.

Sua obra é comparável a uma pintura, como ele mesmo diz, a um autorretrato. Suas frases, assim breves, “são os toques cromáticos de uma composição pointiliste.”[2] Este termo faz referência ao estilo com que alguns artistas de finais do século XIX pintavam seus quadros, o procedimento desta  técnica consistindo em pôr pontos de cor pura sobre a tela em vez de pinceladas; disso resulta uma uma “combinação” de tons que deixa a sensação desejada ao serem contemplados a uma certa distância. O leitor da obra de Gómez Dávila deve ter isso em mente para que saiba distanciar-se ou aproximar-se em busca da combinação harmônica de que resulta o retrato pintado pelo pensador bogotano: “Filosofia pointilliste: pede-se ao leitor que gentilmente faça a fusão dos tons puros.”[3] Pode-se afirmar sem dúvida de que da obra gomezdaviliana brota o retrato do homem, desse homem que é, no fundo, o sentido de toda investigação filosófica e que, em Gómez Dávila, é o sentido e o fim do seu reacionarismo, pois, mais que um reacionarismo político ou religioso, o filósofo bogotano é um reacionário moralista. Isto se pode afirmar com base no fato de que seu propósito, como fora afirmado parágrafos acima, é descrever o homem que vive entre fragmentos, seu ceticismo antropológico ainda que soe um jogo de palavras não é mais do que uma antropologia  reacionária.

Esta posição parte de deixar claro que no se trata pensar um homem idealizado, irreal, ou, neste caso, irrealizável, senão um homem frágil, que avança a pé – como diríamos coloquialmente –, esse homem que nasce rebelde, inapreensível, esquivo, cuja natureza repugna,[4] cuja condição deplorável se quis embelezar com uma ideia falsa de dignidade humana baseada na divinização da razão. Mas este homem tornado Deus não é o homem real, não é o homem concreto, é um ideal inalcançável produzido por sua mentalidade confundida pela não aceitação da condição humana tal como ela se manifesta na cotidianidade. Alguns fragmentos extraídos da obra do bogotano mostram isso que foi dito: “O homem afirma que a vida o envilece, para esconder que ela o revela”[5]; O amor que têm pelo homem futuro está constituído pelo seu ódio ao homem de carne e osso.”[6] O primeiro se refere ao não acatamento  da condição humana, a essa tendência a embelezar e deslumbrar a partir de uma “razão triunfante”, do engano que revela Pascal quando afirma que o homem não é mais do que mentira, falsidade, capaz de ocultar-se a si mesmo; na verdade é a vida que desmascara o homem e permite vê-lo como é na realidade, não como o homem embelezado e “mistificado”, mas como um homem de carne e osso. Desse homem sem máscara diria Miguel de Unamuno: “este homem concreto, de carne e osso, é o sujeito e ao mesmo tempo o supremo objeto de toda filosofia, queiram ou não certos falsos filósofos,”[7] este homem concreto é o que pretende pintar Don Nicolás, é aquele que podemos ver quando juntamos os tons puros de sua composição.

O retorno ao homem é uma solicitude permanente na obra gomezdaviliana.[8] Para além da crítica do autor à máquina moderna e toda sua parafernália progressista, o pensador dos Andes propõe voltar a mirada ao homem e apartá-la da máquina; por exemplo, pensa que o moderno deveria humanizar a r técnica antes de tecnicizar o homem – e esta preocupação se deve ao fato de que cresce cada vez mais a ausência de humanidade no homem, de que o homem se torna cada vez mais frágil, mais perdido em meio a um mundo tecnicizado, de que quanto mais elemental e néscio é o homem, mais a máquina parece tornar-se mais complexa a cada dia. Também descobre que o homem moderno parece não se importa com sua decadência, ao ponto de não prestar atenção ao próprio conhecimento, de abandonar-se à própria sorte em meio à sua ignorância, chegando ao ponto de conhecer mais o mundo do que a si mesmo.

Aqui só se mostra uma maneira de ler esse retorno ao homem que parece a Don Colacho não apenas urgente, como necessário. Desde que traçou seu itinerário em Notas (seu primeiro livro publicado), se questionou sobre uma solução frente à barbárie da existência: “Me é impossível viver sem lucidez, impossível renunciar à plena consciência da minha vida”,[9] em referência ao princípio socrático segundo o qual uma vida sem reflexão não merece ser vivida. Neste propósito que se assume Don Colacho, e que ele tenta cumprir até o último dia da sua vida, pode-se ver o princípio délfico antigo gnóthi seautón (conhece-te a ti mesmo) que deriva nas técnicas do cuidado de si. Nesta ordem de ideias, viver uma vida lúcida implica estar consciente de si mesmo, dos limites de sua condição, de sua incapacidade; mas também de seu alcance e sobretudo de estar disposto a cuidar de sua alma. Noutras palavras, e se estendermos esta confissão do pensador bogotano, é impossível que o homem viva realmente se não fazendo-se consciência de sua condição de criatura: frágil, fragmentado e, de fato, inconsistente, pois, pela perspectiva cética de Gómez Dávila, só há duas maneiras pelas quais o homem pode assumir sua condição, ou vive a si mesmo como angústia[10] ou o faz como criatura.[11]

A alternativa proposta por Gòmez Dávila ante o sem-sentido da vida é, por um lado, a religião, por outro, a arte. Tanto as expressões artísticas quanto o espírito religioso são insubstituíveis, inevitáveis, e, de fato, fundamentais para se compreender essa terrível tragédia que é a existência mesma do homem, essa manifestação da alma humana através dos sentidos: nas cores, nas superfícies, nos sons, etc.; por outro lado, a religião abre o horizonte ao homem que finalmente compreende que sua vida não termina com a morte e que ao dar esse último passo na existência outro futuro o aguarda. Tanto o espírito religioso quanto a arte brindam essa confiança de transcendência ao ser humano, essa possibilidade de prolongar-se indefinidamente. Posto que a religião, assim como a arte, reponde a esse caráter humano de fascinação pelo efêmero em que se dão de maneira simultânea o presente e o passado, o presente como esse fluir que se nos esvai como água entre os dedos, o passado como essa possibilidade de prolongar-nos, de conservar e reter o fugidio, e é a arte, enquanto esforço criativo, que nos permite permanecer, que perpetua os instantes através de sua linguagem. Assim mesmo o espírito religioso busca prolongar os instantes, servindo de indício ao crente de sua transitoriedade quando se deixa fascinar, quando se deixa atrair por sua linguagem misteriosa y simbólica, quando compreende que também compartilha a mesma condição frágil, vacilante, inquieta, etc., e que através dela (a religião) ele pode ser transfigurado.

E, não obstante, isso não significa que o homem encontre as respostas a suas inquietudes na religião, antes o contrário: encontrará na religião outro edifício de problemas, por ser essencialmente humana. A religião católica – voltando ao nosso autor – não é solução porque a razão de ser do cristianismo é servir de caminho,[12] de ser uma ponte entre o homem e Deus. É neste que o homem encontra todas as respostas e onde sua vida adquire sentido: à medida que Nicolás Gómez Dávila nos mostra o Criador próximo de sua criatura, sempre que o homem saiba buscá-lo com humildade. Deus brinda-o com sua proteção a pesar de sua debilidade, acolhe-o apesar de sua soberba, se – e apenas se – o homem esteja disposto a reconhecê-lo como seu criador. Pois, à medida que o homem se sente criatura, Deus o faz sentir misteriosamente albergado, protegido, nunca abandonado. O Criador faz com que o homem não seja mais um instrumento vazio levado pelas águas do progresso e da técnica, que não seja apenas uma peça mecânica de toda a engrenagem moderna,[13] mas que, apesar de tudo, o homem siga sendo um fim em si mesmo: “A Igreja [como Vicária de Deus no mundo], com efeito, não vê o homem como peça inerte sobre o tabuleiro do destino, mas como um agente insubmisso de desígnios que o tem como fim.”[14]

Apenas a fé, na filosofia gomezdaviliana, aproxima o homem do seu próprio conhecimento,[15] para que tenha consciência de sua condição, e apenas a fé o salva da angústia, apenas ela – como vimos no parágrafo anterior – resgata-o de ser apenas um instrumento e um meio, e o revela, tal como é, como um fim em si mesmo. Essa religião filosófica é regida por dois princípios que vivem em total cumplicidade: o ceticismo e a fé,[16] sem os quais não se poderia pensar, pois apenas o ceticismo nos empurra para uma total incredulidade, a um agnosticismo, à irresolução; apenas a fé nos submete a um fideísmo irracional, a uma teologia sincrética e absurda. Para que estes princípios convivam é necessário que se assente como base filosófica do Credo in Deum a tese que ditara o pensador bogotano com o escólio: “Do importante não há provas, apenas testemunhos.”[17]
(Nota: agradeço o convite de Rodrigo Inácio Ribeiro para publicar este humilde texto. Escrevi-0 sem mais pretensões que corresponder à sua sincera amizade filosófica.)

Alguns aforismos de Nicolás Gómez Dávila:

“Só vive a sua vida aquele que a observa, a pensa e a diz; os demais são vividos por sua vida.” (Escolios a un texto implicito)

“Entre poucas palavras é tão difícil esconder-se como entre poucas árvores.” (Escolios a un texto implicito)

“As almas que não são teatro de conflitos são palcos vazios.” (Escolios a un texto implicito)

“O mistério é o único infinito que não parece prisão.” (Escolios a un texto implicito)

“O cristianismo não inventou a noção de pecado, mas a de perdão.” (Escolios a un texto implicito)

“Só há epifanias no silêncio dos bosques. Ou no silêncio da alma.” (Escolios a un texto implicito)

“O fragmento inclui mais que o sistema.” (Escolios a un texto implicito)

“Não pertenço a um mundo que perece. Prolongo e transmito uma verdade que não morre.” (Escolios a un texto implicito)

“Entre o ceticismo e a fé não há conflito, mas pacto contra a impostura.” (Nuevos Escolios a un texto implícito)

“O moderno conhece cada dia mais o mundo e menos o homem.” (Sucesivos Escolios a un texto implícito)

“O fragmento é o meio de expressão daquele que aprendeu que o homem vive entre fragmentos.” (Nuevos Escolios a un texto implícito)

“O mais notório das conquistas do homem é sua trivialidade.” (Sucesivos Escolios a un texto implícito)

Tradução do espanhol: Rodrigo Menezes

Notas:

[1]     Catolicismo pré-conciliar faz referência aqui à série de mudanças na Igreja que começaram a gestar-se do século XIII em diante, a abertura ao mundo universitário, a chegada dos Conciliaristas (que afirmavam que o Papa devia submeter-se ao que era decidido pelos Concílios), eventos que abriam uma brecha com repercussões importantes nos Concílios Vaticano I e II. Começa uma dessacralização da Igreja devido à descristianização da ciência e o apogeu da Escolástica que introduz ideias muito questionáveis e até heréticas baseadas no pensamento de Guilherme de Occam. E o que Gómez Dávila vai mais combater é a cristianização dos princípios aristotélicos empreendida por Tomás de Aquino, esse ato do Aquinate desembocaria – como não há dúvida – nas futuras Reformas e nas novas heresias da Igreja que não poderão ser enfrentadas como antes e que vão deteriorar tanto sua estrutura sócio-política quanto espiritual. O claro reflexo dessa crise da Igreja chega a um ato conclusivo e lamentável que conhecemos como Concílio Vaticano II, convocado po Jõao XXIII e concluído por Paulo VI, e cuja aplicação permanece em nossos dias.

[2]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo I, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 15.

[3]     Gómez Dávila, Nicolás, Notas 2a ed, Bogotá, edición digital autorizada por Villegas editores, 2007, p. 401.

[4]     O itálico pertence ao fragmento: “O homem nasce rebelde. Sua natureza o repugna.” Gómez Dávila, Nicolás,Textos I, Bogotá, edición digital autorizada por Villegas editores, p. 2.

[5]     Gómez Dávila, Nicolás, Escolios a un texto implícito, Tomo II, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 102.

[6]     Gómez Dávila, Notas, óp. Cit., p.75.

[7]     Unamuno, Miguel de, Del sentimiento trágico de la vida, Edición digital publicada por Medellín ciudad digital, p. 1.

[8]     Leia-se, por exemplo, o escólio: “A filosofía precisa retornar ao homem a cada tantos séculos.” Gómez Dávila, Nicolás, Nuevos escolios a un texto implícito, Tomo II, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 111.

[9]     Notas, p. 39.

[10]   O teólogo alemão Hans Urs Von Balthasar afirma, logo depois de fazer una extensa referência ao problema da angústia em Kierkegaard, que a angústia não debe ser considerada um problema do homem moderno, mas que sempre existiu no homem de todas as épocas; acontece que a modernidade possui certas características que fizeram com que essa angústia – própria da natureza do homem – aumentasse: “(…) um mundo mecanizado, cuyo mecanismo inaudito absorve inexoravelmente o mole corpo e a alma do homem, transformando-o numa roda do mecanismo – de um mecanismo que, absorvendo tudo, chega a não ter sentido – : a angústia do homem numa civilização que faz saltar a medida humana e cujos espíritos ele não pode voltar a sujeitar.” Von Balthasar, Hans Urs, El cristiano y la angustia, Madrid, Ediciones Guadarrama, 1964, p. 27-28.

[11]   “O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.” Gómez Dávila, óp. Cit. Escolios… Tomo I, p. 138.

[12]   Isto se vê de maneira excepcional no cristianismo primitivo e original; com efeito, antes de se chamarem cristãos, eran chamados de Discípulos do Camino aos Seguidos de Cristo. O esclarecimento se deve ao fato de que ese cristianismo se degenerou, sobretudo no Ocidente, ao longo dos séculos, convertendo-se no sincretismo religioso de que somos testemunhas na atualidade, e que tanto critica, com firmeza, Don Colacho em sua obra.

[13]   Infra nota de rodapé 9.

[14]  Textos, p. 87.

[15] “Entre o ceticismo e a fé há certas conivências: ambos minam a presunção humana”. Gómez Dávila, Nicolás, Sucesivos escolios a un texto implícito, Bogotá, Villegas editores, 2005, p. 36.

[16] Talvez se possam encontrar razões para esta certeza na leitura que Gómez Dávila faz de Pascal, já que o filósofo francês afirmara: “É necessário, para que uma religião seja verdadeira, que tenha conhecido nossa natureza. Ela deve ter conhecido a grandeza e a pequenez, e a razão de uma e de outra. Quem as conheceu, senão a religião cristã?” Pascal, Blaise,Pensamientos II, edición digital de El Aleph, 2001, p. 13, § 433.

[17]   Gómez Dávila, óp. Cit., Nuevos…, Tomo I, p. 50.

“O amargo saber de Cioran” (José Thomaz Brum)

Texto publicado em O Globo, domingo, 10 de fevereiro de 1991

É uma ironia e um estranho acaso o fato de ser publicado um livro de Cioran (“Silogismos da amargura”, editora Rocco, 98 pags. Ainda sem preço) em um momento em que a humanidade — mais uma vez — põe em cena o único personagem imutável de sua história: a Guerra. Não é ele quem considera a História uma absurda sucessão de bancarrotas ridículas? Não é ele que, apaixonadamente, reflete sobre essa criatura fracassada que é o homem e pensa sua existência como “uma agonia sem desenlace”? Um cenário sombrio como o da Guerra do Golfo Pérsico faz um irônico à filosofia deste pessimista que maneja aforismos com a perfeição dos grandes moralistas.

Nascido em uma aldeia da Transilvânia em 1911, Cioran descende dos antigos Dácios, povo cujo grito existencial pode ser traduzido na voz do poeta Mihail Eminescu: “Tudo é apenas nada e assim somos nós, apenas pó”. O pessimismo de Cioran é temperado por um ceticismo que visa a conservar no homem uma angústia inconsolável, único meio, segundo ele, de não nos refugiarmos em qualquer abrigo idealista. Tendo escrito cinco livros em romeno (o primeiro, “Nos cumes do desespero”, só foi publicado em francês no ano passado), foi a partir do “Breviário de decomposição” (1949) que Cioran se tomou um prosador e pensador propriamente ocidental. O “Breviário” expõe da forma mais nítida a filosofia cioranesca: o homem é uma criatura decaída, presa na duração e na angústia que dela decorre. Sua dor maior não é apenas a morte, à qual está inevitavelmente destinado, mas o sufocamento na insignificância e no efêmero. Açoitado pela doença e pela precariedade corporal, o animal humano possui uma alma ávida de voos eternos, mas que recai sempre em um calabouço verbal onde reside com seus fantasmas e ilusões. Este paradoxo encarnado se engaja em campanhas em nome de ideais, procura impô-los aos outros, entusiasma-se em convencer e impor verdades. Daí a História, essa ânsia de primar e prevalecer, de fugir de nossa condição miserável, “esse dinamismo das vítimas”.

A filosofia existencial de Cioran não deve ser contundida com a “segunda geração existencial” (Heidegger, Sartre, Camus), mas sim com os “pensadores privados” (Nietzsche, Dostoievski, Chestov), que procuram conservar no homem a kierkegaardiana “síncope da liberdade”, a angústia que não deve ser resolvida por nenhum ideal sob pena de perdermos a grande riqueza humana: sua recusa a tudo o que busca aplacar o abismo interior por qualquer falso consolo ou transcendência. Reconhece-se aí o espaço cioranesco: se a História, com seu devaneio sanguinário, procura calar as “tagarelices do existente particular”, o indivíduo deve agarrar-se a seu irredutível nada, fazer valer o subterrâneo de Dostoievski e o abismo de Pascal contra qualquer conciliação ou apaziguamento existencial. Esta opção pela “inquietude incessante” marca a filosofia de Cioran assim como dois grandes temas que perpassam a sua obra: um, teológico, o Demiurgo perverso que, incapaz de permanecer na “beatitude da inação”, criou o mundo e ocasionou o Mal. Outro, histórico, a decadência inexorável da civilização ocidental.

Estes dois temas caracterizam o alcance do pensamento de Cioran que procura abarcar, com uma escrita aforística, o arco conceitual que vai do individuo irredutível ao “homem agente da História”. O tema do Demiurgo perverso, presente na tradição gnóstica como interpretação herética da origem do mal no Mundo, está desenvolvido no livro “Le mauvais demiurge” (1969). “Devemos”, diz Cioran, “admitir que o Mal governa o mundo e que o demônio tem grande familiaridade conosco, por seus paradoxos e contradições. A imagem teológica é utilizada para ilustrar a frase pessimista: “A injustiça governa o Universo”. A decadência do Ocidente, tema já abordado por Spengler, ganha em Cioran uma nova dimensão. Filho do esfacelado império austro-húngaro, o transilvano Cioran pode dizer com sinceridade: “Na Europa, a felicidade acabou em Viena. Depois disso, maldição atrás de maldição”. As duas guerras mundiais, a desagregação operada pelos totalitarismos, o recente “fim do comunismo”, os emergentes conflitos nacionalistas, tudo isso descreve um panorama histórico marcado pela desolação.

“Silogismos da amargura”, texto de 1952, na época de sua publicação na França, foi “um fracasso extraordinário”, segundo palavras do próprio autor. O editor da tradução alemã considerou-o “superficial” e indigno do autor do “Breviário de decomposição”. Vinte e cinco anos depois, os “Silogismos” foram reeditados em edição de bolso e tornaram-se “uma espécie de breviário” para os jovens europeus, sobretudo na Alemanha — que acaba de editar suas obras completas. Este livro compreende um conjunto de aforismos sobre temas diversos (literatura, filosofia, religião. história), e seu tom constante é o de um ceticismo desesperado, uma voz lúcida que extravasa amargor e ironia. Sintoma de uma crise, o livro pode ser lido com melhor proveito em épocas de crise, coletiva ou individual, onde a incerteza e a ansiedade parecem reinar sobre as esperanças humanas.

Vivemos em uma atmosfera propícia para compreender os ensaios refinados deste romeno apátrida. Se o fim do século passado teve o classicismo noturno do irritadiço Schopenhauer, nosso fin de siècle devastado por tanta miséria, guerras e idolatria tecnológica possui o seu “cético de plantão” na figura de Cioran. Na Romênia, só agora se planeja uma edição de suas obras completas. O regime de Ceausescu expurgara a produção de um dos três romenos mais influentes na cultura ocidental contemporânea (os outros dois são Mircea Eliade e Ionesco).

Se a guerra é o personagem inalterável da História, então o homem parece confirmar a definição da Cioran: criatura fracassada e ávida de mais fracasso. A “justiça” dos homens legitima o horror das carnificinas e lhes dá o verniz hipócrita do “direito de matar”. Talvez agora se entenda o “niilista” quando focaliza o olhar nas vitimas e não nos vencedores odiosos. Expressando a consciência dilacerada de sua época (assim como Beckett), Cioran manifesta em seus aforismos uma aversão à “idolatria do devir” e às superstições do progresso. Dirigindo sua atenção para o indivíduo particular, entregue a suas misérias e êxtases anônimos, ele não vê nenhuma grandeza na História, “essa ilusão sanguinária”. O homem, tantas vezes vilipendiado pela pretensa “seriedade da História”, é — paradoxalmente — celebrado por este “fanático sem credo”. Quando Cioran escolhe como tema a criatura humana e seu corpo-a-corpo com a finitude, com o nada e com a morte, ele a exalta em sua precariedade que nenhuma ficção histórica podara “resolver”.

Mariana Sora, romena, ex-aluna de Mircea Eliade, tem razão ao dizer que “há em Cioran um grande amor pelo ser humano” pela relatividade de seus “pobres valores”. Roland Jaccard, em recente livro sobre o niilismo, afirma que os aforismos de Cioran são “dedos apontados para o nosso mundo agonizante”. Estranha coincidência que faz com que a História forneça mais um exemplo desta agonia, desta negação do Bem e da Justiça. Em épocas de crise, corre-se a profetas e cartomantes. Nostradamus previu o que vivemos? É o fim do Mundo? Não, diz Cioran nos “Silogismos”. É a nossa ansiedade que, “ávida de desastres iminentes”, projeta o apocalipse em cada impasse histórico ou pessoal. O pensamento de Cioran, com sua lucidez feroz, nos faz ver em nossos impasses e crises fontes de autoconhecimento e reflexão.

José Thomaz Brum é professor de Filosofia na PUC e tradutor de três livros de E. M. Cioran.

Paulo Piva: “A evolução do pensamento cético”

Desde a Grécia Antiga, com a escola pirrônica, as idéias do ceticismo foram debatidas e combatidas, com importante papel nas transformações da Filosofia moderna

POR PAULO JONAS DE LIMA PIVA – Artigo publicado no portal Ciência e Vida

Passamos a entender um pouco melhor o ceticismo filosófico e a perceber o quanto Sócrates, o patrono da filosofia e mestre de Platão, era dogmático e pretensioso quando nos deparamos com a seguinte frase de Metrodoro de Quiós, um discípulo do atomista Demócrito: “Nem sei se nada sei”. Contra a certeza e, portanto, contra a falsa modéstia do “Só sei que nada sei” socrático, a dúvida e a desconfiança cética de Metrodoro de que é possível que saibamos algo. Assim sendo, o ceticismo não é um pessimismo ou um negativismo epistemológico como muitos o definiram. Cético não é aquele que afirma que a verdade não existe, mas sim aquele que confessa não conhecê-la, sem com isso desistir de procurá-la.

Em 1562, surgiu na Europa uma tradução latina das Hipotiposes pirrônicas, do médico grego Sexto Empírico, por assim dizer, a “bíblia” do ceticismo originado com Pirro de Élis, no século IV a.C. Era a época do Renascimento, momento em que, no caso específico da Filosofia, o pensamento passou a intensificar sua luta contra a ideologia da Igreja de que a Filosofia deveria ser serva da Teologia. Estimuladas em grande medida pelo método e pelas objeções céticas difundidas por essa tradução. As discussões filosóficas do período, cujo tom era dado pelo conflito entre fé e razão, deram origem a uma forma curiosa de ceticismo: o ceticismo cristão, também classificado paradoxalmente de “ceticismo fideísta ou fideísmo cético”. Filósofos cristãos como Michel de Montaigne (1533- 1592), por exemplo, usaram todo o arsenal cético de argumentação para demonstrar que a razão era limitada e insuficiente para estabelecer critérios seguros e definitivos sobre os quais pudesse se erigir verdades indubitáveis, e que os sentidos eram enganadores, enfim, para persuadirem que o saber das ciências era de fato precário. Portanto, de acordo com esses religiosos céticos, o mais adequado aos homens seria mesmo se apegar à fé, ou seja, orientar-se na vida, sobretudo, pelos dogmas da Bíblia e da religião católica, pois seria mais seguro… [+]

E. M. Cioran: La caída en la palabra (Juan Manuel Tabío)

Quien visite hoy la región de Transilvania tal vez comprobará que la trillada mitología vampírica, ausente en cualquier folklore convincente, se debe exclusivamente a las ficciones góticas y a la industria de Hollywood, pero difícilmente encontrará un panorama radicalmente distinto del que vio nacer, hace ahora cien años, a Émile Cioran:un paisaje de una profundidad abisal (al fondo, los Cárpatos) en el que parecen disolverse ciudades deprimidas, ubicadas en la periferia de Europa, en el limes dacio dela Historia.

Reacio a aceptar otras determinaciones que no fueran las provenientes de la teología o de la biología, receloso del libre albedrío (uno de sus reparos de mayor peso contra elexistencialismo sartreano), el apátrida Cioran nunca dejará de reconocer el ascendientede su suelo natal en la configuración de su personalidad y su pensamiento, y agradecerá al fatum balcánico -o a sus genes- el haberle proporcionado en herencia el áspero ciclode quiebras que se requiere para forjar una convicción en la inutilidad esencial de losactos: “Fracasar en la vida, esto se olvida con demasiada frecuencia, no es tan fácil: se precisa una larga tradición, un largo entrenamiento, el trabajo de varias generaciones” [+]

A sabedoria da desilusão (José Thomaz Brum)

exercicios_guanabA SABEDORIA DA DESILUSÃO*

José Thomaz Brum

“Equivocar-se. viver e morrer enganados, isto é o que fazem os homens. Mas existe uma dignidade que nos preserva de desaparecer em Deus e que transforma todos os nossos instantes em orações que não faremos jamais.” (Précis de décomposition)

A filosofia não é apenas, nem principalmente, uma análise da linguagem ou uma critica da sociedade e da cultura. Ela é também uma sabedoria que se debruça sobre os problemas inatuais da existência (a morte, o efêmero. a insignificância), como uma terapêutica. A filosofia pode ser — assim como foi para os antigos, estóicos, epicuristas, e seus herdeiros modernos, os moralistas — um meio de encarar o inassimilável da vida humana, com uma consciência livre de ficções e ilusões. Continuador da tradição aforística e anti-sistemática de Kierkegaard e Nietzsche, o romeno E. M. Cioran é o mais rigoroso e exigente dos moralistas contemporâneos. Sabedoria terapêutica, método de desfascinação, seu pensamento procura ser um exercício, uma ascese em direção à lucidez que revele a ausência de fundamento, a inanidade de tudo. Cioran nasceu em 1911 em Rasinari (Transilvânia), filho de um sacerdote ortodoxo. Licenciou-se pela Faculdade de Bucareste com um estudo sobre Bergson e, em 1937, foi para Paris com uma bolsa de estudos do Instituto Francês de Bucareste. Juntamente com Mircea Eliade e Ionesco, compôs o trio de romenos célebres que escolheu Paris para viver. Estrangeiro na “cidade dos metecos”, assumindo esta deriva, partiu em busca de si mesmo, decidiu falar em seu próprio nome, seguindo a fórmula de Montaigne: “Eu sou a matéria da minha obra.” Sua condição de romeno desgarrado no cosmopolitismo parisiense colocou-o na posição que, segundo diz, é a ideal para um intelectual: apátrida, exilado. Tendo abandonado a “vitalidade balcânica” de sua língua materna, Cioran se defrontou com os “pálidos refinamentos do francês”. Deu, assim, forma linguística ao conflito entre a barbárie e a decadência, que constitui um dos grandes temas de sua obra. É desta posição de estrangeiro total, de “possuidor de raízes muito tênues mas inoperantes” que Cioran fala do vazio metafísico da vida, forjando uma espécie de sabedoria da desilusão.

Utilizando o francês, que considera a língua ideal para sentenças breves e incisivas, Cioran lança, em 1949, o seu Précis de décomposition. É o ano de Les structures élémentaires de la parenté de Lévi-Strauss e de La part maudite de Bataille, obras que reforçam a solidão e a singularidade de Cioran. Escrito em estilo suntuoso e vigoroso, o Précis formula uma filosofia pessimista e exaltada para a qual toda crença é um refúgio e “a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se coloca nela”. A partir daí, em intervalos longos, publica coletâneas de aforismos e ensaios de títulos irônicos e elegantes como Silogismos da amargura (1952), A tentação de existir (1956), A queda no tempo (1964), textos que expressam a mesma visão crepuscular que considera o homem um fantasma sobre a Terra, sofrendo “a magia do possível”. Em todos eles, o acento é colocado sobre a idéia de lucidez, esta palavra que significa clarividência, liberdade diante do delírio ou da loucura: “A consciência não é a lucidez. A lucidez, monopólio do homem, representa o desenlace do processo de ruptura entre o espírito e o mundo; é necessariamente consciência da consciência e, se nos distinguimos dos animais, o mérito ou a culpa é sua.”

Consciência da consciência… isso define o pensamento de Cioran conto um “pensar contra si-próprio”, um exercício de autoquestionamento. A filosofia deve tematizar este animal que se tornou “interessante” por sua própria insuficiência vital, por sua recusa dos instintos, como afirmara Nietzsche na Genealogia da moral. Deve tematizar, destruindo, elaborando uma sabedoria negativa, pois “o pensamento é, na essência, destruição”. E pensar contra nós próprios é pensar contra nossas crenças, nossas ilusões, fazer um “exercício de desfascinação”. que é como Cioran define o ceticismo.

Mas este pensamento que leva o ceticismo a seus limites tem suas obsessões, suas manias. Uma obsessão teológica: o Demiurgo perverso que, incapaz de permanecer na “beatitude da inação”, criou o mundo e ocasionou o mal. Esta concepção herética, inspirada na tradição gnóstica, fundamenta cosmicamente um universo regido pela desproporção e pela injustiça. É a visão expressa em Le mauvais demiurge (1969), que levou Jacques Lacarrière a detectar em Cioran “as mais elevadas fulgurações do pensamento gnóstico”. Uma obsessão histórica: a decadência. Como pensador da visão lúcida capaz de dissolver as crenças que dão coesão e solidez à vida dos homens, Cioran vê uma relação intrínseca entre as épocas de decadência e a possibilidade da lucidez. Estes períodos, momentos de suspensão e dúvida extremada, colocam as verdades sob suspeita e abrem caminho para uma visão desiludida: “Fascinação da decadência… épocas em que as verdades já não têm vida!” Dai a figura que mais o obseda ser Sissi, Elisabeth da Áustria, última imperatriz do império austro-húngaro. Símbolo da derrocada, a destruição do império austro-húngaro é —para Cioran — a antevisão do fim do Ocidente, do declínio deste berço de humanismo que as contradições devorarão.

Em Exercícios de admiração (1986), o mestre da desfascinação apresenta suas fascinações, exercendo o que entende por admirar: “considerar os seres neles mesmos, em sua realidade original e única, fora de seus acidentes temporais”. De Joseph de Maistre. símbolo excessivo de um pensamento reacionário, a Beckett, Michaux ou Borges, Cioran presta tributo à “vertigem soberba, sempre desconcertante, às vezes odiosa” do escritor. Este niilista radical que deseja “competir com Deus, ultrapassá-lo por meio da linguagem” tem, no espaço da escrita, sua terapia de simulacros. Se pudéssemos definir, de maneira imprecisa, o pensamento de Cioran, falaríamos de uma filosofia do desengano, pontuada pelo humor e pela exaltação, que tem o seu território marcado pelo que Susan Sontag chamou de “espiritualidade ateísta”. Místico sem objeto, metafísico que não crê nas doutrinas do Bem, do Belo e do Verdadeiro, Cioran mesmo assim parece endereçar uma prece ao Nada, à maneira de um “espirito religioso sem religião”. Produzindo uma sabedoria que não consola, este filósofo pode ser lido como um anti-Pascal, apostando na vertigem de um mundo sem crenças.

José Thomaz Brum
Rio de Janeiro, março de 1988

* Prefácio à 1ª edição de Exercícios de admiração, traduzido por José Thomaz Brum e publicado pela Editora Guanabara do Rio de Janeiro, em 1988.

La Historia, un tema obsesivo en la obra de Cioran

Ángel González García – El País, 5 de Mayo de 1976

Con un título, Contra la Historia, que parece inequívocamente sugerencia del propio Cioran, y así se nos declara en la contraportada, publica Esther Seligson un conjunto de artículos y aforismos de este escritor rumano, espigados unos de aquellos de sus libros que aún permanecen inéditos en España Histoire et utopie, Syllogismes de l’amertume, La chute dans le temps y De l’inconvenient d’être né); tomados otros de la Nouvelle Revue Française (NRF), revista a la que suele confiar sus incalificables ejercicios de estilo. Por obra y gracia de Fernando Sabater, traductor, comentador y, en otro tiempo, inventor incluso, para algunos maliciosos, de sus obras, Cioran es conocido suficiente e insólitamente en nuestro país; hasta tal punto, que no sería quizá oportuno descartar que cuente con un puñado de lectores descarriados y temerarios. Temerarios digo, porque al abrir un libro de Cioran y recorrer sus páginas entre razonables sobresaltos, uno siente lo que probablemente pudo sentir aquel abuelo nuestro libre pensador en Soria, cuando en la soledad de la noche sacaba del estante menos accesible de su biblioteca un tomo de las obras de Voltaire: el vértigo de un secreto veneno. «Un libro debe ser un peligro», confiesa Cioran; y los suyos lo son.

Lecturas especulativas

Cioran escribe para el lector amigo de paradojas, aforismos y acertijos, esto es: para quien piensa que las cosas que merece la pena pensar no consiguen desentenderse del riesgo de su inutilidad o de su fatalidad. Son lecturas para caballeros especulativos y un poco escépticos, no para jóvenes opositores o filósofos arrepentidos: Cioran no vende nada, ni siquiera desesperación, como algunos de sus partidarios más fanáticamente catastróficos suponen; sólo brinda desengaño, algo que, según sentencia agudamente Gracián, tan próximo a Cioran en ocasiones, «siempre fue pasto de la prudencia, delicias de la entereza». ¿Y qué mejor ocasión para oficiar de prudente y desengañado que el estudio de la historia?La historia es un tema obsesivo en la obra de Cioran, de ahí el acierto de la Seligson (a falta de otros, como la correcta traducción, disculpable sin duda a la vista del arduo estilo de Cioran, o un prólogo que peca de positivo) al reunir en este librito algunos de sus textos más sabrosos. El lúcido, que así llama Cioran al desengañado, ha ido desgranando todas las tentaciones que a su insomnio, toda, las a su desconfianza hay; pero aún debe la última, la del tiempo que atribuye forzosamente un sentido, trágico o venturoso -tanto da- a todo lo que en él se aloja y dura: al sabio, en primer lugar. Es él quien sabe de los horrores del tiempo, pero también de la fascinación que el tiempo acaba por ejercer sobre el hombre que se empeña en discurrir entre esos horrores. Sabe que el tiempo nos deshace y nos despoja, pero intenta posesionarse de cada uno de sus instantes, rompiendo así su señorío. Quien se desengaña del tiempo, convencido de que nada bueno trae consigo, corre el peligro de caer del tiempo, de quedar a un lado del camino y tener que con templar una desoladora sucesión de instantes vacíos, deplorando el fin de aquellos días que, a su pesar, arrastraban alguna sombra de vida. ¿Cómo ir, pues, contra el tiempo, contra la historia, sin darle a la historia la oportunidad de librarse de nosotros, concediéndonos lo que nunca deja de prometer: la muerte? La respuesta se nos hiela entre los dientes cuando compren demos que ni la mismísima muerte nos exime de morir a la historia, pues ésta se las compone para convertir nuestra muerte en un ejemplo a seguir. Si hubiera alguien tan loco que eligiera la muerte para hurtársela a los otros, de nada le serviría: la historia convierte cada muerte en pretexto de todas las muertes. La muerte es contagiosa, y el héroe moribundo siempre se disculpa haciendo memoria de los héroes muertos o acrecentando la memoria de la muerte en quienes todavía no lo son, por vivos simplemente.

Así, de muerte en muerte, la historia se despeña sin remedio. Toda nueva edad es incomparablemente más letal que la anterior: el progreso, palabra que para el hombre moderno resume la positividad del curso de la historia, lo explica Cioran como una pérdida o, al menos, como una «deserción hacia adelante», como «una prisa hacia un porvenir donde ya nada ocurre». Despojados del presente, arrastrados hacia un futuro que produce verdadero pánico, aunque sólo sea porque exige que pongamos nuestras fuerzas al servicio de nuestra propia muerte, no nos queda sino el pasado, un catálogo de desdichas y cursilerías, a partes iguales: “El fin de la historia esta inscrito en sus comienzos”. El hombre abandonó el Jardín para consumar un destino absurdo o, sí se prefiere «una odisea inútil»: la que lleva de la barbarie a la decadencia y pasa aleatoriamente por la civilización. ¿Por qué nos decidimos: por el crimen o por el suicidio? No resulta nada fácil: la fuerza y la plenitud del bárbaro se ganan a costa de crueldad e intolerancia, a costa de la necesidad de la muerte; y sólo cuando el bárbaro se debilita, alcanza ese espejismo de libertad hace del civilizado un hombre que ha caído en el abismo de su impotencia y espera el desenlace final a manos de los bárbaros de la periferia. La libertad es entonces como la última comida de un condenado a muerte, una banalidad biológica, pero un placer inaplazable.

Simpatías

Cioran no oculta que sus simpatías se inclinan del lado de lo que declina. Nadie lo pondrá en duda si conoce los libros que gozan de su favor: los de Pirrón, Marco Aurelio, Juliano el Apóstata, Meister Eckhart, Montaigne o Pascal; una buena colección de traidores a la vigorosa impertinencia de los pueblos e ideologías triunfantes.Sea cual sea la elección de cada hombre, lo que sí conviene es que cada palo aguante su vela, pues resulta un juego en verdad estúpido que los bárbaros y sus amigos se sientan molestos cuando se les lacha de tales o cuando se les echa en cara su pasión por las cárceles y la tortura -con el agravante de que tienen en tan mal concepto a sus enemigos que confían astutamente en que la puñalada a la vuelta de la esquina o el fusilamiento al amanecer les pillará de sorpresa- Los bárbaros siempre serán eso los bárbaros, y a nadie admiran.