“Shestov, or the purity of despair” (Czeslaw Milosz)

From Emperor of the Earth: modes of eccentric thinking, University of California Press, Berkeley, 1977, pp. 99-119

There was once a young woman by the name of Sorana Gurian. She emigrated to Paris in the 1950s from her native Rumania after adventures about which, she felt, the less said the better. In Paris her life of poverty as a refugee did not particularly disturb her. In fact of the group of students, young writers, and artists among whom she lived she was the first to make her way; a good publisher, Juillard, accepted her first and second novels. Then, all of a sudden (how could it have happened if not all of a sudden?), she discovered that she had breast cancer. An operation followed, then another. Although cases of recovery are rare, they do occur; after the second operation, her doctors were optimistic. Whether Sorana had complete confidence in them I do not know. In any case, one battle was won. Being a writer she had to write about what concerned her most, and she wrote a book about her illness—a battle report on her fight against despair. That book, Le Récit d’un combat, was published by Juillard in 1956. Her respite, however, lasted only a year or two.

I met Sorana shortly before her death; through mutual friends she had expressed a wish to meet me. When I visited her in her small student hotel on the Left Bank, she was spending most of the day in bed with a fever. We talked about many things, including writers. She showed me the books on her night table; they were books by Shestov in French translation. She spoke of them with that reticent ardor we reserve for what is most precious to us. “Read Shestov, Milosz, read Shestov.” The name of Sorana Gurian will not be preserved in the chronicles of humanity. If I tell about her, it is because I cannot imagine a more proper introduction to a few reflections on Shestov.

Lev Shestov (pen name of Lev Isaakovich Schwarzman) was born in Kiev in 1866. Thus by the turn of the century he was already a mature man, the author of a doctoral dissertation in law, which failed to bring him the degree because it was considered too influenced by revolutionary Marxism, and of a book of literary criticism (on Shakespeare and his critic Brandes). His book Dobro v uchenii grafa Tolstogo i Nitsshe— filosofia i proponed’ (The Good in the Teaching of Count Tolstoy and Nietzshe: Philosophy and Preaching) was published in 1900. In the same year he formed a lifelong friendship with Nikolai Berdyaev, one that was warm in spite of basic disagreements that often ended in their shouting angrily at one another. His friendship with Berdyaev and Sergei Bulgakov places Shestov in the ranks of those Russian thinkers who, about 1900, came to discover a metaphysical enigma behind the social problems which had preoccupied them in their early youth. Shestov’s philosophy took shape in several books of essays and notes written before 1917. His collected works (1911) can be found in the larger American libraries. The fate of his writings in Russia after the revolution, and whether their meaning has been lost for new generations, is hard to assess. In any case Shestov expressed himself most fully, it seems to me, in his books published abroad after he left Russia in 1919 and settled in Paris, where he lived till his death in 1938. These are Vlast’ klyuchei: Potestas Clavium (The Power of the Keys), 1923 and Na vesakh Iova (In Job’s Balances), 1929; those volumes which first appeared in translation, Kierkegaard et la philosophie existentielle, 1938 (Russian edition, 1939), and Athènes et Jérusalem: un essai de philosophie religieuse, 1938 (Russian edition, 1951); lastly those posthumously published in book form, Tol’ko veroi: Sola Fide (By Faith Alone), 1966, and Umozreniïe i otkroveniïe: religioznaya filosofia Vladimira Solovyova i drugiïe stat’i (Speculation and Revelation: The Religious Philosophy of Vladimir Solovyov and Other Essays), 1964.

Shestov has been translated into many languages. Yet in his lifetime he never attained the fame surrounding the name of his friend Berdyaev. He remained a writer for the few, and if by disciples we mean those who “sit at the feet of the master,” he had only one, the French poet Benjamine Fondane, a Rumanian Jew later killed by the Nazis. But Shestov was an active force in European letters, and his influence reached deeper than one might surmise from the number of copies of his works sold. Though the quarrel about existentialism that raged in Paris after 1945 seems to us today somewhat stale, it had serious consequences. In The Myth of Sisyphus—a youthful and not very good book, but most typical of that period—Albert Camus considers Kierkegaard, Shestov, Heidegger, Jaspers, and Husserl to be the philosophers most important to the new “man of the absurd.” For the moment it is enough to say that though Shestov has often been compared with Kierkegaard he discovered the Danish author only late in his life, and that his close personal friendship with Husserl consisted of philosophical opposition—which did not prevent him from calling Husserl his second master after Dostoevsky… [+]

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“Morre o filósofo considerado o maior dos pessimistas” (Jornal do Brasil, 21 de junho de 1995)

“A arte de amar? É saber unir a um temperamento de vampiro a discrição de uma anêmona.”

cioran

Publicado em Jornal do Brasil, “Caderno B”, 21 de junho de 1995

Emil Michel Cioran, o exilado filósofo romeno que escreveu em francês uma das mais representativas obras do Ocidente, morreu ontem, aos 84 anos, de complicações decorrentes do Mal de Alzheimer, em Paris, onde vivia desde 1937. Pessimista, incisivo, sem piedade de si mesmo ou dos outros, Cioran foi tardiamente descoberto no Brasil e só três de seus livros foram publicados em português, todos com tradução do filósofo José Thomaz Brum, da PUC-Rio, pela editora Rocco: Breviário de decomposição, Silogismos da amargura e História e utopia.

Nascido em Rasinari, na Romênia, Cioran formou-se em filosofia na Universidade de Bucareste com uma tratado sobre a obra de Bergson. Vivendo em Paris desde 1937, passou a escrever cm francês em 1949, com Breviário de decomposição e formou na França, ao lado de Ionesco e Mircea Eliade, a trinca romena da intelectualidade moderna. Sua obra, perturbadora até os últimos escritos e entrevistas, provocava a ira de uns a adoração de outros, mas Cioran foi sempre reconhecido pela crítica internacional como um dos pensadores mais importantes — talvez o mais cáustico — da literatura ocidental.

Freqüentemente comparado, pelo anti-sistematismo, a Nietzsche e Kierkegaard, Cioran fez a opção pela crueza, mas os aforismos que o tornaram referência, às vezes masoquista, para os intelectuais, não deixaram de trazer o prazer proporcionado pelo que ele chamava de megalomania do saber filosófico. “Falar de Deus é olhá-lo do alto”, diz um deles.

Filho de um sacerdote ortodoxo, não poupou a religião. Num dos aforismos mais famosos, resumiu seu pensamento anti-religioso: “Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com uma nova religião”. Sua vida sempre simples em Paris foi coerente com o desprezo que nutria pelo sucesso e a aceitação intelectual. “A consagração é a pior punição”, dizia. Mas mesmo considerado o rei dos pessimistas, Cioran não era um homem amargo. Os amigos o descreviam como introspectivo, mas, por vezes, alegre. Mas era justamente o cinismo que tornava respiráveis algumas passagens. “Podemos discutir Hitler, mas temos que admitir que foi a última iniciativa do Ocidente”, lançou certa vez.

Em 1987, decidiu parar de escrever por acreditar que imprecar contra Deus e o mundo  não valia a pena. Perfilados e teóricos estudados sempre foram pretexto para as idéias do filósofo, que foi buscar na psicologia dostoievskiana o pessimismo em torno do qual circularia toda a sua obra. Absolutamente particular e determinante na História do Pensamento Mundial, a morte de Emil Cioran encerra menos desespero e mais inquietação que qualquer outra. Sobre a morte, ele disse, “só vivo porque está em meu poder morrer quando me for conveniente”.

Feita para ser desagradável, sua obra é mais apavorante a cada dia, ao se tornar menos estapafúrdia. Agora mais perto do único a quem chamou Deus, o compositor Johann Sebastian Bach, Cioran parece mais o filósofo-poeta que reuniu a beleza e o amargor para dizer que “a música é uma ilusão que compensa todas as outras”.

“Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir.”

“Filósofo romeno Emile Cioran morre na França aos 84 anos” (Folha de S. Paulo, 21 de junho de 1995)

DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Publicado no caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo, quarta-feira, 21 de junho de 1995

O filósofo romeno Emile Cioran morreu ontem aos 84 anos em um hospital de Paris, segundo informou sua editora francesa, a Gallimard. O filósofo sofria do mal de Alzheimer e já não escrevia há alguns anos.

Cioran vivia na França desde 1937, para onde se mudou como bolsista do Instituto Francês de Bucareste, mas o filósofo nunca quis trocar sua nacionalidade.

Suas idéias, expressas quase sempre como aforismos ou reflexões breves, revelavam um profundo pessimismo sobre a existência e o destino humanos.

Emile Cioran nasceu em 8 de abril de 1911, em Rasinari, na Romênia. Filho de um sacerdote ortodoxo, Cioran se dizia “obcecado pelo pior”. Formou-se em filosofia em 1932, em Bucareste. Publicou no ano seguinte seu primeiro livro, “No Cume do Desespero”. Seguiram-se “Livro dos Enganos” (1935) e “Sobre Lágrimas e Santos” (1937).

Suas obras publicadas no Brasil, todas pela editora Rocco, são “Breviário de Decomposição”, “Silogismos da Amargura”, “História e Utopia” e “O Livro dos Logros”(1).

Em 1989, Cioran e o dramaturgo Eugène Ionesco, que haviam sido banidos da Romênia, foram nomeados membros de honra da União dos Escritores daquele país.

Em maio último, a Gallimard publicou um volume com seus aforismos sobre “depressão, fracasso, suicídio, lucidez e o nada”.

(1) Nota-se o desconhecimento do autor deste obituário, refletindo o desconhecimento, à época, do leitor brasileiro em relação à obra de Cioran. O assim chamado “Livro dos logros” (Cartea amargirilor em romeno, Le livre des leurres) é o mesmo livro citado logo acima como “Livro dos enganos (1935)”, e que seria traduzido apenas em 2014, como O livro das ilusões, por José Thomaz Brum. Ou seja, o jornalista não apenas não sabia que “Livro dos enganos” e “O livro dos logros” são o mesmo livro (Cartea amargirilor), como não se sabe de onde tirou a informação de que este era um dos livros de Cioran publicados no Brasil em 1995.

“Aos foliões” (Caio Túlio Costa)

Publicado em Folha de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1995

Uma das experiências mais reveladoras é a tentativa de pensar contra si mesmo. No limite, você vai se entender um pouco melhor. Quem sabe sentir-se mais confortável dentro de sua pele —mesmo continuando sem se entender.

Existe um poderoso pensador, nascido em 1911, romeno, radicado em Paris, preocupado em não fazer outra coisa do que pensar contra si próprio, perseguir o bom gosto espiritual, destruir a vulgaridade intelectual, desvendar a substância da existência sob as aparências do cotidiano medíocre —um Nietzsche do século 20. Cheguei a ele via Susan Sontag (ensaísta norte-americana fora de moda) e me deparei então com o verdadeiro aristocrata, o do espírito.

Seu nome é Emil Michel Cioran. Ficou conhecido só por Cioran. Vive dos caraminguás que lhe rendem seus livros e habita um pequeno apartamento em Paris. Deixou a Romênia no final dos anos 30 criando problemas para o pai, padre ortodoxo, porque revelou-se sem fé e reclamou, em livro, que há dois mil anos Jesus de Nazaré desconta em nós “o fato de não ter morrido num sofá”.

Cioran vive, pode-se dizer, miseravelmente. Sempre recusou-se a trabalhar de forma “normal”. Aceitaria, o disse, apenas trabalho físico, como o de varrer ruas. De toda forma, ganhou a vida escrevendo. Seu livro de maior sucesso, “Silogismos da Amargura”, editado em 1952 na França, foi descoberto depois e chegou ao Brasil só em 1991, quando seu êxito entre os fatigados da vida estava garantido. Em 1987 ele havia resolvido parar de escrever e se autodecretou em estado de silêncio. Rompeu a mudez algumas vezes para dar entrevistas e uma delas saiu no Mais! semana passada.

Pois sugiro que se leia e releia esta entrevista. Pode ser lida sem contra-indicação nos momentos de tédio, angústia ou euforia. Ninguém, atento, vai passar reto por uma conversa na qual se sintetiza toda uma vida dedicada à negação da mediocridade, do lugar-comum, das aparências enganadoras. Vida cética, principalmente em relação às formas de governo: “O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos mais graves eles estão perdidos”. Ou então em afirmação feita há muito tempo, em livro: “A aspiração de ‘salvar’ o mundo é um fenômeno mórbido da juventude de um povo”.

Mas, nesta entrevista, Cioran despeja com generosidade detalhes de uma vivência destinada à negação reveladora. O que se segue, sem aspas, enfeixa conceitos seus. O único mundo verdadeiro é o primitivo, onde tudo é possível e nada está atualizado. O segredo da vida está no sono. A insônia mostra que o sono, um breque no cotidiano, é que torna a vida possível. Ela só é suportável por causa da descontinuidade. Se alguém passar a noite toda acordado, quando chega a manhã não começa nada. Dorme-se menos para descansar do que para esquecer e quem levanta de manhã para começar um novo dia tem a ilusão de que alguma coisa começa. A vida só é suportável porque não se vai às últimas consequências. Quem não tem consciência do tempo não se entedia. Suporta-se a vida somente quando inexiste a consciência de cada momento que passa. A experiência do tédio é a consciência de tempo exasperada.

O excesso de lucidez, como se vê, torna a vida insuportável e a experiência da vida é o fracasso. Cioran conclui a entrevista dizendo que, talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos as coisas às quais aderimos sem acreditar.

Num outro recado sutil, dado lá nos anos 50, Cioran atirava: “Ser moderno é remendar no Incurável”.

“Albert Caraco, o filósofo do caos” (Ricardo Ernesto Rose)

Publicado em Debates Culturais РLiberdade de Ideias e Opini̵es, 07/03/2017

Eu nasci para mim mesmo entre 1946 e 1948, foi então que abri meus olhos para o mundo, até este momento era cego.” (Albert Caraco, pensador e escritor)

Albert-Caraco-o-filosofo-do-caos

As primeiras três décadas do século XX foram um período de grandes movimentos sociais, econômicos e culturais. Depois da guerra entre a Rússia e o Japão (1905), ocorreu uma série de eventos catastróficos que moldaram a história do século XX (e também do século XXI): a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a Revolução Russa (1917), a quebra da bolsa de Nova York (1929); dando início a uma grave crise econômica que afetou o mundo por vários anos e contribuiu para a ascensão do nazismo (1933).

No campo da ciência, os avanços construíram a base da tecnologia eletrônica dos nossos tempos: a teoria Quântica, criada por Planck em 1900 e desenvolvida ao longo das primeiras décadas do século XX por outros cientistas; a teoria da Relatividade (1915) por Einstein e o Princípio da Indeterminação (1927) por Heisenberg.

Nas artes a criatividade também foi muito grande: Expressionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, Abstracionismo, Dadaísmo e Surrealismo, entre os principais movimentos. Compositores como Schoenberg e Stravinsky revolucionavam a música, enquanto que intelectuais como Husserl, Durkheim, Russel, Heidegger, Tönnies, Scheler, Wittgenstein, Weber, Simmel, Dewey, Pareto, Ortega y Gasset, Whitehead e Sartre, foram alguns dos pensadores que ditavam novos rumos na filosofia e sociologia.

Um mundo em ebulição. No meio de toda esta agitação cultural e social, ocorria a movimentação de milhões de pessoas das regiões rurais para as cidades. O velho ditado medieval alemão “Stadtluft macht frei nach Jahr und Tag” (O ar da cidade torna livre depois de ano e dia) concretizava-se para aqueles que ainda viviam no campo (as primeiras grande migrações para as cidades ocorreram na segunda metade do século XIX) e queriam participar da vida agitada das cidades. Ao mesmo tempo, grandes contingentes humanos, sem oportunidades nas cidades afetadas pela crise econômica, emigravam do continente europeu para as Américas, principalmente os Estados Unidos.

Foi nesse ambiente que nasceu Albert Caraco. Filho de José Caraco e Elisa Schwarz, judeus sefarditas, Albert veio ao mundo em Istambul, em 8 de julho de 1919. A família Caraco viajou muito pelo Europa, passando por Viena, Praga e Berlim, para se estabelecer em Paris. Foi lá que Albert se graduou na École des Hautes Études Commerciales (Escola de Altos Estudos Comerciais) em 1939. Pressentindo o perigo do nazismo se alastrando na Europa, José Caraco toma a família e deixa Paris em direção à América do Sul, passando por Honduras, Brasil (Rio de Janeiro) e Argentina, estabelecendo-se no Uruguai. Lá a família se converte ao catolicismo e passa a morar em Montevidéu… [+]

Entrevista com Matéi Visniec: “Em Cioran há o prazer de pensar”

O dramaturgo romeno Matéi Visniec diz que o pensamento de Emil Cioran, o mais famoso filósofo romeno, é um pensamento que dá vertigem. Instigado, porém, pela maneira elegante e eloquente de Cioran refletir e escrever sobre o vazio – ou os vazios – Visniec dedicou ao pensador niilista uma de suas peças: Os desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte, no Brasil publicada pela É Realizações. Com exclusividade para a Fausto, quando em visita ao país, Matéi Visniec fala um pouco mais desse guia espiritual de almas inquietas, mestre tão perturbador quanto irresistível – diga-se já, uma das pedras fundamentais dessa revista. Deleite-se! [+]

Publicado em Faustomag. Tradução: Flavio Deroo.

Tesis: “Conocimiento de sí, mística y escritura fragmentaria en E. M. Cioran” (Germán Cortéz Baizabal)

Universidad Veracruzana, Facultad de Filosofía, Xalapa-Enríquez, Veracruz. Agosto de 2013

Introducción

Las interrogantes e inquietudes que la vida y obra de E. M. Cioran han generado se bifurcan por caminos de lo más diversos. Tanto en Rumania como en Francia, así como en los países hispano-parlantes, donde ha sido traducida, la obra de este dacio enfurecido ha sido objeto tanto de encomio así como de frontal rechazo. Algunos ven en él a uno de los escritores filosóficos más importantes del siglo XX, y en esta misma perspectiva, también se le cuenta entre los pensadores más iconoclastas surgidos en los últimos tiempos, frente al cual, por ejemplo, según la exagerada -y absolutamente discutible- opinión de algunos de sus fervientes apologetas, Nietzsche raya en la ingenuidad. Por otro lado, también se ha dicho que su pensamiento –en el ámbito político- adolece de cierto grado de conservadurismo, y que el nihilismo y negatividad que se respira de su obra no permiten sacar partido alguno, salvo el acentuar y reiterar que el hombre no es precisamente una bendición, tanto por el rumbo que le ha dado a la historia como por el uso y las nefastas consecuencias que éste ha sacado de cierta idea de razón.

Es complicado inclinarnos de manera unilateral tanto por una u otra percepción, más bien nos situamos en un punto medio, pues aunque sin duda alguna Cioran pretendió –muy a su modo- filosofar a martillazos o derribar ídolos, es decir, vivir y pensar allende una visión sub specie aeternitatis, no por ello podríamos suscribir a pie juntillas -según se verá más adelante- los alcances del desengaño a los que pretende haber llegado mediante la experiencia del tedio (sobre este delicado e importante problema sólo nos limitaremos a dar testimonio y mostrar las discrepancias que en este punto nuestro autor mantiene con la mística teresiana, esto dado que los objetivos de la presente investigación van hacia otros derroteros, pese a esto, permítasenos señalar únicamente que nos parece que hace falta un trabajo realmente crítico al interior de la lucidez cioraniana); por otro lado, tampoco podríamos decir que el conocimiento de sí cioraniano carece de interés alguno por el sólo hecho de desembocar en una visión de la nada, pues las aristas que articulan dicho conocimiento, esto es, las virtudes del desequilibrio y la escritura fragmentaria, poseen la virtud, desde nuestra perspectiva, no sólo de apropiarse, rehabilitar y redescribir tradiciones tanto filosóficas como místico-religiosas que han sido marginadas del ámbito del pensamiento hegemónico en Occidente, sino también porque permiten cultivar y ejercitar otro rostro del pensador y del pensamiento que, a su vez, posibilitan otra forma de aproximación a sí mismo y al mundo.

En consecuencia, con la presente investigación pretendemos indagar sobre el conocimiento de sí y la escritura fragmentaria. Temáticas íntimamente relacionadas, pero que guardan cierta distancia de la que más adelante hablaremos. Ahora bien, en relación con el primero de estos elementos nuestro objetivo es dar cuenta del sentido que adquiere el conocimiento de sí cuando el escritor y pensador rumano-francés cae presa de una crisis místico-religiosa, pero ante semejante situación, y dado que los conocimientos e interéses de nuestro autor no se delimitan a una tradición mística en específico, circunscribiremos nuestra exploración al interior de la mística española. En este tenor las preguntas que responderemos son, en términos generales, las siguientes: ¿Cuáles son los elementos de la mística española de los que se sirve nuestro autor y cómo los ensambla en su estética hagiográfica? ¿Tales elementos que se apropia son asumidos en el mismo sentido que se presentan en la mística a la que recurre o adquieren otro carácter (secularizado, cuasireligioso, etc.) al interior de su planteamiento, y de ser así, qué sentido adquieren? ¿Dicho conocimiento de sí al tomar tales elementos se instala, sólo por eso, en una búsqueda propiamente mística, es decir, en un camino de perfección?

Son, pues, éstas algunas de las preguntas que nos servirán de eje para internarnos en las avenidas tanto del conocimiento de sí cioraniano así como en la mística española. Aunado a esto, y con la intención de que el problema no se nos escurra de las manos y termine por aplastarnos, puesto que al interior de la mística española hay una variedad exquisita de autores y problemáticas, y dado que el pensador de Rasinari recurre a más de uno de los místicos españoles, hemos optado por delimitar aún más nuestra indagatoria a una de las figuras más emblemáticas y ricas del Siglo de Oro español, a saber, la monja carmelita descalza Teresa de Ahumada. El porqué de tal elección estriba tanto en el interés que nuestro autor manifiesta por la obra de esta infatigable y enfermiza monja, así como en ciertas afinidades temáticas que hemos vislumbrado y en las cuales centraremos nuestra atención. Y por añadidura, también hurgaremos en el carácter de la religiosidad y acercamiento que este creyente “sin la gracia” posee, lo cual le da un sello característico y personal al conocimiento de sí forjado por nuestro pensador. De igual modo, también es nuestra intención abrir un pequeño espacio de discusión en torno a la afirmación que hace Alfredo A. Abad Torres sobre la cuestión de la mística en Cioran, en donde, se hará ver que, en contra de lo que el colombiano afirma, el pensador rumano-francés no se adscribe al vacío pleno místico, sino que sus derroteros se orientan hacia otras latitudes.

Por otro lado, en lo que respecta a la escritura fragmentaria, nuestra labor consistirá en mostrar el carácter complementario o más bien, en destacar y articular otro de los recursos de los que se vale nuestro autor para ejercitar el conocimiento de sí, recurso que se orienta hacia otros derroteros de los que se presentan en las virtudes del desequilibrio de las que se vale Cioran. Sobre el recurso del fragmento cioraniano nos proponemos dilucidar el carácter existencial de dicha escritura, pasando revista a algunos de los registros en los que tal escritura se emplea (la epístola, el retrato, el fragmento, etc.), esto con el objetivo de mostrar que, pese a las consecuencias de la experiencia del tedio, la escritura fragmentaria irrumpe eficazmente como otra manera de cultivar el conocimiento de sí. Así también mostraremos, en relación con el fragmento cioraniano, la relación existente entre la adopción de un estilo de escritura y el contenido de una concepción filosófica.

Dicho lo anterior, el itinerario que hemos ideado para desarrollar lo aquí esbozado se articula de la siguiente manera:

En el primer capítulo titulado: Sobre el concepto de filosofía y sus prácticas o la filosofía como ascesis, nos hemos propuesto mostrar de la mano de Michel Foucault y Pierre Hadot, la revaloración o redescubrimiento de la filosofía antigua como inquietud de sí o ejercicio espiritual. Esto obedece en primera instancia, al hecho de que el carácter de la filosofía, tal como se presenta en las investigaciones de estos filósofos franceses, posee muchas afinidades, aunque también cierta distancia, con la práctica de la filosofía de E. M. Cioran; además de que también esto nos sirve como basamento para evidenciar, hasta cierto punto, el carácter de la espiritualidad teresiana. Por otro lado, porque en la filosofía como inquietud o ejercicio de sí existe toda una serie de prácticas no complementarias, sino constitutivas de ese modo de filosofar, las cuales adquieren igual atención e importancia tanto en la espiritualidad teresiana como en la apuesta vital cioraniana.

Ya en nuestro segundo capítulo que hemos titulado: Teresa de Ahumada y E. M. Cioran: El conocimiento de sí como puente, nos volcamos hacia los asuntos que dan forma y sentido al conocimiento al que apelan nuestros autores. Aquí nuestro centro de gravedad será, en primera instancia, el inmiscuirnos al interior del castillo teresiano, para dar cuenta de los elementos e importancia que posee la oración o el saber propio teresiano para con la vida o riqueza interior del místico. Y como segundo momento de nuestro paso a través del puente señalado, nos aventuramos en un pequeño bosquejo sobre el carácter de la crisis místico-religiosa del pensador de Rasinari. Y, en última instancia, pasaremos a desarrollar los elementos y la redescripción de la mística tal como se presenta en Cioran, para así poder apreciar de mejor manera las afinidades y contrapuntos que se presentan entre el saber propio teresiano y el conocimiento de sí en Cioran y, aunado a esto, mostraremos las razones de por qué creemos que Abad Torres incurre en un desatino al decir que Cioran se adscribe a la nada plena mística. Todo este desarrollo para responder a las preguntas antes planteadas.

Y en el último de nuestros capítulos: Escritura y pathos o de la escritura fragmentaria en E. M. Cioran; se desarrollarán los elementos antes esbozados, para hacer ver, entre otras cosas, que la escritura fragmentaria es, en gran medida, una prolongación del ejercicio de introspección o conocimiento de sí en nuestro autor. Cerraremos con nuestras consideraciones finales. [Pdf]

El Chico, Ver.
Verano del 2013
Germán Cortés Baizabal