“O animal enfermo: para uma antropologia negativa cioraniana” (Rodrigo Inácio R. S. Menezes)

À guisa de introdução

Emil Cioran nos legou uma obra impactante como poucas no século XX. Seu pensamento visceral e abismal, no limite inclassificável, configura-se como uma soma de atitudes em que concorrem, sem nenhuma preocupação dialética de unidade, as mais diversas tendências de pensamento. Nascido na Transilvânia romena (à época, pertencente ao Império Austro-húngaro), filho de um sacerdote cristão ortodoxo, Cioran se formaria em Filosofia pela Universidade de Bucareste, capital da Romênia, e, ainda jovem, se expatriaria na França, onde se tornaria conhecido, ao final de sua vida, como um distinto escritor de língua francesa.

Contextualizar é preciso, o que nos remete uma vez mais à constelação de autores, cenários e tendências de pensamento que concorrem na formação do pensamento de Cioran. De Heráclito a Nietzsche, da antiga gnose à mística católica, do hinduísmo ao taoísmo e ao budismo; do cirenaico Egésia (ou Hegesias) a Schopenhauer e Mainländer, de Pascal a Baudelaire, do Romantismo inglês a Dostoiévski e os “espiritualistas” russos (Chestov, Merejkovski, Berdiaev), de Pirro a Wittgenstein, do cinismo de Diógenes ao niilismo moderno – ou, nas palavras do próprio Cioran, “de Teógnis a Beckett”.[1] Tendo dedicado sua tese de licenciatura em Filosofia ao tema do intuicionismo em Bergson, Cioran tornar-se-ia um pensador que, paradoxalmente, “paga tributo” a Bergson com uma espécie de anti-bergsonismo: um intuicionismo negativo e, em certo sentido trágico, um intuicionismo do paradoxo e da aporia (poder-se-ia dizer uma “lógica do pior”, para falar como Clément Rosset[2]), em todo caso, não a duração como plena positividade ontológica. Enquanto para Bergson o Nada (le néant) é uma impossibilidade, uma “pseudo-ideia”[3] (algo sempre subsiste, sendo o niilismo um pseudoproblema), Cioran diria: o Ser é não apenas uma impossibilidade, como ademais, caso possível, um inconveniente, um contratempo, um fardo, uma prisão.[4]

Se pudéssemos eleger um único tema, dentre tantos, como o principal sobre o qual se debruçam as reflexões de Cioran, seria o homem: o ser humano, a condição humana, a existência autoconsciente no mundo e no tempo. O que importa, pois, é pensar o humano, aquilo que se é, espantoso e admirável ser. Que é o homem? Como é possível? É possível? Seria, ademais, necessário na economia dos seres? Concebido sem pretextos, em sua (ir)realidade nua e crua, o homem apareceria como um paradoxo terrestre, um problema ambulante, algo de profundamente estranho, se não uma anomalia. O paradoxo evocado por Montesquieu em suas Cartas persas – “Como se pode ser persa?” – será recolhido pelo jovem Cioran – “como se pode ser romeno?” – até culminar, tardiamente, numa reformulação derradeira, perpassada pela crítica implacável de uma consciência em vigília: “como se pode ser humano?” Afinal, é menos natural ser humano que simplesmente ser, ainda que nossas perplexidades filosóficas sigam normalmente a ordem contrária. O homem é, pois, o animal antinatural por excelência, sendo a história uma confirmação desta intuição antropológica negativa. Um animal que, por sua problematicidade constitutiva, e historicamente progressiva, evocaria as noções de impossibilidade e de não-ser, nada, nadidade (nimicnicie em romeno).

A formação pela insônia e a lucidez luciferina

“Eu sou um descrente que só lê pensadores religiosos. A razão profunda disto é que apenas eles tocaram certos abismos. Os ‘laicos’ são refratários ou inaptos a eles.”[5] Dentre estes pensadores religiosos, destacam-se Pascal, Dostoiévski, Chestov, Kierkegaard e Unamuno, entre outros (mesmo Nietzsche poderia, à sua maneira dionisíaca, ser incluído). Mesmo descrente, como se declara, Cioran é cúmplice desses “abismos” que só os pensadores religiosos teriam chegado a tocar; sua experiência de vida e de conhecimento o conduziria às mesmas intuições fundamentais compartilhadas com aqueles.

Cumpre destacar a estreita – e visceral – relação entre a vida e a obra do autor, relação sobre a qual ele sempre insistiu: “Não inventei nada, tenho sido apenas o secretário de minhas sensações.”[6] Nenhuma proposição mais adequada para definir o pensador privado[7] cuja obra é o produto de exigências – metafísicas, éticas, estéticas –  muito particulares. Neste sentido, destaca-se uma experiência biográfica crucial que incidirá diretamente sobre a obra – romena e francesa – de Cioran: a insônia enfrentada desde a juventude até os primeiros anos na França, e da qual se depreenderá sua inabitual concepção de lucidez. Se Kierkegaard fala da formação pela angústia, Cioran falará da formação pelo desespero,[8] consequência direta da insônia. Em vez de conduzir a Deus mediante um “salto da fé”, o desespero produzirá uma segunda queda, ainda mais grave que a primeira: desta vez ele cairá do tempo, em direção a uma “eternidade negativa”, a uma “funesta eternidade”.[9] Enfim, a lucidez “esquartejadora”, fomentada pela insônia, é a experiência-limite que singulariza o indivíduo e que o permite compreender aquilo que a maioria dos mortais apenas vislumbra vagamente, a consciência que, incapaz de dormir, apreende a fragilidade, a inconsistência, a irrealidade, a nulidade de tudo o que permite ao ser humano, carente de alento tanto quanto de comida, perseverar na vida.

O mais importante, e o mais grave, a propósito da lucidez cioraniana talvez seja que ela é, no limite, incompatível com a vida, tornando a existência uma façanha impraticável, se não uma impossibilidade. “Existência = Tormento. A equação me parece evidente. Ela não o é para um de meus amigos. Como convencê-lo? Não posso lhe emprestar minhas sensações; ora, apenas elas poderiam persuadi-lo, dar-lhe esse suplemento de mal-estar que ele reivindica com insistência há tanto tempo.”[10] A lucidez assim interpretada solapa os instintos, arruína toda espontaneidade, dir-se-ia toda naturalidade, mina as razões para agir: torna o indivíduo um “pós-homem”,[11] figura que combina traços do cínico antigo e do niilista moderno.[12] Dito isso, se há uma questão a partir da qual se desenvolverá o discurso cioraniano, notadamente em sua expressão francesa, é a seguinte: como suportar a vida?, como viver sabendo o que se sabe, em meio a evidências tão alarmantes? E, sobretudo, como suportar-se a si mesmo? Eis, segundo ele, a pergunta à qual ninguém está habilitado a nos dar uma resposta.[13]

A lucidez cioraniana pode ser dita luciferina,[14] pois a experiência de conhecimento que Cioran formula a partir da insônia culminará, de negação em negação, numa “rejeição contínua do pensamento pelo pensamento”,[15] em “verdades negativas” e “irrespiráveis”:[16] as únicas que merecem o título de verdades, pois não condescendem com nossos anseios demasiado humanos, não se prestam ao papel de cúmplices nossas. O pensamento lúcido é, neste sentido, todo o contrário de um wishful thinking[17] (“pensamento desejoso” em inglês); trata-se mesmo de penser contre soi (“pensar contra si”[18]), tendo como regra de ouro o esforço radical de rejeitar todo sentimento de reconforto baseado em certezas quaisquer, de repousar na falsa solidez de uma verdade última, e agradável. É a recusa de toda autocomplacência na atividade do pensar, autocomplacência que o autor identifica como uma tendência inerente à atividade racional mesma. Aliás, provoca Cioran, “sempre se é filósofo impunemente”, e “a filosofia – inquietude impessoal, refúgio nas ideias anêmicas – é o recurso de todos os que se esquivam à exuberância corruptora da vida.”[19] Seria preciso, pois, pensar contra os próprios “dogmas inconscientes”.[20] O conhecimento luciferino é um conhecimento negativo, destrutivo, o pensamento como separação, disjunção, dissolução, fragmentação e separação em relação ao mundo, a afirmação diabólica do espírito em detrimento da vida; o pensamento como queda, declínio, decomposição, gerador de intervalos, dualidades, solidão.

A Queda no tempo e o pecado original como hipótese antropológica

Este ensaio de exposição de uma antropologia cioraniana parte de um texto-chave sobre o tema (recorrendo também a outros escritos do autor): La chute dans le temps [A queda no tempo], publicado em 1964. A Queda – no tempo e na consciência, na consciência da individuação – é a intuição antropológica fundamental a se depreender dos escritos de Cioran. Seu pensamento existencial é tão pouco “existencialista” que poderia ser justamente definido como uma metafísica existencial, de caráter negativo e antifenomenológico.[21] Trata-se de pensar, mais que a existência no tempo, historicamente localizada e determinada, a coincidência paradoxal entre o existencial e o essencial, a banalidade do inessencial e a negatividade fenomenológica de todo absoluto, a queda no tempo e a cotidianidade da queda, a existência e a inexistência igualmente impossíveis. Cioran está preocupado em pensar a condição humana profunda, o que haveria de imutável e essencial no ser humano. E o essencial, segundo o autor, é a intuição da Queda: fonte de desassossego, emblema dessa “unidade de desastre que é o homem”,[22] mas também “abertura a uma maneira de ser e a um modo de relação com os seres e às coisas que não mais se funda na distinção sujeito/objeto, mas deriva de uma experiência sensível.”[23] A Queda ecoa na consciência, ao modo de uma elegia nostálgica, a gênese de uma insatisfação profunda, em virtude da qual a tristeza será percebida a “poesia do pecado original”.[24]

Eu não creio no pecado original à maneira cristã, mas, sem ele, não se pode compreender a história universal. A natureza humana estava corrompida desde a raiz. E não, eu não falo como um crente, mas sem essa ideia, encontro-me na impossibilidade de explicar o que aconteceu. Minha atitude é a de um teólogo non-croyant, a de um teólogo ateu.[25]

Cioran preserva da tradição ortodoxa em que nasceu a noção de pecado original, o que só aparentemente contradiz o sentido gnóstico do seu pensamento[26]. Sem a hipótese do pecado ou corrupção original (de onde a Queda), o caráter de réprobo do ser humano permaneceria um mistério, uma incógnita absoluta. Trata-se, com efeito, da hipótese – puramente antropológica, sem nenhuma conotação escatológica – de um princípio negativo, de um mal radical e inerradicável inerente à existência humana, e que tende a perturbar, em última análise, a ordem do cosmos como um todo. É no mínimo uma concepção heterodoxa da questão, não mantendo afinidade com a visão comum do episódio do Gênese senão em termos gerais: as premissas e os meandros de sua concepção não poderiam ser mais escandalosos do ponto de vista ortodoxo: a Queda se dá no interior da divindade, arrastada, por sua própria Criação, ao devir (falaremos mais adiante dessa cumplicidade negativa entre criatura e Criador).

O homem, “animal metafísico” (intuição compartilhada por Cioran com Schopenhauer), é um ser paradoxal por natureza. Faz sentido falar de uma natureza humana à medida que esta natureza implica impermanência ontológica e uma perpétua metamorfose do humano, no sentido de que, segundo Nietzsche citado por Cioran a partir de Além do bem e do mal (III §62), o homem é “das noch nicht festgestellte Tier, o animal cujo tipo não está ainda determinado, fixado”.[27] Um ser que se apercebe da existência do mundo ao seu redor e de sua própria existência, que se espanta e se maravilha com tão insólita descoberta, e “tropeça” por isso; um ser que pensa, reflete, julga, valora, mas que também deseja, carece, busca, ama e odeia, vive e morre, com plena consciência de sua inevitabilidade. É uma espécie de crise de identidade essencial que está na raiz de sua existência: ser humano é uma questão sempre em aberto, um problema em si, e toda interrogação não é senão uma interrogação humana. Estamos encerrados em uma aventura – um drama – que os demais seres parecem simplesmente ignorar, para sua felicidade maior.

O essencial é o não de toda coisa, o avesso de todo é, o outro do ser, do pensar, do dizer. Mas, como afirmou Beckett, “a negação não é possível”,[28] de modo que toda negação deixa em suspenso algo que não poderia deixar de afirmar-se. O homem aparecerá então como a própria negação encarnada, o não do cosmos, operando, ao longo de sua aventura histórica, uma dupla negação: por um lado, negação da plenitude, da unidade, da harmonia, do bem-aventurado anonimato no interior de sua condição primeira; em seguida, negação da finitude, da contingência, do acaso, daquilo que o próprio ser humano parece naturalmente inclinado a buscar, a despeito de toda perfeição possível. Combinadas, essas duas negações parecem conduzir, em longo prazo, a um cenário humano de ansiedade e decadência, em franco contraste com o otimismo new age contemporâneo. Nunca se tende a negar tão ostensivamente, em termos caracterológicos, a própria insignificância, a própria miséria (no sentido do Eclesiastes, de não ser nada além de pó), como quando se tem plena ciência dela.[29]

O ensaio que abre La chute dans le temps é L’arbre de vie [A árvore da vida]. A intuição subjacente que norteará o texto, sendo válida para o pensamento do autor de modo geral, é a de que a Vida[30] é uma coisa estranha ao animal racional: o homem vive na consciência, na teoria da vida, não mantendo com a Vida, a rigor, senão uma relação indireta, dir-se-ia abstrata, artificial[31] – é o “animal indireto”. Justapostas, as alegorias da “Queda no tempo” e da “Árvore da vida” (L’arbre de vie, título do ensaio com que se inicia o livro) se oferecem como hipóteses de trabalho para pôr em questão o problema da existência, articulando três elementos fundamentais: a (cons)ciência, o tempo, e o efeito combinado de ambos (três eventos contemporâneos, concomitantes): o mal que entra no mundo através da criatura decaída. Não se trata, pois, de um pessimismo meramente existencial, tampouco meramente histórico: esse pessimismo metafísico terá na alegoria bíblica, enviesada por uma perspectiva criptognóstica (ou não tão “cripto” assim), seu paradigma mitopoético. O autor de La chute dans le temps e de Le mauvais démiurge [O mau demiurgo] não poderia estar mais afinado com Harold Bloom em sua intuição eminentemente gnóstica acerca deste mundo, na desconfiança em relação ao “tempo, que degrada, […] ele próprio produto de uma degradação divina, um fracasso dentro de Deus”,[32] em relação à “totalidade da história, como pertencente à esfera das realidades falsas”, condenada à autodestruição por ser, em sua origem, “o efeito de uma anomalia”: o tempo, o movimento.[33]

Da unidade à fragmentação, da ingenuidade pré-histórica ao cinismo pós-humano, da inconsciência à lucidez luciferina, do paraíso ao inferno: eis o itinerário espiritual de Cioran, e que ele parece reconhecer na história do homem ocidental. Para esse meteco bogomilo exilado em Paris, a imagem da Queda pretende comunicar a intuição de uma condição antropológica e ontologicamente problemática, dir-se-ia negativa: condição intuída subjetivamente pela pura possibilidade do ser humano de pensar-se e de problematizar-se mediante o pensamento reflexivo. Assim começa L’arbre de vie, ensaio inaugural de La chute dans le temps:

Não é bom para o homem se lembrar a cada instante que é homem. Debruçar-se sobre si já é mau; debruçar-se sobre a espécie, com o zelo de um obsedado, é ainda pior: é prestar às misérias arbitrárias da introspecção um fundamento objetivo e uma justificação filosófica. Quanto mais se tritura o seu eu, mais se tem o recurso de pensar que se cede a um capricho; quando todos os eus se tornam o centro de uma interminável ruminação, seu próprio acidente se erige em caso universal.[34]

Na exegese heterodoxa de Cioran, o mal-estar que se experimenta quando se debruça sobre a própria condição humana é o mesmo experimentado por “nosso primeiro ancestral”, em seu gesto temerário. É uma vertigem interior contínua o que nos confirma em nossa queda comum e cotidiana: “A maldição que pesa sobre nós já pesava sobre o nosso primeiro ancestral, muito antes de ele se voltar à árvore do conhecimento”.[35] Esta maldição não é outra que a maldição do ser consciente, da consciência reflexiva e geradora de dualidades: a consciência como fatalidade e catástrofe da individuação, ávida de interrogações arbitrárias e de tormentos gratuitos. Como escreveu Camus, “pensar é começar a ser atormentado”.[36]

Adão não pôde agir de outro modo; estava fadado, como que por um magnetismo inato, a sucumbir à tentação do desconhecido-proibido, e tê-lo-ia feito, provavelmente, mesmo sem a sugestão da serpente: “melhor psicóloga”,[37] ela ganhou a disputa que resultaria na Queda. E por mais que, em meio a crises existenciais e metafísicas, possamos lamentar o gesto do homem arquetípico, por mais que seu drama seja o nosso, não podemos deixar de reconhecer que, em seu lugar, não teríamos agido diferentemente – como, ademais, não parecemos quase nunca agir. Instigado pelos “méritos e sobretudo pelos perigos”[38] assinalados pelo Criador em relação à árvore mortal, em comparação com a banalidade da árvore da vida, “demasiado acessível, demasiado banal”,[39] Adão se precipitaria com volúpia sobre a primeira.

Seria formular mal a questão se disséssemos que Adão preferiu o saber à Vida; seria mais justo dizer que a preteriu em nome da morte mesma, não sendo o saber senão um pretexto, o meio que justifica o fim: fazer-se expulsar para conhecer, enfim, um destino fora de todo paraíso possível, pois “só há destino fora do paraíso.”[40] “O que o homem só queria, de resto, era morrer; querendo igualar-se ao seu Criador pelo saber, não pela imortalidade, não tinha nenhum desejo de se aproximar da árvore da vida, não tinha nela nenhum interesse.”[41] Na teologia cínica de Cioran, o “promotor de nossa raça”[42] devia sentir, em meio à monotonia do lugar, um profundo “incômodo, sem o qual não se saberia explicar a facilidade com que cedeu à tentação. Cedeu? Chamou-a, mais do que tudo.”[43] O que ele queria era morrer, como nenhum outro ser é capaz de morrer, ter a distinção da sua morte. Trata-se de uma “queda” (desejada) para fora da vida, de um movimento centrífugo para longe do núcleo vital, indiferenciado e irrefletido, da existência, um atentado à bem-aventurada inconsciência no interior da condição primeira – essa inconsciência que não é senão o “dom da ignorância”,[44] uma “ciência inata da vida”,[45] indiferente às seduções do saber-poder.

O homem abdica da vida para ganhar o saber, e morrer, fenomenologicamente, é saber-se mortal, é saber morrer. Neste sentido, Adão descobre como morrer, que era o que, no fundo, ele mais desejava sem sabê-lo, sem imaginar que fosse morrer tanto, tão perfeitamente, por excesso de imperfeição.

O conhecimento malsão e a “ciência inata da vida”

Uma das proposições cioranianas mais controversas é a de que o conhecimento, a ciência não nos ajudou a viver: “mas era essa, mesmo, a sua função?”[46] A proposição não pode ser devidamente compreendida se não se tem em mente a especificidade do que representa, para Cioran, a Vida, e o significado profundo de “ajudar a viver”. Trata-se de uma disposição de espírito com vistas ao desprendimento ou libertação[47] hic et nunc: condição de possibilidade de toda felicidade, e os meios práticos que conduzem a este fim. A busca do saber tende a engendrar novos problemas à medida que se descobre uma solução para os de outrora; a civilização, que não passa de um “esforço para encontrar remédios para um estado incurável – e desejável”[48] –, se revela então o resultado de uma “ironia em marcha”[49] (de onde o antihegelianismo de Cioran). A busca do saber, que degenera logo em sede titânica de poder, é o que põe a história em movimento, e em função disso a ansiedade do animal vertical se projeta no futuro, indefinidamente. Muitos dos povos ditos “primitivos”, ou mesmo a gente simples do campo, vivem sem grande parte de nosso “esclarecimento”, de nossa ciência, de nossa tecnologia, e não parecem sentir falta disso. Afinal, questiona Cioran, é preferível morrer de nossos remédios ou de nossas doenças? Respirar o odor de estrume e de lama ou dos escapamentos dos automóveis e dos aromatizadores artificiais das salas de espera?

Não se trata de anti-intelectualismo, mas de um vitalismo sui generis que Cioran recolhe de filósofos como Bergson e Georg Simmel, e também de Nietzsche. Não é à ciência positiva que se aspira; o que importa, tendo em vista a preocupação sapiencial do autor, é um tipo de conhecimento outro: um saber essencial, sem conhecimentos, “puro a ponto de abominar a ideia mesma de objeto”.[50] Uma via de aproximação ao saber preconizado pelo autor de La chute dans le temps é (divergências à parte) a noção de conhecimento intuitivo proposta por Bergson em termos de uma “auscultação espiritual”.[51] Neste sentido, a metafísica existencial de Cioran possuiria uma significativa analogia com a metafísica empírica de Bergson. Para além do horizonte do pensamento ocidental, a posição de Cioran também nos remete ao budismo, notadamente a noção de tathata[52] ou “talidade” (télleité ou ainseité em francês, suchness em inglês). Trata-se, enfim, de um conhecimento intuitivo que se pretende simples, completo, absoluto, para além dos expedientes lógicos e categoriais da razão analítica, beirando o inefável:

Só existem as coisas que descobrimos por nós mesmos; são também as únicas que conhecemos. Todo o resto é tagarelice.
É preciso desconfiar da paixão de se instruir. Ela sempre se volta contra nós, nos desserve em todo caso. É preciso saber poucas coisas, mas sabê-lo de modo absoluto.[53]

Para entender devidamente a ressalva de Cioran à “paixão de se instruir”, para não interpretá-la como rude misologia, é preciso discernir entre dois tipos de verdades, distinção que ele recolhe, uma vez mais, de suas leituras de textos budistas. Às “verdades de erro”, “verdades veladas”[54] (samvriti), corresponderia um saber instrumental e superficial, pragmático, compreendendo teorias, ideologias e credos diversos: domínios de saber envoltos, segundo o filtro da lucidez luciferina, em camadas e mais camadas de ilusão, equívocos e preconceitos atávicos. À “verdade verdadeira” (paramartha), corresponderia, por outro lado, certo saber essencial que é da alçada da inefabilidade apofática, mais propriamente um não-saber: é a consciência do vazio (sunyata), da interdependência universal, da impermanência e da transitoriedade, da absoluta ausência de fundamento, e de sentido, de todas as coisas.[55] O não-saber parte da constatação da supremacia existencial das “verdade negativas”, “irrespiráveis”, “inumanas”,[56] libertadoras por força de desilusão. “A eternidade é o privilégio do não-saber. Ela se perdeu para o homem, que não mais poderá alcançá-la e vivenciá-la, mas que fará tanto mais dela o objeto de seus pensamentos”.[57]

Como em Nietzsche, a ciência historicamente constituída não é, para Cioran, senão a moral convencional travestida de curiosidade natural.[58] Dois espíritos iconoclastas à sua maneira, ainda que a teoria da verdade subjacente ao pensar-dizer de Cioran não coincida com aquela que se pode depreender de Nietzsche. Como afirmara o autor de De l’inconvenient d’être né [Do inconveniente de ter nascido] em uma entrevista (cf. nota 30 supra), “a ciência é a escamoteação da sabedoria em nome do conhecimento do mundo”, sendo a busca do conhecimento, desde seus princípios, uma expressão da necessidade de ilusão e, ademais, uma busca essencialmente utópica – “para recorrer à terminologia bíblica, refazer o Éden com os meios da queda, permitindo assim ao novo Adão conhecer as vantagens do antigo. Não se pretende com isso corrigir a Criação?”[59]

O mundo é e será, para o homem, o que ele sempre foi: um “não-lugar universal”.[60] Nenhum novo mundo à vista no horizonte, sonhado ou cogitado, que não sucumba sob a vigilância de nossas dúvidas; nem tudo que se quer, se pode, e a lucidez termina desmascarando a ficção de todo valor, de todo ideal, de toda utopia. Nossa existência no mundo, cenário de decadência e decomposição, é o presente envenenado que recebemos ao nascermos, a pena que experimentamos, alegres e desgostosos, por não podermos escolher o que não nos cabe escolher. Acaso somos livres para não nascer e para não morrer? A conclusão da lucidez é de que o saber – no fundo, sempre “luciferino” – indispõe o ser, de que a busca do saber tende, no limite, a perturbar a harmonia cósmica à medida que a natureza é subjugada aos interesses e necessidades do animal sem limites.

Nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente a nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.[61]

O saber suscita, fatalmente, o apetite de poder. Partindo de uma interface entre ética e metafísica, o que está em questão é o mistério da iniquidade (“a felicidade do malvado”), o escândalo[62] do mal, no espírito de Schopenhauer, quando afirma que “o caráter mais específico do espanto que nos impele a filosofar vem obviamente da visão do mal e da maldade no mundo. Se nossa vida fosse sem fim e livre da dor, possivelmente não ocorreria a ninguém perguntar por que o mundo existe.”[63] O homem é a peça mais sofisticada, e a mais problemática, no conjunto dos seres; nele, a vontade de Vida se descontrola, desvirtua, degringola, volta-se – insaciável – contra ela mesma, contra a ordem natural dos seres e das coisas. Não apenas a nossa vida é efêmera e repleta de sofrimento, como nós impomos aos demais seres as consequências de nossos excessos, de nossas carências, de nossos caprichos. Uma vez mais, não se trata aqui de um mal histórico, relativo, mas de um mal que pertence à história ao mesmo tempo em que parece transcendê-la, não sendo redutível a suas contingências; um princípio negativo inerente à existência humana enquanto tal, e inerradicável, tão fenomenologicamente evidente, tão concretamente sensível, que sequer mereceria esforço argumentativo: “Como o mal preside tudo o que é corruptível, o que é o mesmo que dizer tudo o que vive, é uma tentativa ridícula querer demonstrar que ele encerra menos ser que o bem, ou mesmo que não contém nenhum.”[64]

O demiurgo como indispensável hipótese de trabalho

O pensamento da Queda lança uma suspeita de “cumplicidade” entre o homem e a divindade que se supõe tê-lo criado à sua imagem e semelhança, o erro (hamartía) sendo coextensivo à criatura e ao Criador – pejorativamente, o “demiurgo”. É ao demiurgo que se chega quando se contempla, sem reservas mentais, este mundo de carnificina e decomposição, um mundo em que nada está em seu lugar, a começar pelo próprio mundo”, em que o ser humano – agente de destruição em escala exponencial – causa estragos nos níveis microscópico e macroscópico. O demiurgo gnóstico não é senão uma figura mítico-alegórica do princípio de realidade (a relação entre identidade e alteridade, a divisão sujeito-objeto, e as antinomias que dela decorrem),[65] da necessidade pela qual as coisas são como nós a conhecemos habitualmente. “Necessito do demiurgo como de uma indispensável hipótese de trabalho”, anota Cioran em seus Cahiers; “prescindir dele equivaleria a nada compreender do mundo visível”.[66]

Pensar Deus é uma forma indireta de meditar sobre o humano e o mundano. Não se trata tanto de fazer teologia, mas antes antropologia poética e cosmomitologia. Mais do que ser racional ou motivado por uma estrutura volitiva complexa, o homem – homo faber – é antes de tudo criador, fabricador, inventor, e, razão e vontade à parte, muito do que ele empreende se volta contra ele. O homem está condenado a criar, e “criar é legar seus sofrimentos, é querer que os outros mergulhem neles e os assumam, impregnem-se deles e os revivam. Isso é verdade para um poema e pode ser verdade para o cosmos”.[67] Mas o que o homem – animal dual – tem de “divino” é o mesmo que o faz ter, em contrapartida, de “diabólico”, sem que se possa separar os dois princípios O homem, por sua simples-complexa presença, criador-destruidor, compromete a integridade (já comprometida desde a origem) da Criação, este “primeiro ato de sabotagem”.[68] Contudo, não se trata tanto de pensar o humano a partir do divino, mas opostamente; a suspeita suscitada pelo homem acaba recaindo também sobre aquele que se supõe ser seu modelo, sua imagem suprema: “O odor da criatura nos põe na pista de uma divindade fétida.”[69] É pelo homem que o mal entra na economia do cosmos, é por esse animal enfermo de consciência que o mundo agoniza, que o cosmos se acosmiza. “À exceção de alguns casos aberrantes, o homem não se inclina ao bem: que deus o impulsionaria a isso? Deve vencer-se, fazer-se violência, para poder executar o menor ato não manchado de mal. Toda vez que o consegue, provoca e humilha seu criador.”[70]

O mauvais démiurge presta-se bem ao papel de uma divindade própria a uma espiritualidade trágica, se não pessimista, no interior da tradição bíblica. Além de não ser, por uma perspectiva gnóstica, nenhum exemplo de amor ou de sabedoria, tampouco deve ser entendido como um poder transcendente ao mundo, separado da criação: é, pelo contrário, imanente ao mundo existente, à realidade cotidiana, a face oculta deste universo fracassado (raté), e pode-se muito bem compreendê-lo, talvez mesmo absolvê-lo, “por tudo o que em nós é fragmentário, inacabado, malfeito.”[71] “Esta terra, pecado do Criador!”, exclama o autor do Breviário de decomposição, lembrando-nos de que o ser humano é tão mais temível quanto mais cede à paixão do dogma, à tentação de possuir uma verdade, a sua verdade. Numa entrevista, ele dirá:

Eu me reconheço próximo da crença profunda do povo romeno, segundo a qual a criação e o pecado são uma e a mesma coisa. Em grande parte da cultura balcânica, a criação não cessa de ser acusada. O que é a tragédia grega senão a queixa constante do coro, ou seja, do povo, a propósito do destino? Dionísio, de resto, veio da Trácia.[72]

Enfim, a hipótese de um mal anterior à existência mesma, e que se agrava com o advento da consciência, a intuição de uma fatalidade da qual o homem seria tanto vítima quanto (co)autor – essas ideias tão antigas quanto mirabolantes se impõem a Cioran como hipótese de trabalho indispensável caso se queira fazer um mínimo de sentido da existência, da condição e da história humanas. Aqui, a imago dei nos reenviaria a uma imago hominis ignominiosa: como poderia um deus bom criar um ser que é, “moralmente, mais disforme do que o eram, fisicamente, os dinossauros?”[73] O homem, afinal, é o representante do demiurgo na terra, de onde sua natureza híbrida, temerária, “titânica”. E errante. E o mundo não apenas não conspira ao nosso favor, como não parecemos estar incluídos em seus planos, se planos há. O questionamento, de fundo pessimista, subjacente ao simbolismo gnóstico proposto por Cioran é: não seria o Anthropos uma “má ideia” de Deus?, sua presença no cosmos suscitando a suspeita de que as coisas talvez não venham a ser para o melhor (optimum), para nenhum tipo de Bem último. Melhor para quem, afinal?, como eludir que sofrem, em nossas mãos, ao mínimo contato conosco, os seres que não nos acompanharam em nossa corrida adiante, corrida para fora da Vida, para dentro do inferno da consciência? Não apenas não sentiriam nossa falta como, se pudessem, a celebrariam. A isso, Cioran contrapõe a hipótese de uma fatalidade[74] secreta que tudo governa, uma necessidade cósmica opressora, um “elã em direção ao pior”.

Não se trata de crer na realidade de além-mundos e de aspirar à salvação post-mortem, mas de reconhecer, pondo-as em questão, as razões profundas do anelo espiritual, da necessidade metafísica de algo que simplesmente não parece disponível, que não parece ser o caso. O que importa, pois, não é buscar o repouso num absoluto transcendente, mas pensar sem reservas – lucidamente – sua necessidade e sua impossibilidade. De onde a nostalgia – sempre reticente, sempre ambígua – de uma plenitude anterior à Queda; de onde também a intuição persistente da consciência como doença, e a urgência de uma “cura” sempre ineficaz, no limite inviável, pois volúvel, como todas as coisas que se encontram submetidas ao devir… Por fim, é preciso ter em mente que a salvação (ou “ressurreição”), no gnosticismo, está dada – ou não está – ainda em vida, não após a morte; morrer a salvo, serenamente, implica o esforço – sempre incerto, sempre insuficiente – de desiludir-se, desfascinar-se em relação à vida e à morte.

A consciência como enfermidade: paralelos filosóficos

Um dos textos que integram La chute dans le temps é Sur la maladie [Sobre a doença], no qual se disserta sobre a relação de cumplicidade, cheia de vantagens e desvantagens, entre a experiência primordial da dor e o advento da consciência no animal vertical. Todo padecimento é gerador de autoconsciência, logo o espírito, logo a lucidez. Anarquia das células, “apostasia dos órgãos”,[75] a doença é desagregação, deterioração, aniquilação, e por isso mesmo revelação, aridez espiritual que se converte em mística sem absoluto.[76] O que se depreende de Sur la maladie é que a relação causal entre males naturais e males morais, se causalidade há, segue uma ordem inversa àquela tradicionalmente postulada.[77] A perspectiva de Cioran é somatopsíquica, de modo que é o sofrimento da carne o que suscita a consciência, esta não sendo senão carne emancipada da gravitação, desperta – “lúcida e lírica” – “sob o aguilhão da dor”.[78] Noutras palavras, não são os males morais (cometidos e sofridos por força da livre ação humana) que suscitam os males naturais (a doença, a morte), mas o inverso. Enfim, o ser humano, segundo Cioran, se apartou da companhia dos animais porque estava “sem dúvida mais exposto e mais receptivo às doenças que eles”[79] – não é outra a amarga intuição do homem do subsolo, não é outra a causa de seu lamento por não ser inseto. Aliás, não é por acaso que o livro de Dostoiévski (uma das variantes francesas do título) seja evocado em Sur la maladie:

Sem a dor, bem o viu o autor da Voix souterraine [Voz subterrânea], não haveria consciência. E a dor, que afeta todos os viventes, é o único indício que permite supor que a consciência não é o apanágio do homem. Inflija qualquer tormento a uma besta, contemple a expressão de seu olhar, e perceberá nele um lampejo que a projeta por um instante para além de seu estado. Qualquer uma delas, quando sofre, dá um passo em nossa direção, esforça-se para se unir a nós. E é impossível, enquanto dura o seu mal, recusar-lhe um grau, mínimo que seja, de consciência.[80]

O sofrimento singulariza (de onde a consciência), a dor é o que é mais moi-même, e, como onde há fumaça há fogo, onde há muita dor e suscetibilidade ao sofrimento há muita consciência (inverta-se a causalidade): logo a lucidez, essa consciência hipertrofiada (Dostoiévski), “culminação do processo de ruptura entre o espírito e o mundo.”[81] “Consciência não é lucidez”, esta última se distinguindo da primeira por ser “necessariamente consciência da consciência, e se nós nos distinguimos das bestas, é a ela apenas que cabe o mérito ou a culpa.”[82] Nem os animais são absolutamente isentos de consciência, dir-se-ia de alma, como a lucidez não é um infortúnio destinado à maioria, imersa nas ilusões e mentiras caracterológicas que ajudam a viver. Tudo isso para dizer que o ser humano se mostra, em meio aos seres, como a Doença mesma encarnada, hipostasiada:

Depois de haver peregrinado através das espécies, e lutado com maior ou menor êxito para nelas imprimir sua marca, a Doença, cansada de sua carreira, quis sem dúvida aspirar ao descanso, buscar alguém em quem afirmar sua supremacia em paz, alguém que não se mostrasse rebelde a seus caprichos e a seu despotismo, alguém com quem realmente pudesse contar. Hesitou, procurou à direita e à esquerda, fracassou muitas vezes. Finalmente encontrou o homem, se é que não foi ela que o criou.[83]

A consciência como fatalidade, tormento, doença e, a fortiori, enfermidade: intuição que aproxima Cioran de Unamuno (O sentimento trágico da vida) e Dostoiévski (Memórias do subsolo), dentre outros autores. Essa intuição antropológica negativa não saberia remontar à matriz filosófica vinculada a Atenas, mas antes a um universo de pensamento e espiritualidade que se associaria ao Oriente, notadamente Jerusalém, de modo que a distinção entre doença e enfermidade seria mais bem elucidada não tanto a partir das ciências biológicas, mas a partir da espiritualidade judaico-cristã e de suas ramificações diversas. O Novo Testamento distingue  entre doença e enfermidade,[84] a primeira sendo uma afecção de cunho meramente físico (os males determinados que afligem o corpo), enquanto que a segunda evoca um sentido mais espiritual, associado à condição humana vertical, dotada de uma consciência e de uma vontade própria. Atenas e Jerusalém: antropovisões distintas, e seria difícil, se não impossível, identificar uma visão tal (o homem, animal enfermo) no universo grego pré-cristão. Mais do que às doenças, o ser humano estaria destinado à enfermidade, cuja presença na existência humana não saberia ser reduzida a uma lógica natural de causa e efeito: trata-se de um mal indeterminado, sem causa evidente. A consciência como enfermidade seria, no limite, um mistério da existência e da natureza mesma, em cujo seio surge o animal vertical, esse “exemplo de antinatureza”.[85] Não por acaso o ser humano será representado como uma espécie de paradoxo ambulante, um “estraga-prazeres”[86] (trouble-fête) da harmonia universal, um “extraviado”[87] (fourvoyé), um “trânsfuga do ser”[88] (transfuge de l’être), se não o “ponto negro da Criação”.[89] De resto, a diferença entre ortodoxia e heterodoxia, no que concerne à consciência como enfermidade, é que, para a segunda, a Queda se dá no interior de Deus: a doença estava contida desde o princípio, no primeiro ato da Criação, antes mesmo de se instalar no homem (segundo ato da Queda).

A consciência da Queda não pode ser senão uma consciência enferma, sendo o espírito a culminação desse princípio negativo que funda a condição humana. Trata-se, nas palavras de Dostoiévski, de uma “consciência hipertrofiada”,[90] e não seria fortuita a similitude do sentido descensional entre a “queda” e o “subsolo” do personagem anônimo de Memórias do subsolo. O homem do subsolo é uma existência afundada, interiormente cindida, dissolvida na mais completa anomia, irreconciliável consigo mesmo e com o mundo, irremediável, e sua doença se confunde com o seu eu, com sua identidade mesma. É o homem da Queda por excelência. Resultado? Vive na contradição, em perpétua tensão consigo e com o próprio real, exasperado pela impossibilidade de resolver-se, de decidir(-se), de sair do subterrâneo em que se encontra. Sua condição instaura a impossibilidade de aderir definitivamente ao mundo e a si mesmo, à vida e à morte, noutras palavras: a dupla impossibilidade de amar e de odiar, de viver e de morrer. Eis o hamletismo luciferino do personagem dostoievskiano, sua eterna indecisão, sua hesitação abismal.

O que o homem do subsolo chama de “consciência hipertrofiada” se aproxima daquilo que Cioran designa de “lucidez”, paroxismo catastrófico da consciência como enfermidade: “Consciência não é lucidez. A lucidez, monopólio do homem, representa a culminação do processo de ruptura entre o espírito e o mundo; é necessariamente consciência da consciência e, se nós nos distinguimos das bestas, é a ela apenas que se deve o mérito ou a culpa.”[91] O desejo do personagem de tornar-se um inseto é menos a expressão de um sofrimento por carência de lucidez que por excesso de consciência, menos o signo de baixa autoestima que de um orgulho luciferino, resultante da última das ilusões, qual seja, a de ser o único desiludido.

Mas, senhores, quem é que pode vangloriar-se das próprias doenças, e ainda procurar causar com elas um efeito?
Aliás, que digo? Todos fazem isto; é justamente das doenças que se vangloriam, e eu talvez mais que ninguém. […] Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença.[92]

O mesmo pesar por uma consciência reflexiva que se volta contra ela mesma também se expressa ao longo dos escritos de Cioran, desde seu primeiro livro, Nos cumes do desespero, escrito em meio à atmosfera infernal da insônia. Em francês, ele escreverá: “Melhor ser animal que homem, inseto que animal, planta que inseto, e assim por diante. A salvação? Tudo o que diminui o reino da consciência e compromete sua supremacia.”[93] O que caracteriza a lucidez em Cioran, assim como a consciência hipertrofiada do homem do subsolo, é o paradoxo trágico, uma condição antropológica de contradição e confusão, angústia, incerteza, vertigem – no limite, irrealização, fracasso existencial: a lucidez faz do indivíduo um “réprobo voluntário”[94] (réprouvé volontaire), um “não-liberto”[95] (indelivré) por antonomásia. Para o autor de La chute dans le temps, o paradoxo é a marca maior do ser humano, a figura antropológica por excelência. Cada indivíduo é um paradoxo sólido, e uma contradição ambulante: no homem encontra-se todo tipo de contrários, ele vive contradizendo seus desejos e esperanças, contradizendo a si mesmo em sua paradoxal “humanidade”. Dito isso, a lucidez cioraniana tem por característica ser uma lucidez desatinada, uma louca lucidez que a tudo desvirtua e dissolve, constatando a “incoerência e a dispersão das coisas”,[96] registrando “o iminente, a sede de um mundo que se anula e que, sobre a ruína de suas evidências, corre em direção ao insólito e ao incomensurável, a um estilo espasmódico.”[97] É a consciência árida de uma embriaguez constitutiva que só se dissipa quando termina a vida, a descoberta da impossibilidade última da desilusão, de que mesmo o nada é ainda uma esperança, um recurso, pois “equivocar-se, viver e morrer enganados, isto é o que fazem os homens.”[98] Tal disposição subjetiva se assemelharia a um estado de dúvida hiperbólica interminável, de tal modo que essa dúvida mal se distinguiria de uma certeza negativa, a certeza do pior. A lucidez não sonha, vive um pesadelo acordado. Sobretudo, lucidez e saúde não são correlatas, situando-se nas antípodas uma da outra: “A decadência não é outra coisa senão o instinto tornado impuro pela ação da consciência”.[99] Princípio de ruptura e disjunção, fragmentação e aniquilamento, a lucidez é um atentado à duração e à vida mesma, um “estado de não-suicídio”.[100]

A lucidez cioraniana (como também a consciência hipertrofiada do homem do subsolo) põe em questão o problema, tão intensivamente trabalhado por Nietzsche, do ressentimento e de sua expressão mais acentuada, o rancor,[101] com os desdobramentos e redobramentos possíveis desta experiência psicológica debilitante. A diferença é que Cioran, quanto a isso equidistante de Dostoiévski e de Nietzsche, radicalizará a problemática antropológica da enfermidade, sublinhando a aporia de uma condição humana irremediavelmente entregue aos caprichos da consciência, entendida aqui como uma enfermidade per se.[102] Nem amor fati, nem amor dei: se há uma saída, ou superação, do ressentimento apontados pelo autor de Le mauvais démiurge, não é nem pela afirmação da existência tal como se realiza no devir, e tampouco pela reconciliação, a partir da fé na Revelação bíblica, com aquele que se supõe ser o Deus criador de todas as coisas, contra o qual a razão humana, na ausência de toda fé, não pode senão tropeçar. Em todo caso, o que aproxima Cioran tanto de Dostoiévski quanto de Nietzsche (autores cuja leitura marcaria fortemente seu pensamento) é a intuição dessa condição antropológica problemática, fonte de sofrimento e errância, decadência e absurdo, causa eficiente de um afeto destrutivo que, no risco de tornar-se uma necessidade inapelável, precisará ser enfrentando e superado: a vontade de vingança. Vingança contra quem, contra o quê? Mais que contra os seres vivos, humanos ou outros, contra o Ser e contra Deus, contra a existência, sublimados e convertidos, por uma manobra prudente da inteligência, de “venenos imediatos” em “venenos abstratos”.[103] É o Criador, representado na figura do “funesto demiurgo”, quem sofrerá com o rancor da criatura. “O deus mau é o deus mais útil que já existiu. Não o tivéssemos à mão, aonde escorreria nossa bílis? Qualquer forma de ódio se dirige, em última instância, contra ele.”[104] A sua confusão é a projeção, no infinito, de nossa própria condição terrestre, e é razoável que nos voltemos à sua incerta figura sempre que nos debruçamos sobre nossas imperfeições e nossos impasses. “Pensamos nele com tudo o que em nós é contrário à forma ou ao bom senso, com nossas confusões e nosso delírio”,[105] e “a instauração de um equívoco universal é a proeza mais calamitosa que teremos realizado, e que nos torna rivais do demiurgo.”[106]

A partir de pressupostos tão divergentes, Cioran e Dostoiévski parecem chegar às mesmas conclusões a respeito da condição humana, da consciência como enfermidade. Para ambos, a “consciência é a maior infelicidade para o homem”, que ama sua condição e “não a trocará por nenhuma outra satisfação” (Dostoiévski[107]); pois “o homem ama a tensão, o perpétuo avanço: para onde iria no interior da perfeição? Incapaz para o eterno presente, teme ainda mais sua monotonia, armadilha do paraíso sob sua dupla forma: religiosa e utópica.”[108] Consciente, no fundo, de sua condição insólita, do abismo que o habita, que é ele mesmo, o homem não pode senão fugir de si, sendo a história essa fuga adiante, em direção ao futuro: “negação imemorial e cotidiana do Paraíso”…[109] Intuição maior da antropologia da enfermidade que, postulando o caráter tragicamente paradoxal da criatura lúcida, aproxima – por caminhos distintos – Cioran de Dostoiévski: o ser humano ama a queda, a ruína, a decomposição, e “se a morte só tivesse aspectos negativos, morrer seria um ato impraticável.”[110]

As vossas vantagens são o bem-estar, a riqueza, a liberdade, a tranquilidade, etc., etc.; de modo que o homem que se declarasse, por exemplo, consciente e claramente, contra todo esse cadastro, seria, na vossa opinião – e naturalmente na minha também –, um obscurantista ou um demente completo, não é verdade? Mas eis o que é surpreendente: por que sucede que todos esses estatísticos, mestres de sabedoria e amantes da humanidade, ao computar as vantagens humanas, deixam de mencionar uma delas? Nem sequer a incluem no cômputo, na forma em que deve ser tomada, mas é disso que depende todo o cálculo. Não seria grande desgraça tomar essa vantagem também e incluí-la na lista. Mas a ruína está justamente em que esta vantagem complicada não cabe em nenhuma classificação e não se enquadra em nenhuma lista! Tenho, por exemplo, um amigo… […] Devo prevenir-vos de que meu amigo é uma pessoa coletiva e, por isso, torna-se de certo modo difícil lançar sobre ele toda a culpa. Eis onde quero chegar, senhores! Não existirá, de fato (e eu digo isto para não transgredir a lógica), algo que seja a quase todos mais caro que as maiores vantagens (justamente a vantagem omitida, aquela de que se falou ainda há pouco), mais importante e preciosa que todas as demais e pela qual o homem, se necessário, esteja pronto a ir contra todas as leis, isto é, contra a razão, a honra, a tranquilidade, o bem-estar, numa palavra, contra todas estas coisas belas e úteis, só para atingir aquela vantagem primeira, a mais preciosa, e que lhe é mais cara que tudo?[111]

O animal enfermo, heresia da natureza

O homem, concebido nos termos dostoievskianos desse universal concreto (“pessoa coletiva”), não parece ter sido feito para a plenitude, para a felicidade, para a harmonia. Quanto mais se prolonga, mais a história parece confirmá-lo em sua convulsões. Não seria a história a negação mesma de todos esses valores, “o resultado de nosso medo do tédio, desse medo que sempre nos fará amar o sabor e a novidade do desastre, e preferir qualquer desgraça à estagnação?”[112] E por que, afinal? Ora, respondê-lo definitivamente, possuir uma explicação racionalmente satisfatória para este estado de coisas que, ligando o ser humano à totalidade dos seres, funda esta condição tragicamente temerária, seria encontrar o sentido para aquilo que parece recusar todo sentido, toda inteligibilidade suficiente, um estado de coisas – ao mesmo subjetivo e objetivo – que pode ser propriamente caracterizado como absurdo ou, numa linguagem menos secular, um “mistério”.[113] Cioran não racionaliza, não conceitualiza, sendo sua abordagem subjetiva e intuitiva; tudo o que pensa e afirma, o faz a partir de dados vividos (données vécues), de sua experiência pessoal e íntima. De onde sua metafísica existencial (análoga à metafísica empírica-intuitiva de Bergson), segundo a qual “as mais profundas experiências subjetivas são também as mais universais, pois por meio delas chega-se à profundeza primordial da vida”,[114] e “a única maneira de ir ao encontro de outrem em profundidade é indo em direção ao que há de mais profundo em si mesmo.”[115] A resposta à pergunta dirigida a si mesmo –  “por que não me mato?” – poderia muito bem se aplicar à questão mais geral sobre o ser humano, a causa e o sentido de sua existência: “se soubesse exatamente [o que me impede], eu não teria mais perguntas a fazer-me, pois teria respondido a todas.”[116]

Uma vez tendo sido acossado pela consciência luciferina (tal como o personagem do subsolo), essa consciência debilitante e malsã, que perturba a vida e as fontes mesmas da Vida, percebe-se então, maravilhado e aterrorizado, “a anomalia do fato bruto de existir” e, sobretudo, a anomalia de “nossa situação específica: […] é menos natural ser homem do que simplesmente ser.”[117] Tomar consciência, culminando nessa nefasta lucidez que Cioran teve a sorte ou o azar de experimentar, é despertar para o drama da existência, e a fortiori da existência humana. A natureza paradoxal do humano instaura uma condição existencial de aporia que não pode ser remediada, apenas suportada ou esquecida: o homem, considerado no que possui de profundo (a alma, o espírito, sua “vida interior”), parece feito para viver na antinomia, dividido entre tendências contraditórias e necessidades que se excluem, fazendo dele um eterno “convalescente que aspira à doença”. Outro texto chave para compreender a visão cioraniana do ser humano é “O animal indireto”, no Breviário de decomposição:

Fica-se realmente desconcertado quando se pensa continuamente, com uma obsessão radical, que o homem existe, que é o que é – e que não pode ser diferente. Mas o que é, mil definições o denunciam e nenhuma se impõe: quanto mais arbitrárias são, mais válidas parecem. O absurdo mais etéreo e a banalidade mais pesada igualmente lhe convêm. A infinidade de seus atributos compõe o ser mais impreciso que possamos conceber. Enquanto que os animais vão diretamente a seu alvo, ele se perde em rodeios; é o animal indireto por excelência. Seus reflexos improváveis – de cujo relaxamento resulta a consciência – o transformam em um convalescente que aspira à doença. Nada nele é saudável, salvo o fato de tê-lo sido. Seja anjo que perdeu suas asas ou macaco que perdeu seu pêlo, só pôde emergir do anonimato das criaturas graças aos eclipses de sua saúde. Seu sangue mal composto permitiu a infiltração de incertezas, de esboços de problemas, sua vitalidade maldisposta, a intrusão de pontos de interrogação e de sinais de admiração. Como definir o vírus que, corroendo sua sonolência, sobrecarregou-o de vigílias em meio à sesta dos seres? […] O espírito murcha ao se aproximar da saúde: o homem é inválido – ou não é. Quando, depois de ter pensado em tudo, pensa em si mesmo – pois só chega a este ponto pelo desvio do universo e como último problema que se coloca –, fica surpreso e confuso. Mas continua preferindo seu próprio fracasso à natureza que fracassa eternamente na saúde.[118]

Este aforismo dialoga com L’arbre de vie, onde se lê que “o caráter insólito de nossas perplexidades deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades”, e onde se sublinha “essa volúpia toda vez que nos desviamos de nós mesmos para nos identificar com o bem-aventurado sono dos objetos.”[119] O que caracteriza o homem é a indefinição, a indeterminação e a não-fixidez (das noch nicht festgestellte Tier), a incerteza, a flutuação, mais não-ser que ser. De onde sua magistral imperfeição, sendo que “graças à imperfeição somos superiores a Deus”, pois enquanto Ele está preso a sua identidade e condenado a não ser outra coisa que não Ele mesmo (“eu sou aquele sou”), a criatura está (condenada a ser) livre para inventar-se, metamorfosear-se, dando-se o luxo de poder dizer: “eu sou aquele que não sou”, “não sou aquele que sou”, “sou e não sou”. A despeito de sua condição frágil e precária (e por isso mesmo grandiosa), o homem se inventa definições, essências, causas e finalidades determinadas, atravessando os dias – por uma questão de sobrevivência na complexidade – na ilusão de certezas, segurança, permanência, necessidade. Mas tais valores não poderiam ser mais frágeis, se é que não constituem puras ficções, quimeras: “metafísica para uso de macacos…”[120] O que impera na dinâmica da existência humana, hiperconsciente e submetida ao devir não é senão a mais radical contingência, o acidental, o transitório, o efêmero. De onde o dado primordial do medo na antropologia poética de Cioran, mas um medo em estado puro, “começo, esboço de ‘alma’”.[121] Mediante essa consciência progressiva que é o princípio de sua penosa individuação, o homem descobre-se, incerto, entre a existência e a inexistência, meio vivo, meio morto, na consciência dilacerante de sua constante decomposição: estremece, sincopa, desespera, tornando-se agressivo por excesso de insegurança, por “déficit de existência”.[122] Entende-se o porquê da afinidade eletiva de Cioran com os pensadores religiosos (especialistas em abismos), como o autor de Temor e Tremor:

Nenhum meio de viver ao mesmo tempo na inocência e no medo, sobretudo quando este último é fonte de tormentos, abertura ao funesto, cobiça de desconhecido. Nós cultivamos o frisson em si, antecipamos o nocivo, o perigo puro, à diferença dos animais que só amam tremer diante de um perigo preciso, único momento em que, de resto, deslizando em direção ao humano e sucumbindo a ele, assemelham-se a nós; pois o medo – espécie de corrente psíquica que atravessa subitamente a matéria para desorganizá-la – aparece como uma prefiguração, como uma possibilidade de consciência, inclusive como a consciência dos seres que carecem dela… A tal ponto ele nos define que não podemos mais perceber sua presença, a não ser quando ele relaxa ou se retira, nesses intervalos serenos que não obstante ela impregna, e que reduzem a felicidade a uma doce, agradável ansiedade.[123]

A consciência, e com mais razão o espírito, é um catalisador de medo, aprofundando-o, agravando-o, tornando-o o motor inconfesso de grande parte de nossas ações. Medo de si mesmo e do outro, do que é mais familiar e do que é mais estranho, medo de ter medo, medo da morte e medo da vida, esta se tornando, mediante a Queda, “a grande Desconhecida”, ao passo que aquela, “demasiado exata”, tem todas as razões a seu favor; “misteriosa para nossos instintos”, e apenas para eles, “delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.”[124] À diferença dos animais, o homem é um ser encurralado, ameaçado desde dentro, vulnerável e exposto a males reais e virtuais; graças à sua capacidade de reflexão, a morte é para ele o acontecimento de toda uma vida, confundindo-se com a duração mesma: o homem não morre apenas quando morre, ele morre o tempo todo, não para de morrer, vive morrendo e morre vivendo – para sua infelicidade e seu orgulho de “criatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, insólita na Criação”.[125] Consciência e medo coincidindo, o animal metafísico vive dividido entre a nostalgia e a ansiedade, nessa inaptidão a coincidir consigo mesmo e a instalar-se, sereno, no eterno presente do instante, fadado a ser perdido e reconquistado continuamente.

Não podendo ser definido, hostil a toda conceitualização, o homem permanece um enigma, um ponto de interrogação, uma questão obsedante e… inesgotável. Pode-se, na melhor das hipóteses, esboçar interpretações e caracterizações aproximativas, e sempre insuficientes, para inteligir sobre ele, sua condição, sua origem e seu destino. A conclusão a que chega Cioran ao meditar sobre o caso do animal enfermo, sobre si mesmo, é de que o homem é a “heresia da natureza” (fórmula recorrente em seus escritos[126]), um ser que parece historicamente destinado a romper com toda identidade, ordem, harmonia, levando a cabo sua tarefa de “falso vivente”.[127] Romper com toda ortodoxia, tanto no plano ontológico quanto no plano teológico e político: eis o “destino” histórico do homem. É aí que se deve buscar a razão da desconfiança de Cioran em relação às modernas utopias (de onde as tiranias, as revoluções, as “farsas sangrentas”[128]), segundo ele, vãs tentativas de restabelecer o paraíso na terra com os instrumentos do diabo, esse “filantropo funesto”:

Aí as trevas estão proibidas, só a luz é admitida. Nenhum vestígio de dualismo: a utopia é, por essência, antimaniqueísta. Hostil à anomalia, ao disforme, ao irregular, tende para o fortalecimento do homogêneo, do modelo, da repetição e da ortodoxia. Mas a vida é ruptura, heresia, abolição das normas da matéria. E o homem, em relação à vida, é heresia em segundo grau, vitória do individual, do capricho, aparição aberrante, animal cismático que a sociedade – soma de monstros adormecidos – pretende reconduzir ao caminho reto.[129]

Não é irrefletidamente que Cioran transporta uma categoria teológica para o domínio da biologia e da ontologia. E o faz porque concebe o ser humano como um animal naturalmente religioso: a “religiosidade” aqui entendida em sentido lato, dir-se-ia extra-institucional (o homem é um forjador de ídolos, dogmatiza tudo), de modo que “pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a terra”.[130] O homem não deseja conhecer simplesmente por conhecer, por uma curiosidade natural e desinteressada, mas antes porque tem necessidade de alento (souffle), de fundamento (seu “chão” metafísico), de algo tão intangível quanto sólido (um sentido) a que se possa apegar, de alguma Verdade com a qual possa contar definitivamente. É como se, para respirar, fosse preciso ademais crer no ar que se respira (e “só o idiota está equipado para respirar”[131]). Querer não é poder, mas conhecer pode ser – como é, via de regra – poder. Assim também,

se a humanidade se apegou por tanto tempo ao absoluto, era porque não podia encontrar nela mesma um princípio de saúde. A transcendência possui virtudes curativas; sob qualquer disfarce com que se apresente, um deus significa um passo em direção à cura. Mesmo o diabo representa para nós um recurso mais eficaz que nossos semelhantes.[132]

O destino, ou a “tarefa” histórica do homem, é levar às últimas consequências essa condição aporética, consumar o potencial de espírito que reside em cada um de nós: da ingenuidade primitiva à lucidez do último homem, do delírio ao tédio, já que a vida se cria no primeiro e se desfaz no segundo.[133] A história tem, portanto, para Cioran (crítico feroz do progresso e das utopias), um sentido descensional, ou nenhum sentido. Ambas as hipóteses parecem se alternam em seus escritos: por um lado, uma ateleologia irredutível; por outro, a intuição de um telos (finalidade, propósito) negativo: um élan vers le pire (“elã em direção ao pior”), de onde o seu fatalismo. Trata-se, neste caso, da duração e do prolongamento, em âmbito civilizacional, de uma mesma queda: a Queda no tempo. Sendo o homem um animal religioso, natural e metafisicamente enfermo, a história transcorre como se fosse sua via crucis, um longo martírio sem nenhum sentido, nenhuma significação aparente, ao longo do qual a humanidade está condenada a esgotar-se até suas últimas reservas de energia, até o limite do nada. O homem parece buscar, historicamente, aquilo que mais teme, que mais o ameaça, pois ama o perigo no desconhecido; foge, numa deserção ao futuro, daquilo que não poderia (mais) suportar sem arrebentar (pois perdeu, optando pela Ciência em detrimento da Vida, a capacidade de repousar nele): o eterno presente, a plenitude no interior de sua condição primeira, a harmonia pré-consciente em meio à monotonia dos seres. Doravante, o tédio, que poderia (e deveria) ser experimentado positivamente, como uma disposição beatífica, transforma-se em motivo de angústia, horror, desespero.[134]

É digno de nota que, muito embora possa ser alinhado à tradição do pessimismo filosófico inaugurada por Schopenhauer (e que inclui outros autores menos conhecidos, todos eles pós-schopenhauerianos, como Philipp Mainländer, Julius Banhsen, von Hartmann, entre outros), depreende-se dos escritos do autor de La chute dans le temps um profundo interesse filosófico pela história, interesse efetivamente inexistente na filosofia do autor do Mundo como vontade e representação. Muito embora corrobore, à sua maneira, o pessimismo metafísico de Schopenhauer, que parece não dar ensejo a nenhuma reflexão sobre o devir histórico (para Schopenhauer, diferentemente de Maquiavel, a história nada teria a ensinar), o pessimismo metafísico de Cioran conjuga-se surpreendentemente com uma refinada filosofia da história. Metafísico e existencial a uma só vez, o pensamento cioraniano mergulha na história para, uma vez analisado e esmiuçado seus mecanismos, espantar-se com ela e evadi-la, em direção àquilo que, de algum modo, a transcende. Toda metafísica (sistemática ou intuitiva, positiva ou negativa) implica, afinal, “uma reflexão trans-histórica. Ocupa-se da essência, do imutável. Transcende o temporal, não avança.”[135]

Nada de bom pode vir da história: anomalia da anomalia, degradação de uma degradação (o tempo), a história é “o homem presa do tempo, portadora dos estigmas que definem a uma só vez o tempo e o homem”.[136] A história é o homem em ação, em movimento de nenhum lugar a lugar nenhum (menos pior das hipóteses), se não da idade de ouro ao… apocalipse (pior das hipóteses, por mais que nada nos autorize a sermos tão otimistas, a ponto de poder contar com o alívio de um tal desfecho). O desenrolar histórico só inspira desconfiança e desilusão, suscitando à consciência uma única palavrinha, tão em desuso nos discursos seculares: o mal. Enquanto protagonistas mais ou menos ativos do devir histórico, “estamos afogados no mal”,[137] e, meditando sobre esta longa crise, “só concebemos um desejo: promover a agrura à dignidade de uma gnose.”[138]

História universal: história do Mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações. Se você não contribuiu para uma catástrofe, desaparecerá sem deixar vestígio. Interessamos aos outros pela desgraça que semeamos à nossa volta. “Nunca fiz ninguém sofrer!” – exclamação para sempre estranha a uma criatura de carne e osso. Quando nos entusiasmamos por um personagem do presente ou do passado, fazemos inconscientemente a pergunta: “Para quantos seres foi causa de infortúnio?” Quem sabe se cada um de nós não aspira ao privilégio de matar todos os nossos semelhantes? Mas este privilégio é concedido a um pequeno grupo de pessoas e nunca por inteiro: só esta restrição explica por que a Terra ainda está povoada. Assassinos indiretos, constituímos uma massa inerte, uma multidão de objetos frente aos verdadeiros sujeitos do Tempo, frente aos grandes criminosos que tiveram êxito.[139]

O elemento de ligação, na metafísica existencial de Cioran, entre a dimensão histórica e a dimensão trans-histórica de sua reflexão é justamente o problema – originalmente teológico, herdado pelo pensamento moderno de forma secularizada – do mal, que pertence à existência histórica do ser humano sem, no entanto, reduzir-se a ela. Com efeito, não é outra a questão (que, como bem apontou Susan Neiman,[140] estabelece uma interface teórica entre ética e metafísica) que permite fazer sentido (da coerência de) um pensamento que aparenta ser, no limite, inclassificável: nem (apenas) metafísico, nem (apenas) existencial, tampouco definitivamente cético, ou pessimista, ou niilista, ou místico – uma “soma de atitudes” em que se combinam, e se con-fundem, todas estas tendências, entre outras. Em todo caso, se pudermos assinalar, dentre elas, aquelas que seriam mais filosoficamente relevantes, apontaríamos o pessimismo (o qual não implica necessariamente, como pretendeu Nietzsche, niilismo) e certo misticismo que, em sua configuração heterodoxa, e apesar de uma aparente contradição, não impediria a coexistência do ceticismo e tampouco do ateísmo – um ateísmo de coloração religiosa, com efeito, em contraste com o ateísmo francês, por exemplo, que seria, segundo Cioran, “desastrosamente laico”.[141] Um ateísmo religioso, ou, a fortiori, místico, com efeito, com o qual muitos ateus de carteirinha dificilmente se identificariam.[142] De onde a mística sem absoluto preconizada pelo autor de La chute dans le temps: uma mística “da existência pura, das raízes imanentes da existência.”[143]

A cura pela ortodoxia do vazio

A experiência homem fracassou. Ele se tornou um impasse, enquanto que um não-homem é mais: uma possibilidade. Olha um de teus ‘semelhantes’ profundamente nos olhos; que te faz crer que não se pode esperar nada mais? Um homem é muito pouco…[144]

Um dos traços mais marcantes do pensar-dizer cioraniano é a negação, uma negação visceral e não dialética que busca, mais que um objetivo teórico, um resultado prático e concreto – existencial, sapiencial. É a negatividade do seu pensamento, o modus operandi de uma negação que se pretende, afinal, pessimismo à parte, salutar, dir-se-ia salvífica (ou mais precisamente, liberadora, no sentido do francês délivrance). Como assinala Michel Jarrety, “o pensamento de Cioran não parece construir-se, com efeito – ou talvez simplesmente não ter existido – senão numa oposição constantemente reconduzida: ao homem e à História, ao conhecimento mesmo e ao progresso, ao real e a Deus.”[145]

Tanta obstinação na via negationis – negação do homem, da história, de Deus, etc. – não poderia deixar de suscitar a questão sobre aquilo que, não sendo (e não podendo ser) negado, permanece incólume, alheio à negação. O que é que subsiste, enquanto saída, abertura (poros, em oposição à aporia), possibilidade de salvação, para além de toda a pars destruens que caracteriza o pensamento demolidor de Cioran? Noutras palavras, o que haveria de pars construens para além do pessimismo, e mesmo do niilismo, do autor de Le mauvais démiurge, para quem tudo o que é, tudo o que pode ser pensado e dito, está ameaçado, se não fundamentalmente contaminado – ao menos para efeito fenomenológico, em se tratando do ser humano – pela imensa realidade da enfermidade (no limite, mais do que antropológica, ontológica)? Deus mesmo, admitindo-se sua realidade, não escaparia a ela.

A única coisa que parece subsistir, pois, para além da enfermidade, permanecendo efetivamente isenta dela, é o nada (le néant), ou, mais precisamente, o vazio (le vide), e é preciso distinguir entre uma coisa e outra. A diferença é que, enquanto o nada possui uma conotação forçosamente sinistra, negativa, inscrevendo-se no registro de uma experiência europeia mais do que qualquer outra (o “niilismo europeu” diagnosticado por Nietzsche), o vazio, e com maior razão ainda a vacuidade (sunyata em sânscrito), denota algo de fundamentalmente positivo e salutar (liberador); buscando-o, subtrai-se toda propriedade do ser e, em vez de um sentimento de falta, tem-se o sentimento de uma plenitude pela ausência de toda coisa.[146] A experiência oriental do vazio seria, com efeito, não uma experiência tenebrosa, mas luminosa. Oriundo dos confins da Europa, do umbral entre Ocidente e Oriente, Cioran transita entre o niilismo europeu e a espiritualidade oriental (notadamente o budismo madhyamika de Nagarjuna, Chandrakirti e Shantideva). Não se pode compreender o comentário abaixo sem que se tenha este dado biográfico em mente:

16 de dezembro [1967] A doença é uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida – não apenas tudo o que vive, mas também tudo o que é, está exposto a ela: a pedra mesma lhe está sujeita. O vazio apenas não está doente; mas para ter acesso a ele, é preciso está-lo. Pois ninguém são saberia esperá-lo. A saúde espera a doença; a doença apenas pode conduzir à negação salutar dela mesma.[147]

A metáfora da ortodoxia, instrumento propedêutico em direção às noções de “pureza” e, sobretudo, de “saúde” (ambas em sentido ontológico, mais do que moral e biológico), não poderia deixar de apontar para a intuição de que o caráter heterodoxo (herético) da existência se estende até o absoluto, “ao primeiro dos seres, à sua posição e à ideia que representa e simboliza”.[148] A experiência existencial de Cioran leva-o à conclusão de que nem os deuses nem a história podem oferecer salvação (délivrance) alguma, ao menos não na ausência da fé. E o humanismo, no sentido forte do termo, não deixa de implicar certa fé, não deixa de ser uma religião, a religião do Homem, sendo o seu altar a História, sua liturgia a Ciência.[149] A história representa uma possibilidade, ao menos aparente, de transcendência em relação à condição enferma da existência nos limites de um tempo de vida individual, assim como Deus representaria, em relação à história, uma possibilidade de transcendência curativa mais eficaz (cf. nota 131 supra), pois menos antropomórfica, não antropocêntrica. Mas, no limite, permanece-se, em ambos os casos, sujeito ao mesmo princípio de decadência e de decomposição, enquanto réprobo de cadeias mais ou menos evidentes. Tanto o cristianismo quanto o humanismo teriam por efeito manter o indivíduo submetido à consciência, que é fonte de ansiedade e de tormento (uma enfermidade), e que tende mais ao dogma e aos credos diversos, do que ao verdadeiro conhecimento, negativo por princípio (paramartha; cf. notas 54 e 55 supra). “O budismo”, por sua vez, “é uma religião que só preconiza o conhecimento. Ele vos ensina que nós somos compostos, que esses compostos se dissolvem, que não possuem realidade, vos demonstra nossa não-realidade. E em seguida, diz-se: agora, tirai as consequências.”[150]

Por tudo isso é que, muito embora a lucidez descrita por Cioran flerte com o niilismo, atravessando-o inclusive, nem por isso este autor pode ser dito, afinal de contas, um niilista. Pelo menos não sem uma radical equivocidade, equivocidade esta que instaura um princípio de instabilidade semântica no respectivo conceito, conforme predicado a ele, fazendo-o oscilar em direção a outros operadores teórico-semânticos que não aquele tão exaustivamente trabalhado por Nietzsche. Como bem afirmou Philippe Tiffreau, “Cioran é anarquista nas bordas, niilista no meio e místico no centro”.[151] Neste mesmo sentido é relevante o comentário de outra comentadora, quando afirma que ver em Cioran “um simples cínico a sobrevoar a realidade com um olhar desabusado de tanto-faz, ou um cético de soberana indiferença, seria negar a pulsão profunda, e sempre ativa, de uma inquietude metafísica que nenhum niilismo poderia suprimir.”[152] A oposição – negação – constantemente reconduzida ao homem e à história, à “Deus e sua época”, só parecerá niilismo àqueles que assumem que uns e outros são os únicos valores concebíveis, dignos de serem afirmados. Mas o pensamento de Cioran se desenvolve segundo uma lógica do terceiro incluído, lógica nascida e desenvolvida em paragens outras que não coincidem com os territórios habituais a partir dos quais germina nossa formação intelectual.

Para concluir, não poderíamos deixar de dar a palavra ao próprio autor, no caso, a uma das passagens mais surpreendentes para o leitor acostumado a ver em Cioran apenas cinismo, pessimismo, niilismo, negatividade, pars destruens. Trata-se das linhas finais de História e utopia, em que, após refletir implacavelmente sobre o caráter diabólico da história (“o não de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo”), como também de Deus (sobre o qual recai inevitavelmente nosso rancor de “pequenos demiurgos”), ele não poderia deixar mais claro, como em nenhuma outra parte, aquilo que considera uma possibilidade de realização, de plenitude, a saída, a solução, o remédio para nossa condição demasiado humana:

O remédio para nossos males é em nós mesmos que devemos buscá-lo, no princípio intemporal de nossa natureza. Se a irrealidade de tal princípio fosse demonstrada, provada, estaríamos irremediavelmente perdidos. Que demonstração, que prova contudo poderiam prevalecer contra a convicção íntima, apaixonada, de que uma parte de nós escapa à duração, contra a irrupção desses instantes em que Deus é supérfluo ante uma claridade surgida subitamente de nossos confins, beatitude que nos projeta para longe de nós mesmos, comoção exterior ao universo? Não há mais passado, nem futuro; os séculos se desvanecem, a matéria abdica, as trevas se esgotam; a morte parece ridícula, e também a própria vida. E essa comoção, mesmo que só a tivéssemos sentido uma vez, bastaria para nos reconciliar com nossas vergonhas e com nossas misérias, das quais ela é sem dúvida a recompensa. É como se o tempo em sua totalidade tivesse vindo nos visitar, uma última vez, antes de desaparecer… É inútil remontar depois ao antigo paraíso ou correr em direção ao futuro: um é inacessível; o outro, irrealizável. O que importa, ao contrário, é interiorizar a nostalgia ou a espera, necessariamente frustradas quando se voltam para o exterior, e obrigá-las a descobrir ou a criar em nós a felicidade da qual, respectivamente, sentimos nostalgia ou esperança. Só há paraíso no mais profundo de nosso ser, e como que no eu do eu; ainda é preciso, para encontrá-lo aí, ter recorrido a todos os paraísos, desaparecidos e possíveis, tê-los amado e detestado com a rudeza do fanatismo, tê-los escrutado e rejeitado depois com a competência da decepção.
Vão dizer que substituímos um fantasma por outro, que as fábulas da idade de ouro são tão válidas quanto o eterno presente com o qual sonhamos, e que o eu original, fundamento de nossas esperanças, evoca o vazio e, no final das contas, se reduz a ele? Pode ser. Mas um vazio que concede a plenitude não contém mais realidade do que a que possui a história em seu conjunto?[153]

 

 

Referências bibliográficas:

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[1] “Sofri muitas [influências], porque, não tendo praticado nenhum ofício, pude, através dos anos, ler um número considerável de autores. Quais citar? Todos aqueles – e são legião – que, de Teógnis a Beckett, formularam suas reservas sobre a legitimidade da existência.” CIORAN, Emil. Carta-prefácio a Fernando Savater, 22 de outubro de 1973, apud: SAVATER, Fernando. Ensayo sobre Cioran, p. 17 (tradução nossa).

[2] Tomamos a fórmula de empréstimo do filósofo francês contemporâneo Clément Rosset, que foi amigo de Cioran. Cf. ROSSET, Clément. Lógica do pior. Tradução de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

[3] “Se pudéssemos estabelecer que a ideia de nada, no sentido em que a tomamos quando a opomos à de existência, é uma pseudo-ideia, os problemas que levanta em torno de si tornar-se-iam pseudoproblemas.” BERGSON, Henri. A evolução criadora, p. 299-300.

[4] Na tradição de metafísica negativa (meontologia) em que se insere Cioran, o nada não possui a conotação sinistra e deprimente que se convencionou vincular-lhe no Ocidente, mas uma significação outra pela qual, aproximando-se sutilmente da noção búdica de vazio (sunyata), designa o “fundamento” insondável e sem fundo (grundlos) de todo vir-a-ser, sendo também o princípio de uma liberdade radical e abismal do existente (liberdade como contingência, em contraposição à necessidade ontológica de Parmênides); ademais, é percebido como uma possibilidade salutar, como um dispositivo terapêutico (délivrance, ou Erlösung em alemão; “libertação” ou “redenção” hic et nunc) gerador de desprendimento e de uma plenitude impessoal e vazia. De onde a lógica cioraniana “do terceiro incluído”, apontada por Simona Modreanu (MODREANU 2003: 15): se o nada funda a liberdade meontológica radical de ser ou não ser, inclusive de ser e não ser ao mesmo tempo, para Cioran, no registro de uma discursividade diafórica (em contraste com a adiaforia de Nietzsche), tendo em vista sua “lógica do terceiro incluído”, as coisas podem ser ditas boas, más, ou boas e más ao mesmo tempo – indistinção trágica prevalente na esfera do essencial (cf. “Obsessão do essencial”, in: Breviário de decomposição): tudo o que se referir à vida e à morte, ao tempo e à eternidade, ao homem e ao absoluto.

[5] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 858 (tradução nossa).

[6] Idem. Écartèlement, in: Œuvres, p. 1486 (tradução nossa).

[7] “Não sou nada além de um Privat Denker – um pensador privado –, tento falar daquilo que eu vivi, de minhas experiências pessoais, e renunciei a fazer uma obra.” Idem. Entretien avec Luis Jorge Jalfen, in: Entretiens, p. 103 (tradução nossa).

[8] De onde Nos cumes do desespero, seu primeiro livro ainda em romeno, publicado em 1934.

[9] CIORAN, Emil. “Tomber du temps…”, La chute dans le temps, Op. cit., p. 1152 (tradução nossa).

[10] Idem. Le mauvais démiurge, Œuvres, p. 1170 (tradução nossa).

[11] “Os cínicos não são nem ‘sub’ nem ‘super-homens’, mas ‘pós-homens’ Chega-se a compreendê-los e inclusive a amá-los quando, do tormento de nosso vazio, escapa uma confissão dirigida a nós mesmos ou a ninguém: outrora fui homem, e agora já não sou. Quando já não houver mais ninguém em ti, nem mesmo Diógenes, quanto estiveres vacante de vazio e tuas orelhas já não mais ressoem o nada…” Idem. Le crépuscule des pensées, Op. cit., p. 435 (tradução nossa).

[12] É preciso assinalar a diferença fundamental entre o cinismo antigo e o niilismo moderno (relação hipotética mediada por um terceiro conceito, o de pessimismo), bem como suas respectivas personificações históricas: “Também em Diógenes há pessimismo em sua valoração do mundo dos homens, como quando concluiu que a maior parte das pessoas ou é completamente doida ou está a um dedinho apenas da doidice, ou quando buscava, em vão, por um ser humano de verdade. Todavia, há também um sentido inegável de que o remédio está lá, esperando por nós, desde que apenas tenhamos a vontade e a inteligência necessárias para fazer uso dele. Assim, contrariamente ao que têm argumentado alguns historiadores e estudiosos, o cinismo não é uma filosofia do desespero, um mergulho existencial em abandono (ou Verlassensein, para usar um termo heideggeriano) que nenhuma redenção, nenhuma escapatória promete.” NAVIA, Luis E. Diógenes, o cínico, p. 109.

[13] CIORAN, Emil. Écartèlement, in: Œuvres, p. 1483 (tradução nossa).

[14] Termo herdado do filósofo romeno Lucian Blaga (1895-1961), que distingue, em Eonul dogmatic [O éon dogmático], entre o “conhecimento paradisíaco” – intuitivo, dir-se-ia ingênuo, perpassado de afetividade, no qual dificilmente se pode falar em termos de sujeito e objeto, estando ambos integrados numa harmonia pré-consciente – e o “conhecimento luciferino” – vinculado à razão científica, analítica (lembre-se que analisar e decompor são correlatos), instaurando o princípio da separação progressiva entre sujeito e objeto, homem e natureza, homem e cosmos.

[15] CIORAN, Emil. “Prefácio”, Nos cumes do desespero, p. 16.

[16] “Só temos escolha entre verdades irrespiráveis e superstições salutares. Apenas as verdades que não permitem viver merecem o nome de verdades. Superiores às exigências do vivente, não condescendem em ser nossas cúmplices. São verdades ‘inumanas’, verdades de vertigem, que recusamos porque ninguém pode prescindir de apoios disfarçados de slogans ou de deuses.” Idem. Écartèlement, Op. cit., p. 1415-6 (tradução nossa).

[17] Algumas afirmações diametralmente opostas à maneira de pensar de Cioran seriam: “no final, tudo dá certo”, ou “tudo tem um sentido”, “querer é poder”, ou ainda a proposição hegeliana de que “o real é racional e o racional é real”. A ordem do pensamento não possui alcance metafísico para Cioran, diferindo, qualitativamente, da ordem do “real” (irracional), ou seja, do que é, do “ser”.

[18] CIORAN, Emil. “Penser contre soi”, La tentation d’exister, in: Œuvres, p. 821.

[19] Idem. “Adeus à filosofia”, Breviário de decomposição, p. 54-55.

[20] “Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão.” Idem. “Os dogmas inconscientes”, Ibid., p. 66.

[21] “A lucidez deriva de uma potência de intuição que não se confunde nunca com o ‘órgão do sonho’, ou seja, com uma aptidão a sonhar (extra-lúcido). A fronteira entre os dois é o despertar (réveil) da consciência despida do sonho, e o acordar (éveil) da consciência despida de ilusão, e que tem em vista uma intuição direta, imediata e corrosiva. A lucidez cioraniana se revela assim uma antifenomenologia: a intuição desrealiza a manifestação do ser que cobre o pouco de ser das coisas por uma representação abstrata. Essa lucidez só vê no desvelamento (dévoilement) heideggeriano uma dobra suplementar do véu de Maya. Não há outra realidade além da representação de seu mundo, alguns dirão do mundo. A ontologia heideggeriana não tem nada de mais nem de menos a enviar à inautencidade dos conceitos do mundo: do ponto de vista cioraniano, só existe aí uma diferença de grau, não de natureza.” DEMARS, Aurelien, “La comédie du monde ou l’anti-phénomenologie cioranienne”, in: Le pessimisme jubilatoire de Cioran: enquete sur um paradigme métaphysique négatif (tese de doutorado), p. 46-48 (tradução nossa).

[22] CIORAN, Emil. “O animal indireto”, Breviário de decomposição, p. 34.

[23] LAÜGT, Elodie. L’Orient du signe: rêves et dérives chez Victor Segalen, Henri Michaux et Emile Cioran, p. 124 (tradução nossa).

[24] CIORAN, Emil. “Gênese da tristeza”, Breviário de decomposição, p. 139.

[25] Idem. Entretien avec Esther Seligson, in: Entretiens, p. 164 (tradução nossa).

[26] O “pecado”, pela ótica gnóstica, não seria outro que a ignorância. Cioran tende a atribuir à fé ou crença (pistis), em detrimento de toda atividade cognitiva, o único meio de acesso ao absoluto, ou, em linguagem convencional, a Deus: “Que lástima que para chegar a Deus tenha que se passar pela fé!” (Silogismos da amargura). A sua parece ser o caso de uma gnose ineficaz, degradada em pesadelo acordado, e inútil; a gnose como revelação da impossibilidade de toda salvação e do inferno deste mundo, que não parece aberto a nenhuma transcendência redentora. Não obstante, historicamente o gnosticismo não se define exclusivamente pela postulação da gnose como instrumento de salvação. O alexandrino Basilides seria um exemplo dessa exceção, ele que teria “compreendido, no começo de nossa era, o que agora constitui um lugar-comum, a saber, que a humanidade, caso queira se salvar, deve reintegrar seus limites naturais pelo retorno à ignorância, verdadeiro sinal de redenção” (Le mauvais démiurge, Op. cit., p. 1240). Os historiadores têm reconhecido, conforme as exumações arqueológicas trazem à superfície da história um grande número de textos gnósticos perdidos, uma variedade de doutrinas gnósticas que dificilmente encontrariam um denominador comum de definição. Outros critérios acabam concorrendo com a etimologia (gnosis, conhecimento interior pela experiência, no qual o conhecedor e o conhecido se confundem), sobrepondo-se por vezes a ela: por exemplo, o dualismo teológico, o anarquismo espiritual, o pessimismo acosmista (o mundo como criação fracassada de um mau demiurgo, etc.), a impertinência, a imaginação mitopoética (confeccionando uma infinidade de esferas e seres celestes, uma verdadeira arquitetônica espiritual da Queda), etc.

[27] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1078 (tradução nossa).

[28] BECKETT, Samuel, apud: JULIET, Charles. Rencontres avec Samuel Beckett, p. 68 (tradução nossa).

[29] Tal é a intuição de Cioran acerca do progresso científico, que ele admite, muito embora não o julgue determinante do ponto de vista da vida do espírito. O apelo do seu discurso não é o saber (no sentido de ciência positiva), mas a sabedoria. “A ciência é a escamoteação da sabedoria em nome do conhecimento do mundo”. CIORAN, Emil. Entrevista com Luis Jorge Alfen, in: Entretiens, p. 112 (tradução nossa).

[30] A maiúscula alegórica, neste caso, é por nossa conta, justificada pelo uso recorrente do mesmo recurso poético pelo autor, fortemente inspirado em Baudelaire.

[31] “Nenhuma ação, nenhum êxito é possível sem uma atenção total às causas secundárias. A ‘vida’ é uma ocupação de inseto.” CIORAN, Emil. Silogismos da amargura, p. 66.

[32] Cioran está em sintonia com Bloom quando este afirma que “o tempo, segundo o judaísmo, o cristianismo e o Islã, é a misericórdia da Eternidade: redentor. Esse passa por ser outro idealismo, e no entanto é uma mentira, uma mentira que atua profundamente contra a centelha que pode ajudar a atrapalhar nossa corrida para uma niilística consumação.” BLOOM, Harold. Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade, p. 179; Cioran, por sua vez, dirá que “todo fenômeno é uma versão degradada de outro fenômeno mais vasto: o tempo, uma tara da eternidade; a história, uma tara do tempo; a vida, ela mesma uma tara, da matéria. O que é, então, normal, o que é são? A eternidade? Ela mesma não passa de uma enfermidade de Deus.” CIORAN, Emil. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres,  p. 1346 (tradução nossa).

[33] Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 21.

[34] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1071 (tradução nossa).

[35] Idem. Ibid., p. 1071 (tradução nossa).

[36] CAMUS, Albert. O mito de Sísifo, p. 18.

[37] CIORAN, Emil. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1072 (tradução nossa).

[38] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[39] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[40] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[41] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[42] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[43] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[44] Idem. Ibid., p. 1072 (tradução nossa).

[45] Idem. Ibid., p. 1075 (tradução nossa).

[46] Nascidos por um ato de insubordinação e de recusa, nós estávamos mal preparados para a indiferença. Veio então o saber para nos tornar completamente impróprios a ela. A principal ressalva contra ele é que não nos ajudou a viver. Mas era mesmo esta a sua função?” Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1077 (tradução nossa).

[47] Délivrance em francês; Erlösung em alemão.

[48] CIORAN, Emil. “O animal indireto”, Breviário de decomposição, p. 33.

[49] Idem. “O cenário do saber”, Ibid., p. 145.

[50] Idem. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1271 (tradução nossa).

[51] “[…] um empirismo verdadeiro é aquele que se propõe apegar-se o mais possível ao original mesmo, aprofundar-lhe a vida e, por uma espécie de auscultação espiritual, sentir palpitar sua alma: e este empirismo verdadeiro é a verdadeira metafísica. O trabalho é de uma dificuldade extrema, pois nenhuma das concepções já feitas de que se serve o pensamento em suas operações cotidianas se presta a isto.” BERGSON, Henri. Introdução à metafísica, in: Col. “Os Pensadores”, p. 23.

[52] Conceito central na tradição do budismo Mahayana, designa a realidade absoluta como vacuidade. “A talidade ou Dharmakaya é, para os Mahayanistas, ‘fonte, realidade última de que se derivam a razão da existência, a moralidade e a religião. […] Nesta concepção da talidade ou Dharmakaya, os Mahayanistas encontram a mais alta afirmação possível alcançada ao cabo de uma série de negações, unificando todas as formas de contradição, psicológicas, éticas ou ontológicas.’ (D.T. Suzuki, Les chemins du Zen, p. 30). A noção de talidade é a conclusão lógica de uma série de negações, uma vez que ‘a negação não é senão o caminho que leva a uma forma mais alta de afirmação’, e que ‘[…] após a série de negações oferecidas pelos pensadores Mahayana existe realmente a afirmação de uma verdade superior, que, dados os limites do espírito humano, não pode ser apresentada por outro meio que a negação.” LAÜGT, Elodie. L’Orient du signe: rêves et dérives chez Victor Segalen, Henri Michaux et Emile Cioran, p. 123 (tradução nossa).

[53] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 133 (tradução nossa).

[54] É a noção de véu de Maya que está em questão aqui.

[55] CIORAN, Emil. “Les deux vérités”, Écartèlement, in: Œuvres, p. 1409-1410 (tradução nossa).

[56] Idem. Ibid., p. 1415 (tradução nossa).

[57] Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 871 (tradução nossa).

[58] Lembrando que, segundo Aristóteles, o homem, zoon logikon, tende naturalmente ao conhecimento.

[59] CIORAN, Emil. “A idade de ouro”, História e utopia, p. 126-127.

[60] Idem. Le crépuscule des pensées, in: Œuvres, p. 338 (tradução nossa).

[61] Idem. “Escola dos tiranos”, História e utopia, p. 57.

[62] Do grego, skandalon, “pedra que faz tropeçar”.

[63] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação, apud: Susan NEIMAN. O mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia, p. 225.

[64] CIORAN, Emil. Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1170 (tradução nossa).

[65] Termo tomado de empréstimo da psicanálise freudiana.

[66] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 549 (tradução nossa).

[67] Idem. “Odisseia do rancor”, História e utopia, p. 92.

[68] Idem. Silogismos da amargura, p. 75.

[69] Idem. Ibid., p. 64.

[70] Idem. Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1169 (tradução nossa).

[71] Idem. “Odisseia do rancor”, História e utopia, p. 93.

[72] Idem. Entretien avec François Bondy, in: Entretiens, p. 10 (tradução nossa).

[73] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1077 (tradução nossa).

[74] Trata-se do conceito de heimarmene, ao modo gnóstico, não estoico: “O problema da liberdade é muito simples de um ponto de vista filosófico: somos livres, temos a ilusão da liberdade nos gestos aparentes. Mas, no fundo, não somos livres. Tudo o que é profundo nega a liberdade. Há uma espécie de fatalidade secreta que dirige tudo.” Idem. Entretien avec Léo Gillet, Entretiens, p. 65 (tradução nossa).

[75] Idem. “Sur la maladie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1123 (tradução nossa).

[76] “O deserto interior não está fadado à esterilidade. A lucidez, graças ao vazio que deixa entrever, converte-se em conhecimento. É então mística sem absoluto. A lucidez extrema é o último grau da consciência e dá ao ser a sensação de ter esgotado o universo, de ter sobrevivido a ele. Quem não passou por essa etapa, ignora uma variedade especial de decepção, portanto o conhecimento.” Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 18.

[77] “Pascal tinha razão em não se estender sobre as doenças, mas sobre o uso que se deve fazer delas. É, entretanto, impossível segui-lo quando nos assegura que ‘os males do corpo não são outra coisa que a punição e também a figura dos males da alma’. A afirmação é tão gratuita que, para desmenti-la, basta olhar ao redor de si: com toda evidência, a doença ataca indistintamente o inocente e o culpado, inclusive demonstra uma predileção visível pelo inocente; o que de resto é óbvio, já que a inocência e a pureza interior pressupõem quase sempre uma compleição frágil. Decididamente, a Providência não faz muito pelos delicados. Causas, antes que reflexos de nossos males espirituais, nossos males físicos determinam nossa visão das coisas e decide o rumo que tomarão nossas ideias. A fórmula de Pascal é verdadeira, desde que se a inverta.” Idem. “Sur la maladie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1129 (tradução nossa).

[78] Idem. “A preocupação com a decência”, Breviário de decomposição, p. 48.

[79] Idem. “Sur la maladie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1127 (tradução nossa).

[80] Idem. Ibid., p. 1127 (tradução nossa).

[81] Idem. Ibid., p. 1127 (tradução nossa).

[82] Idem. Ibid., p. 1127 (tradução nossa).

[83] Idem. “Odisseia do rancor”, História e utopia, p. 90.

[84] Assim, por exemplo, no Evangelho de Mateus (4:23): “Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.” E Lucas (7:21): “Ora, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de enfermidades, de doenças e de espíritos malignos, e dado a vista a muitos cegos.”

[85] CIORAN, Emil. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1076.

[86] Idem. Ibid., p. 1075.

[87] Idem. Ibid., p. 1075.

[88] Idem. Ibid., p. 1076.

[89] Idem. Le mauvais démiurge, Op. cit., p. 1176 (tradução nossa).

[90] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo, p. 20.

[91] CIORAN, Emil. “Sur la maladie”, La chute dans le temps, Op. Cit., p. 1127 (tradução nossa).

[92] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo, p. 18-19.

[93] CIORAN, Emil. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1289 (tradução nossa).

[94] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1074.

[95] Idem. Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1218.

[96] Idem. Silogismos da amargura, p. 32.

[97] Idem. “Lettres sur quelques impasses”, La tentation d’exister, in: Œuvres, p. 885 (tradução nossa).

[98] Idem. “Desaparecer em Deus”, Breviário de decomposição, p. 18.

[99] Idem. “Rostos da decadência”, Ibid., p. 116.

[100] Idem. “Coalização contra a morte”, Ibid., p. 27.

[101] Cf. “Odisseia do rancor”, in: Idem, História e utopia.

[102] Para Nietzsche (Genealogia da moral), a causa da doença antropológico-cultural do homem parece recair mais sobre o segundo elemento (cultural) do binômio, sendo portanto uma situação circunstancial (mais que uma condição antropológica) historicamente determinada: a moral platônico-cristã seria a fortiori a causa do adoecimento, de modo que o homem arcaico, pré-socrático, seria dotado de uma virilidade mais saudável do que o homem moderno, profundamente marcado pela moralidade platônica e, em seguida cristã. Ao passo que, para Dostoiévski, a causa da enfermidade não seria senão a condição decaída do homem por uma perspectiva tradicional-ortodoxa: Adão era perfeitamente livre para pecar ou não pecar.

[103] “Mesmo nossos males vagos, nossas inquietudes difusas, quando degeneram em fisiologia, convém, por um processo inverso, reconduzi-los às manobras da inteligência. […] Converter os venenos imediatos em valor de troca intelectual, elevar à função de instrumento a corrupção sensível, ou cobrir por meio de normas a impureza de todo sentimento e de toda sensação, é uma busca de elegância necessária ao espírito, comparada à qual a alma – essa hiena patética – é apenas profunda e sinistra. […] A teoria espreita e capta nossos venenos: e os faz menos nocivos. É uma degradação para o alto, pois o espírito, amante das vertigens puras, é inimigo das intensidades.” CIORAN, Emil. “O veneno abstrato”, Breviário de decomposição, p. 36.

[104] Idem. Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1171 (tradução nossa).

[105] Idem. “Odisseia do rancor”, História e utopia, p. 92.

[106] Idem. Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1177 (tradução nossa).

[107] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo, p. 48.

[108] CIORAN, Emil. “A idade de ouro”, História e utopia, p. 133.

[109] Idem. “Exegese da decadência”, Breviário de decomposição, p. 25.

[110] Idem. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1275 (tradução nossa).

[111] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo, p. 34-35.

[112] CIORAN, Emil. “A idade de ouro”, História e utopia, p. 132.

[113] “O que nos distingue de nossos antepassados é nossa petulância em face do Mistério. Nós até o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo…” Idem. Silogismos da amargura, p. 20.

[114] Idem. “Ser lírico”, Nos cumes do desespero, p. 18.

[115] Idem. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1318 (tradução nossa).

[116] Idem. “Rencontres avec le suicide”, Le mauvais démiurge, in: Œuvres, p. 1214 (tradução nossa).

[117] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1214 (tradução nossa).

[118] Idem. “O animal indireto”, Breviário de decomposição, p. 32-33.

[119] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1071 (tradução nossa).

[120] Idem. “Genealogia do fanatismo”, Breviário de decomposição, p. 13.

[121] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1075 (tradução nossa).

[122] Idem. Ibid., p. 1076 (tradução nossa).

[123] Idem. Ibid., p. 1075 (tradução nossa).

[124] Idem. “Variações sobre a morte I”, Breviário de decomposição, p. 18.

[125] Idem. “O animal indireto”, Ibid., p. 33.

[126] Assim, por exemplo: “Por que truque o que parece ser escapou ao controle do que não é? Bastou um momento de desatenção, de fraqueza no seio do Nada: as larvas se aproveitaram; uma lacuna em sua vigilância: e aqui estamos. E assim como a vida suplantou o nada, foi suplantada, por sua vez, pela história: assim, a existência embrenhou-se em um ciclo de heresias que minaram a ortodoxia do nada.” Idem. “O cenário do saber”, Ibid., p. 146.

[127] Idem. “O autômato”, Ibid., p. 110.

[128] Idem. “Genealogia do fanatismo”, Ibid., p. 11.

[129] Idem. “Mecanismos da utopia”, História e utopia, p. 107.

[130] Idem. “A Rússia e o vírus da liberdade”, Ibid., p. 37.

[131] Idem. Silogismos da amargura, p. 67.

[132] Idem. “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, in: Œuvres, p. 1077 (tradução nossa); assim também, “não se pode pronunciar a palavra ser, com ou sem maiúscula, sem provar com isso que se é, à sua maneira, um crente. Pois é preciso ter disposições religiosas para poder proferir com convicção, com segurança, um vocábulo tal. Talvez seja mesmo necessário crer para simplesmente dizer de alguém ou de um objeto que ele é isto ou aquilo, pois este é particular remete automaticamente a É.” Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 911 (tradução nossa).

[133] “O tédio nos revela uma eternidade que não é a superação do tempo, mas sua ruína; é o infinito das almas corrompidas por falta de superstições: um absoluto insosso onde nada mais impede as coisas de girar em círculos em busca de sua própria queda. A vida se cria no delírio e se desfaz no tédio.” Idem. “Desarticulação do tempo”, Breviário de decomposição, p. 22.

[134] “Um zoólogo que, na África, observou de perto os gorilas, se espanta com a uniformidade de sua vida e com sua grande desocupação. Horas e horas sem fazer nada… Não conhecem, portanto, o tédio?

Essa é a típica pergunta de um homem, de um macaco ocupado. Longe de fugir da monotonia, os animais a buscam, e o que eles mais temem é vê-la cessar. Pois ela só cessa para ser substituída pelo medo, causa de todo atarefamento.

A inação é divina. Contudo, é contra ela que se insurge o homem. Apenas ele, na natureza, é incapaz de suportar a monotonia, apenas ele quer, a todo custo, que algo aconteça, não importa o quê. Por isso, ele se mostra indigno de seu ancestral: a necessidade de novidade é a característica de um gorila extraviado.” Idem. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1388 (tradução nossa).

[135] Idem. Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 22.

[136] Idem. “Après l’histoire”, Écartèlement, in: Œuvres, p. 1426 (tradução nossa).

[137] Idem. “Mecanismos da utopia”, História e utopia, p. 108.

[138] Idem. “Escola de tiranos”, Ibid., p. 58.

[139] Idem. “O tédio dos conquistadores”, Ibid., p. 108-109.

[140] Cf. NEIMAN, Susan. O mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia. Rio de Janeiro: Difel, 2003.

[141] CIORAN, Emil. Cahiers: 1957-1972, p. 643 (tradução nossa).

[142] “Não é fácil falar de Deus quando não se é nem crente nem ateu: e esse é sem dúvida o drama de todos nós, incluindo-se os teólogos, o de não poder mais ser nem um nem outro.” Idem. De l’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1315 (tradução nossa).

[143] Idem. “Êxtase”, Nos cumes do desespero, p. 51.

[144] Idem. Le crépuscule des pensées, in: Œuvres, p. 434 (tradução nossa).

[145] JARRETY, Michel. La morale dans l’écriture: Camus, Char, Cioran, p. 114 (tradução nossa).

[146] CIORAN, Emil. Entretien avec Léo Gillet, in: Entretiens, p. 71-72 (tradução nossa).

[147] Idem. Cahiers: 1957-1972, p. 536 (tradução nossa).

[148] Idem. “Relendo…”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis, p. 126.

[149] Cf. EHRENFELD, David. A arrogância do humanismo. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

[150] CIORAN, Emil. Entretien avec Léo Gillet, in: Entretiens, p. 82 (tradução nossa).

[151] TIFFREAU, Philippe. Cioran ou la dissection du gouffre, p. 28, apud: MODREANU, Simona. Le Dieu paradoxal de Cioran, p. 19 (tradução nossa).

[152] JAUDEAU, Sylvie. Cioran ou le dernier homme, p. 116 (tradução nossa).

[153] CIORAN, Emil. “A idade de ouro”, História e utopia, p. 141-142.

Resenha: “Ensaio sobre Cioran”, de Fernando Savater

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

SAVATER, Fernando. Ensayo sobre Cioran. Madrid: Espasa Calpe (Col. “Austral”), 1992. 186 pags.

savEnsaio sobre Cioran preza por apresentar com clareza e simplicidade o essencial do pensamento de Cioran, os motivos centrais que norteiam e configuram a sua escritura do Impossível. Trata-se de um “passeio” (Savater) pela geografia vertical do pensamento de Cioran, de uma perambulação, meio ensaiada, meio improvisada, pelo terrível, e ao mesmo tempo fascinante, universo da (des)obra cioraniana. Escrito de forma leve e descontraída, como é raro de acontecer na Academia, pretende ser fiel ao espírito do autor que o inspira, assumindo abertamente o vínculo tácito, e necessário, entre lucidez e fracasso (binômio crucial na constituição do pensamento de Cioran): “Já que se trata de fazer uma tese, escolhamos ao menos um tema impossível: que o fracasso em que há de culminar nosso trabalho não seja simples fruto da incúria ou da incompetência, mas da premeditação. Suponho que uma tese de filosofia pretenda ser uma contribuição acadêmica ao esclarecimento do mundo: minha preguiça, muito mais que minha modéstia, me impede de aspirar a tão ambicioso êxito, pelo que dou minha derrota por descontada”.

A trajetória percorrida do começo ao fim do ensaio busca reconstituir o itinerário intelectual e espiritual do próprio Cioran, a sua autonarrativa filosófica. Partindo da noção cioraniana de lucidez (bastante distinta daquela de outros autores que também agenciaram o termo, como Albert Camus), buscando delinear aqueles que seriam “a tarefa e o desígnio da lucidez”, Savater problematiza uma questão da mais alta relevância em se tratando de um discurso como o de Cioran:

existe um ponto de vista filosófico desde o qual o discurso pedagógico é impossível. O que se consegue ver deste ponto cego do espírito – que chamaremos aqui de lucidez –, mais do que dizer, apaga o dito; nega inclusive quando afirma – sua forma de afirmar é negar; só fala para calar ou desmentir as palavras vigentes; não busca nem a persuasão, nem o doutrinamento, nem a transmissão de nenhum conhecimento positivo: sua única tarefa, se assim se pode chamá-la, é o desengano.

Lucidez e desengano; Savater deixa claro o que o atraiu a Cioran, e o que o motivaria a fazer uma tese sobre o filósofo apátrida: na sua visão, o autor de A tentação de existir teria assumido, como nenhum outro, a inutilidade do discurso lúcido, sem jamais admitir nenhuma condescendência pelo informativo, sem jamais “recomendar nada, salvo o execrável ou o impossível, e, inclusive isso, ironicamente” – de onde o seu caráter anti-apologético. Escrever para que, então? Ora, porque é necessário, porque é terapêutico, porque não se poderia fazer nada além disso – e também, acrescenta Savater, porque Cioran “não é capaz de vingar-se de outra maneira”. Da ilusão ao desengano, do delírio à lucidez – eis o itinerário espiritual de Cioran: queda. Esta disposição de pensamento, tão radicalmente negativa, tão impiedosamente crítica, não poderia deixar de colocar a questão a respeito do estatuto filosófico dos textos de Cioran. Como é possível não informar, não propor, não compactuar, não corroborar o que quer que seja, por mais improvável e paradoxal que seja? Seria possível um discurso que se desdiz e desfaz à medida que se constrói, que não diz nada de novo e que “reduz todo o dizível a puro tópico”, a mero “palavrório”, um antidiscurso que maldiz toda justificação do que é e que não espera nenhum triunfo?

No segundo capítulo, é abordado o ceticismo cioraniano como “exercício de desfascinação” e a relação do espírito lúcido com um mundo esvaziado de toda substância, de toda realidade, de todo sentido. A lucidez, sempre luciferina, desmente, desmascara, deslegitima a ordem do ser, revelando que não apenas o mundo, mas a vida mesma só é possível pela adesão a crenças, doutrinas, teorias, visões de mundo, numa palavra: graças à ilusão, ao engano, voluntariosamente perseguidos. Nada mais desinteressante, nada menos conveniente do que a… verdade, que é, via de regra, contrária à vida, às “razões” que fazem viver (e morrer).

A crença tem a seu favor a utilidade: “só a ilusão é fértil, só ela é origem” (Cioran, La chute dans le temps). Graças à nossa afeição ao disparate encontramos forças para levantar-nos toda manhã: quem se arriscaria isso se soubesse…? Nada mais estimulante do que o erro, inclusive quando, de algum modo, estamos seguros de que se trata de um erro. Talvez não sejamos tão inocentes com respeito à nossa imbecilidade como se poderia supor: tememos mais o desvelamento do inevitável do que o inevitável mesmo. Pressentimos que a verdade nos paralisaria e cremos, surpreendentemente, que isso é um argumento contra ela.

A necessidade vital de ficção e de aventura é o que faz do homem uma “criatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, insólita na Criação”, como escreve Cioran em Breviário de decomposição. É por conta da sua incapacidade de quietude, pela sua recusa instintiva da permanência e da perfeição (paradoxos de um animal vertical, dotado de uma consciência reflexiva), que o homem necessita, para viver, agitar-se, misturar-se, enganar-se. “Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso”, e “a vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória”, escreve Cioran também em Breviário de decomposição. A questão da lucidez, enfocada por um viés cético como “exercício de desfascinação”, prepara o ato principal do ensaio, a saber, o capítulo sobre a “revelação essencial”, em que é analisada a importantíssima noção, em Cioran, de “essencial”,[1] conforme predicada àquilo de que a lucidez é revelação: a inanidade do ser. “A revelação essencial é um antídoto contra a mania pedagógica e contra a fascinação do espetáculo do que existe. Porque o que se revela como essencial é a inanidade do ser, e uma visto isso as restantes explicações ficam sobrando, tornam-se supérfluas todas as teorias, que já poderão apenas ser julgadas a partir do campo da estética ou do humor.” O essencial é mais uma questão de olhar do que de raciocinar, mais uma experiência do que um aprendizado puramente teórico, em todo caso, algo de concreto e, por assim dizer, imediato, não abstrato, não mediado pelas categorias discursivas e os conceitos da razão pura. “Escreve Cioran: ‘Conhecer verdadeiramente é conhecer o essencial, engajar-se nele, penetrá-lo pelo olhar e não pela análise nem pela palavra” (La chute dans le temps). Esse olhar é o que eu designo como revelação; antes fora nomeado como lucidez, e Bataille preferiu chamá-lo ‘experiência interior’ ou ‘não-saber’.” Trata-se, com efeito, para empregar uma expressão de outro autor francês, Maurice Blanchot, de uma “experiência-limite”, poder-se-ia mesmo dizer uma arquiexperiência que é, de certa forma, uma antiexperiência; neste sentido, a “revelação essencial”, enquanto experiência-limite que põe em questão os limites e as condições de possibilidade de todo conhecimento, suscita a distinção (essencial dentre todas, em se tratando do pensamento de Cioran) entre saber e compreender: se o primeiro, positivo, é transitivo e inessencial, o segundo, negativo, é intransitivo e essencial.

Neste ponto, o esforço de Savater é por mostrar como a postulação de uma “revelação essencial”, seguida da mencionada distinção, não implica, necessariamente, como se poderia ser tentado a supor, “irracionalismo”. Afinal, como afirmou um filósofo francês do século XVII que muito influenciaria Cioran, “zombar da filosofia é, ainda, filosofar” (Pascal), do mesmo modo que não se poderia criticar a razão e – sobretudo – o(s) racionalismo(s) sem o recurso à própria razão. A controvérsia do irracionalismo se erige, em torno a Cioran, à medida que a sua concepção singular da lucidez parece envolvida por uma espécie de halo místico (intuído por Savater), o que a distanciaria significativamente, por exemplo, da acepção camusiana da mesma noção (Camus não hesitaria em censurar Cioran, assim como o fez em relação a outros representantes de certa “tradição de pensamento humilhado”,[2] de “irracionalista”). Trata-se, contudo, de uma mística desencantada e desenganada, uma mística da imanência, sem Deus nem redenção, beirando o desespero, concebida antes como uma possibilidade antropológica negativa do que como categoria teológica positiva. Este sentido místico da experiência-limite da lucidez – esse “equivalente negativo do êxtase” – não escaparia, contudo, a autores como Bataille e Blanchot; este último vai direto ao ponto, em se tratando da “revelação essencial”, ao associá-la a uma experiência de desrazão, uma vez que flerta com aquilo que a convenção instituiu, dos tempos antigos à modernidade, como “loucura”.[3]

O quarto capítulo é dedicado a refletir sobre o papel e os possíveis sentidos que a palavra “Deus” pode ocupar na economia de um discurso que se pretende insuportavelmente lúcido. Uma questão, delicada entre todas, que não poderia deixar de suscitar o tema da “angústia da influência” (para falar como Harold Bloom), no caso, de Nietzsche sobre Cioran. Cioran formou-se, em sua juventude, predominantemente na escola alemã de pensamento, de Kant a Schopenhauer, de Nietzsche a Heidegger, passando pelos românticos de Iena, sem esquecer também da influência capital do místico renano Meister Eckhart sobre o autor do Breviário de decomposição. Como conciliar a reivindicação de lucidez do discurso com a presença de “Deus” no discurso? Como conciliar ceticismo e metafísica, quando não teologia cristã? Estamos falando de um autor cujos textos dão, por vezes (e Savater o assinala mais de uma vez), a impressão de um dogmatismo, ainda que negativo, que contradiria flagrantemente a prerrogativa do ceticismo de um discurso pretendido lúcido. Aqui, adentramos uma dimensão sutil e incerta do pensamento de Cioran, uma temática amiúde desprezada por grande parte dos espíritos esclarecidos posteriores a Nietzsche, Marx e Freud: trata-se da questão religiosa e, a fortiori, mística, no bojo do pensar-dizer cioraniano, a dupla temática da religião e da mística em confronto com a razão e a dúvida cética no pensamento de Cioran. Não é sem cautela que Savater aborda a questão – religiosa, mística – de Deus no discurso de Cioran, assinalando a improvável relação entre lucidez e mística.

Dir-se-á que isto é mística. Palavra perigosa, desprestigiada entre todas, que Cioran maneja e estuda com frequência. Confessar a mínima conclusão com a mística nos torna réus dos máximos pecados contra o espírito moderno: o irracionalismo e a ineficácia. […] Desprezado pelo ilustrado e pelo racionalista, a condenação do místico se arredonda ao converter-se em ouro de tolo. Apesar de todos estes riscos, é inevitável relacionar a mística com o tema da lucidez. A leitura dos místicos inspira Cioran a algumas de suas páginas mais agudas, nas quais nos deteremos mais adiante; aqui apenas mencionaremos os paralelos entre mística e lucidez. Como já se terá advertido, muitos dos termos que temos empregado para caracterizar a lucidez provem dos vocabulários místicos do Oriente e do Ocidente: despertar, ver, desengano, experiência, revelação…

O que importa, apesar das aparências de um discurso claro-escuro, não é tanto a transposição do religioso para o âmbito de um discurso lúcido desencantado e desenganado, coerente com o espírito dos tempos modernos, mas a transposição da categoria de heresia para o plano político secular das ideologias, contrapartida da aplicação retórica da categoria do religioso para a esfera política e mesmo antropológica da existência humana ao longo da história. “A busca da utopia é uma busca religiosa, um desejo de absoluto. A utopia é a grande fragilidade da história, mas também sua grande força. Em certo sentido, é a utopia que redime a história”, afirma Cioran numa entrevista. Estando o homem naturalmente inclinado a forjar ídolos e torná-los objetos de culto obrigatório, o ceticismo é a única alternativa filosófica válida à paixão do dogma, a essa tara dogmática “que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror”; “só escapam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas) porque não propõem nada, porque – verdadeiros benfeitores da humanidade – destroem os preconceitos e analisam os delírios.” (Breviário de decomposição). Quando a multiplicidade incontável de dogmatismos confirma a ortodoxia biológica do engano e da ilusão, solo fértil dos fanatismos diversos, a única forma de resistência possível é a heresia da dúvida ou, mais propriamente, a heresia da lucidez. O ceticismo, disposição filosófica mais condizente com a lucidez, é um “exercício de desfascinação” em relação às razões que levam os homens a agir e viver. A “heresia”, em Cioran, é um parti-pris existencial mais do que religioso, uma forma de se tenir à l’écart (“manter-se à margem”), para falar como Samuel Beckett, sem ceder à paixão comum do dogma e à magia da eficácia a que nem os anarquistas saberiam escapar. Enfim, longe de ser um obstáculo para o desengano e para a lucidez, Deus é para Cioran uma etapa necessária nesse itinerário espiritual que vai da ilusão ao vazio; pois Deus é como a “doença metafísica” suprema e, para alcançar a plenitude do vazio, é necessário antes ter tido uma experiência profunda da enfermidade essencial da existência, qual seja, o conflito da consciência consigo mesma. E a mística, que tem o poder de nos transportar para Deus e para além dele, é para Cioran a forma suprema da liberdade – assim como a heresia.

Cioran dedica numerosas páginas da sua obra a divagar sobre o eterno tema da divindade, as religiões, as igrejas, os teólogos e os hereges, o final do paganismo… Sente-se mais próximo da linguagem de um Tertuliano, de Agostinho ou de um Pascal, do que daquela de Hegel ou Husserl; fascina-o o combate entre São Paulo e Celso, enquanto que duvido poder dizer o mesmo da disputa sobre a sociologia entre Adorno e Popper; quando fala da mística ou de Lutero, está na sua área, e não por falta de capacidade ou de conhecimento para opinar em outras matérias: é que as obsessões de cada um se orientam como elas querem, e não como desejaria quem as padece. O transcendente obseda-o; o flamejar das paixões inquisitoriais fascina-o; precisa da Igreja ainda mais que o crente, pois nada o estimula tanto quanto a ortodoxia: a sua verdadeira vocação é a de herege…

A questão do “deus maldito e os outros deuses” não poderia deixar de remeter ao tema da história, tão caro a Cioran. Nada mais fascinante, aos olhos do autor de História e utopia (neste ponto, próximo de Oswald Spengler), do que o espetáculo de ascensão e queda dos impérios e das civilizações, e sobretudo o “desfile de falsos Absolutos” em que consiste a história, essa “sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável”. De onde o seu vívido interesse pelo mundo helenístico e o seu eclipse sob o domínio da nova religião, que, de seita perseguida, passaria ao status de religião oficial do império; interesse também pelos séculos das Luzes, por sua ambivalência entre apogeu e decadência. A história, para Cioran (neste quesito, fortemente anti-hegeliano), é “a ironia em marcha” (Breviário de decomposição). Ela surge, após a “morte de Deus” e a derrocada dos valores supremos, como o último refúgio da ilusão e a última armadilha da lucidez. A tese central, aqui, seria: assim como cada existência individual no seu tempo de vida é fundamentalmente regida pelo acaso (azar em espanhol, hasard em francês), a história tampouco conta com um sentido, uma finalidade, uma razão condutora, sendo um erro atribuir uma explicação e uma justificativa ao que não saberia possuir nem uma coisa nem outra. O acaso: eis um conceito-chave na armação teórica do ensaio de Savater sobre Cioran, e que denota a sua tendência a interpretar o autor de Do inconveniente de ter nascido como um cético e um trágico, antes que um pessimista. O problema da história em Cioran remete ao problema mais geral do tempo: o devir, a duração do que é, para além das realidades especificamente humanas. É na história, enquanto temporalidade eminentemente humana e artificial, que se insere a problemática da relação entre vida e necessidade vital de ilusão, entre desejo e ação, entre existência e assentimento ao inessencial.

O problema fundamental que a história coloca é o da nossa localização no tempo; todas as teorias da história tratam apenas de resolver esse ponto concreto e o seu corolário imediato: o quer fazer? O tempo é uma enfermidade específica do homem: e uma enfermidade muito grave. Está indissoluvelmente ligado a uma comissão de ações: “nós só podemos agir se nos sentimos levados e protegidos pelos instantes. Quando nos abandonam, carecemos do recurso indispensável à produção de um ato, capital ou não” (La chute dans le temps).

Por fim, ainda sobre o tema da história, é preciso destacar que Savater, enquanto (jovem) leitor atento do autor romeno, e sensível às suas intuições essenciais, não deixa de destacar o paralelo entre a concepção cioraniana da história e a experiência pessoal, vivida pelo autor, daquilo que seria não mais uma “queda no tempo” (título de um dos seus livros), mas desta vez uma “queda do tempo” (“Tomber du temps…” é título do ensaio que encerra La chute dans le temps). O tempo é uma anomalia da eternidade, e a história, tempo eminentemente humano, é anomalia em segundo grau. A história, para Cioran, é a duração de uma queda. Por fim, o itinerário da lucidez – do delírio ao tédio, da existência ao vazio, do inessencial ao essencial – é um caminho que leva para fora da história, impelindo a desertá-la, a não reconhecer com ela nenhuma relação consubstancial. Não se penetra o essencial, com o olhar lúcido do não-saber, senão “virando as costas ao tempo” (Breviário de decomposição), desviando-nos da história, domínio das falsas realidades.

A estagnação do tempo, essa secunda queda, vem a ser determinada pela visão lúcida da ação: o tempo se detém quando vemos claramente que toda ação é inútil ou danosa. Esta experiência de “cair do tempo” é, segundo declaração própria, uma das mais profundamente vividas por Cioran; […] Agir é um dos sinônimos mais elementares de viver: Aristóteles mesmo assinalou, como condição definidora do ser vivo, o movimento, que no caso do existente humano é preferível chamar de “obrar”. A agitação é chave da existência: “Por toda parte, pessoas que querem…; mascarada de passos precipitados na direção de fins mesquinhos ou misteriosos; vontades que se cruzam; cada qual quer; a multidão quer; milhares de pessoas tensas rumo a não sei o quê” (Breviário de decomposição).

Um excurso entre o quinto e o sexto capítulos se propõe a pensar não as simpatias políticas de Cioran, mas a “relação entre lucidez e política, as possibilidades revolucionárias ou os aspectos conservadores da clarividência.” Tal procedimento não carece de relevância, em se tratando de um ensaio sobre Cioran, na medida em que a sua obra, radicalmente inclassificável, para além de etiquetas e fórmulas tão fáceis quanto redutoras, não poderia deixar de suscitar a questão da liberdade em suas instâncias éticas e políticas, a questão do cuidado de si conforme indissociável do cuidado do outro. Estamos diante de um autor que as consciências marxistas não hesitariam em tachar de “reacionário” (simplesmente por não ser marxista, longe disto). Não se trata, porém, Savater deixa claro, de exumar o “passado infame” de Cioran (a expressão é de Marta Petreu), para censurar ou relativizar o seu flerte de juventude com o nazismo alemão e com o fascismo romeno (a Guarda de Ferro); não se trata disso, mas de pensar as implicações éticas e políticas da lucidez enquanto experiência de desengano e, no limite, de esvaziamento da subjetividade positivamente concebida como um “eu” (autossuficiente, autárquico, etc.). A experiência da lucidez coloca um impasse à liberdade e às possibilidades de agir no mundo com justiça e prudência, assumindo, até as últimas consequências, a responsabilidade pelas próprias ações e pela própria existência.

O excurso sobre aquele que teria sido o “compromisso político” de Cioran, e que culminaria no mais radical desengajamento, é importante por colocar em questão uma ambivalência fundamental em torno da lucidez conforme Cioran a concebe, a partir de sua própria experiência subjetiva – notadamente, a insônia que o assolaria a partir da juventude, e à qual ele atribui o essencial do seu (não-)saber. Trata-se da tensão entre fanatismo e antifanatismo: Cioran só pôde escrever uma “genealogia do fanatismo” (Breviário de decomposição) porque ele mesmo experimentaria, quando jovem, a tentação da “profecia” (religiosa e política), vindo, com o distanciamento crítico, a reconhecê-lo e a combatê-lo em si – de onde a importância do ceticismo como um “exercício de desfascinação” (no caso, sobretudo em relação aos “dogmas inconscientes”[4] que carregamos dentro de nós, e que defendemos com unhas e dentes muito melhor do que qualquer igreja protege os seus deuses). A lucidez pressupõe o “pensar contra si” (A tentação de existir), ao ponto de tornar-se um espectador que contempla, sem mais nenhuma cumplicidade, o espetáculo das próprias vertigens, da própria perdição – condição sine qua non para encontrar-se (“tornar-se quem se é”, para falar como Nietzsche), verdadeiramente. Longe de ser um ato inequivocamente negativo e destrutivo, a negação é uma forma de participação, de prestação de solidariedade com o conjunto do existente, ainda que não pela via do engajamento político-ideológico, mas pela via de uma singularidade poética exacerbada que se pretende a expressão viva de uma determinada realidade, o testemunho tão fiel quanto subjetivo da sua própria época, do seu contexto histórico. Por fim, muito embora na pista certa, parece-nos insuficiente, se não equivocada, a fórmula cunhada por Savater para definir aquela que seria a atitude política arquetípica do espírito lúcido: “conformismo desesperado” perde de vista, nesta questão em particular (aspectos políticos do pensamento de Cioran), aquilo que Savater destacará com acerto mais adiante: o humor de Cioran – um humor que não deixa de ser, inclusive, uma forma de “atuação política”. A atitude política que se depreende do discurso lúcido não é menos um “inconformismo jovial” do que um “conformismo desesperado”; é, a rigor, impossível reduzir a ambivalência entre um e outro para afirmar, exclusiva e definitivamente, apenas o segundo (Savater).

Os dois últimos capítulos, “Passeio pelo amor e pela morte” e “A expressão e o silêncio: o estilo de Cioran”, são os momentos culminantes do ensaio, ligando-se diretamente aos capítulos iniciais, em que se examinava a tarefa da lucidez e o tema da revelação essencial. O amor e a morte são os temas essenciais segundo Cioran, e sobre os quais pode-se dizer absolutamente qualquer coisa: nestes domínios, uma banalidade, dependendo de como é proferida, vale mais do que uma observação erudita. Trata-se de um “passeio” pelos jardins e desertos da cartografia da alma que se depreende dos escritos de Cioran; uma meditação sobre as revelações da morte (para utilizar um título de Chestov, filósofo russo que Cioran tanto apreciava) e as desilusões do amor, duas experiências propedêuticas, por assim dizer, para o alcance da lucidez – essa forma de desengaño incurável que faz do indivíduo uma espécie de “exilado metafísico” (Do inconveniente de ter nascido) em meio aos seres. “Passeio pelo amor e pela morte” apresenta um esboço daquela que seria a teoria (psicológica) do desejo em Cioran, e as diferentes perspectivas (convergindo todas no sentido da desilusão, do desengano, da desfascinação) pelas quais a faculdade do desejo é abordada e trabalhada em seus escritos.

Não há discurso mais estranho, mais impossível, que este de Cioran, atarefado em negar tudo e negar-se, em desmentir os seus prestígios, o seu fundamento e o seu alcance, a sua verossimilhança mesma. Não é escrever uma tarefa afirmativa sempre, de uma maneira ou de outra, apologética na maioria dos casos? Como se compagina a escritura com a demolição radical, que nada respeita nem propõe no lugar do demolido, que não reivindica tal ou tal tendência, nem mesmo ver triunfar coisa alguma sobre as apagadas ruínas das anteriores; como se compagina o texto com as lágrimas, as palavras com os suspiros, o discurso racional com o ponto de vista da pedra ou da planta? […] Mas, sobretudo: para que falar ou escrever? Não é precisamente a armação discursiva que se volatiliza, a necessidade de encadear teorias e argumentos que se revela inane? Passado o acesso agudo de lucidez, que é negação radical de toda expressão constituída, o sujeito tenta reconstituir e manter a memória do silêncio por meio da palavra. A linguagem deve funcionar então contra si mesma, tensa até o seu limite inalcançável, denunciando-se a si mesma, tentando, pelos seus próprios meios verbais, sabotar a trama mesma que a constitui, e fazer explodir nela o clamoroso silêncio que dilacera ainda a memória.

“A expressão e o silêncio: o estilo de Cioran” é o tema ao qual Savater dedica o epílogo do seu ensaio. Nada mais razoável, em se tratando de um autor romeno que se tornaria conhecido não apenas como um pensador existencial na linha de Nietzsche, Kierkegaard e Chestov, como também um admirável escritor e estilista de expressão francesa. De fato, todo o itinerário espiritual de Cioran conduz a certa obsessão do estilo, que passa a ser tão relevante quanto o próprio conteúdo do que é escrito (em Cioran, o quê e o como, a matéria e a forma são inseparáveis): reflexo, talvez, de suas leituras exaustivas dos autores franceses dos séculos XVII e XVIII. Sendo assim, faz todo o sentido concluir um ensaio sobre Cioran com uma reflexão sobre a relação entre lucidez e estilo,[5] e sobre o valor estético, artístico mesmo (no sentido de uma poética do fragmento), da escritura – sobretudo francesa – de Cioran. Cioran recorre à palavra não apenas para dizer coisas, mas para dar voz ao silêncio, para tentar exprimir o inexprimível de uma lucidez que se recusa a ser retida e submetida ao regime da linguagem discursiva. É o reflexo do combate, no foro íntimo do autor, entre lucidez e paixão, ceticismo e entusiasmo. Uma meditação sobre o estilo em Cioran não poderia deixar de abordar um aspecto escandalosamente evidente nos seus textos, apesar de muito pouco observado e explorado: o humor, a necessidade do riso. O de Cioran seria um riso niilista, ou, segundo Clément Rosset,[6] um riso exterminador, ainda, nas palavras de Beckett, um riso triste, sem alegria (mirthless), “o riso dos risos, o risus purus, o riso que ri do riso, o contemplativo, o que saúda a mais elevada das piadas, numa palavra o riso que ri – silêncio por favor – do que é infeliz” (Beckett, Watt).

É preciso muito humor para impedir que ao redor da lucidez se erga qualquer forma de basílica, para que a clarividência não se degrade em culto. Cioran se obstina em negar tudo e negar-se, em desmentir os prestígios da realidade; um exercício tão turvo, tão improvável, deve suscitar o riso: o riso preventivo, aturdido, de quem trata de evitar que um discurso demasiado terrível seja levado a sério, mas também o riso liberador de quem, por fim, se atreve a saber. Não é a severa bata acadêmica, a lúgubre máscara de quem leva sobre os seus ombros o peso teórico do mundo, o que corresponde à revelação niilista: deixemos isso para quem tem o Sistema – e, portanto, a Ordem – do seu lado. Coloquemo-nos no campo do riso, do sorriso inspirado, à beira do estalo, da gargalhada refreada em estilo: nisto reside a maestria do estilo de Cioran.

Após o epílogo (um dos momentos mais interessantes do livro), há ainda uma entrevista (“O último dândi”) de Cioran concedida ao próprio Savater, realizada em Paris, em 1990 (cinco anos antes do falecimento de Cioran, vítima de Alzheimer), e publicada no jornal espanhol El país, em 25 de outubro do mesmo ano. Uma entrevista que simboliza muito mais do que um diálogo entre duas figuras que se tornariam, ambas, cada qual por seus respectivos méritos, importantes no cenário intelectual do século XX e do seguinte, o atual século XXI; o documento de uma amizade fecunda e inquebrantável que iniciaria uma rica correspondência entre amigos e apreciadores de Cioran dos quatro cantos do mundo, no espírito do que escreve o poeta alemão Jean Paul: “Livros são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas.”[7] Recomendável a todos aqueles interessados em iniciar ou expandir, por uma perspectiva atualizada à contemporaneidade – na qual proliferam, como sempre, fanatismos diversos, com suas consequências desastrosas para a humanidade e mesmo para o planeta –, o estudo de temas de interesse filosófico como o acaso trágico, o pessimismo, o niilismo, o ceticismo, o ateísmo, e também a religião, a mística, a arte, enfim, tudo aquilo que há de mais familiar, de mais natural ao humano.

[1] Cf. “Obsessão do essencial”, in: Breviário de decomposição.

[2] Cf. O mito de Sísifo.

[3] “É preciso voltar-se para as grandes obras sombrias da literatura e da arte para – talvez – ouvir novamente a linguagem da loucura. Goya, Sade, Hölderlin, Nietzsche, Nerval, Van Gogh, Artaud, essas existências nos fascinam pela atração que sentiram, mas também pela relação que cada uma parece ter mantido entre o saber obscuro da Desrazão e aquilo que o saber claro – o da ciência – chama de loucura.” BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita – a experiência limite, vol. 2. Trad. de João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2007, p. 178.

[4] Cf. Breviário de decomposição.

[5] “Com certezas, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras – sombras de realidade –, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação.” (Cioran, Silogismos da amargura)

[6] ROSSET, Clément. Lógica do pior. Trad. de J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro:  Espaço e tempo, 1989.

[7] Apud: SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. Trad. de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p. 7.

Entrevista: Amelia Natalia Bulboacă e a recepção italiana de Cioran, entre duas línguas

Amelia Natalia Bulboacă nasceu na cidade de Brăila, na Romênia. É formada em Ciências Políticas pela Universidade de Milão, com especialização em Ciências Internacionais e Instituições europeias. É mestra em Ciências Antropológicas e Etnológicas pela Università degli Studi di Milano-Bicocca e está em vias de obter outra especialização em Filosofia das Religiões. É colaboradora da revista bilíngue romeno-italiana Orizonturi culturale italo-române. Atualmente, está em processo de traduzir, do romeno ao italiano, textos de/sobre Cioran. Traduziu ao italiano o livro de Marta Petreu An infamous past: E.M. Cioran and the rise of fascism in Romania (Ivan R. Dee, 2005).

EMCioran/Br: Primeiramente, eu gostaria de te agradecer por esta entrevista. Como Cioran, você está familiarizada com a experiência do bilinguismo, pois, como ele, você nasceu na Romênia, e também como ele, se radicou em outro país (no caso, a Itália). Poderia nos contar a respeito do seu itinerário intelectual, e sobre como veio a descobrir a obra de Cioran? Já conhecia Cioran na Romênia? Na sua visão, quais são as vantagens e as desvantagens de escrever numa língua estrangeira?

A.N.B.: Eu é que te agradeço, Rodrigo, por esta entrevista e pela paixão sem limite que caracteriza o seu estudo e o seu contínuo empenho na difusão da obra de Cioran.
É verdade, são tantos fios, visíveis e invisíveis, que me ligam a Cioran. Devo dizer que você tocou num nervo descoberto perguntando-me sobre a situação do desenraizado, do apátrida.  Por ter a dupla cidadania ítalo-romena (pois, diferentemente de Cioran, que nunca solicitou a cidadania francesa, eu e a minha família solicitamos a italiana), sempre me senti uma pessoa sem nenhum pertencimento. Afinal de contas, vivemos numa época líquida em que o pertencimento e a identidade não são tão claros quanto foram outrora; porém, devo admitir que a minha “carreira” como expatriada tem todas as conotações de uma feroz radicalidade – inicialmente, talvez, de forma inconsciente, e então tomada voluntariamente como um fardo que, ao mesmo tempo, tranquiliza.
Nasci na Romênia, em Brăila, uma cidade que tem uma história antiga, uma encruzilhada de muitas culturas, um verdadeiro umbral entre o Oriente e o Ocidente. Da minha varanda eu podia ver a água do Danúbio. Infelizmente, eu sempre me senti presa naquela realidade, ainda que hoje eu não sei o que daria para abrir a janela e poder ver o rio ou o mar. Descobri Cioran no liceu, graças ao meu professor de língua romena, Viorel Mortu, um intelectual muito refinado que frequentemente citava este filósofo tão eclético e tão… contemporâneo: este foi o meu primeiro impacto com o autor, dado que nós, estudantes, estávamos habituados a ouvir falar apenas dos clássicos. Os fragmentos citados imediatamente entraram na minha mente e começaram a escavar pacientemente, até o momento certo de retornarem à superfície para dar voz à sua incubação meticulosa e laboriosa. Quanto isto aconteceu, eu já estava na Itália.
Lembro-me de ter subitamente começado a amar Cioran porque não fazia mistério sobre o imperativo de ir embora da Romênia e nunca mais retornar. Este era também o meu desejo, que depois se cumpriu por uma série de circunstâncias que bem poderiam ser chamadas de destino. Quando eu cheguei à Itália com a minha família, aos 19 anos, me inscrevi imediatamente na Faculdade de Ciências Políticas, escolhendo uma especialização em Relações Internacionais – o sonho da minha avó era que, um dia, eu chegaria ao Parlamento Europeu, o que para mim não seria, obviamente, nada mal. Em seguida, enquanto me confrontava com a dura realidade do meu novo estatuto de extra-comunitaria, a utopia desapareceu como fumaça ao vento e eu comecei a perder a confiança na eficácia das instituições e, em geral, da política. Este foi, para mim, a primeira virada importante, o ponto de não-retorno, a experiência iniciática da alteridade, que eu me deparei tendo que suportar, antes mesmo de poder assumi-la conscientemente. Como consequência natural do meu desencantamento premente, eu me voltei aos estudos de antropologia cultural, a partir dos quais, finalmente, cheguei à filosofia. Quando cheguei na Itália, eu conhecia o italiano simplesmente porque, quando era pequena, eu assistia os canais da TV italiana que eram transmitidos na Romênia. Um dia, um vizinho que viajava o mundo participando de todas as maratonas possiveis e imaginaveis, me deu um presente trazido da sua viagem à Itália: um livro, Il fu Mattia Pascal [O falecido Mattia Pascal], de Pirandello, que eu li sem conhecer direito o italiano. Disse-me também que na Italia havia uma cidade com o mesmo nome que o meu: Amelia (o que me pareceu extraordinário). Como eu disse, nunca estudei o italiano, mas depois de um mês da minha chegada na Itália eu já havia passado no primeiro exame universitário (escrito) com a nota máxima. Sempre nutri uma grande paixão pelas línguas, tanto é verdade que também acabei aprendendo o árabe, ainda que só o italiano tenha se tornado minha segunda língua. O italiano colonizou a minha língua materna até suplantá-la (quase) definitivamente – ao menos na escrita. Você me perguntou sobre as vantagens e desvantagens de escrever numa língua estrangeira. Penso que uma das maiores vantagens seja a aquisição de uma hipersensibilidade no confronto com as palavras, seus significados e etimologia. Sobretudo se tem a ver com uma língua tão intimamente aparentada à materna, como o italiano ou o francês, que são línguas românicas próximas do romeno, do português ou do espanhol. O outro lado da moeda é que se corre o risco de exagerar, de tornar-se um maníaco do estilo, talvez passando dias pensando numa frase ou mesmo numa palavra, retornando mil vezes ao texto e nunca contente com o  resultado obtido – Cioran reescreveu o Breviário de decomposição ao menos duas ou três vezes.

EMCioran/Br: Cioran sempre insistiu na diferença entre a língua romena e a francesa, ressaltando as provações experimentadas com esta última, que ele adotou definitivamente desde que abandonara sua língua materna. Você crê que essa diferença também é grande no caso da relação idiomática Romeno-Italiano? Haveria afinidades profundas e significativas entre estas duas línguas?

A.N.B.: Creio que a diferença entre o italiano e o romeno seja menos notável do que aquela entre o francês e o romeno. A minha experiencia pessoal – mas não só a minha – é que o italiano pode ser aprendido muito facilmente, até mesmo sem o auxílio dos livros de gramática (certamente seria melhor usá-los mas, a meu ver, não é indispensável). O italiano e o romeno são línguas gêmeas, ainda que esta constatação talvez não seja nem um pouco óbvia da perspectiva de um italiano, pois o romeno sofreu influência e empréstimos do turco e da língua eslava. Ainda hoje fico impressionada quando escuto algumas palavras dos dialetos do sul da Itália que são absolutamente idênticos aos termos romenos. Uma outra vantagem do italiano em relação ao francês é, na minha opinião, a sua fácil pronúncia. Cioran conservou durante toda a sua vida, aquele seu típico sotaque valaco, que, em italiano, talvez ficasse menos saliente. Talvez.

EMCioran/Br: Cioran foi diversas vezes à Itália. Na sua visão, o que é que o atraía ao país que em que você reside, além de Leopardi, poeta que ele admirava enormemente (a ponto de pendurar, segundo Renzo Rubinelli, o seu poema L’infinito na parede da sua mansarda)?

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Giacomo Leopardi (1798-1837)

A.N.B.: Cioran tinha um verdadeiro culto por Leopardi, e podemos certamente acreditar no testemunho de Renzo, que teve a imensa sorte, e o privilégio, de visitar Cioran na rue de l’Odéon. Cioran deveria ter ido à Itália com a tão cobiçada bolsa de estudos no estrangeiro. A sua primeira escolha foi, de fato, ir à Itália. Em abril de 1937, ele escreveria estas palavras a Mircea Eliade: “Seja bom, mande-me para a Itália”. Cioran queria obter uma bolsa de estudos junto à Casa romena de Roma, a atual Accademia di Romania – que foi fundada na capital italiana na década de 1920, graças à iniciativa conjunta do historiador Nicolae Iorga e do arqueólogo Vasile Pârvan. Ao amigo Mircea Eliade ele havia confessado também a sua intenção de escrever um livro sobre a Itália. Evidentemente, naquela época Cioran queria de todos os modos, autosugestionar-se – se posso dizê-lo assim – face a face com universo italiano, já que o seu único objetivo naquela época (falo claramente em termos de escolhas para o futuro) era ir embora da Romênia, onde se sentia completamente inútil e sem futuro. Como sabemos, ele finalmente conseguiu uma bolsa concedida pelo Instituto Francês de Bucareste, o que o levaria a Paris ao final de 1937. O fato de que Cioran se tornaria o que se tornaria – um dos maiores estilistas da língua francesa – é devido, portanto, a uma simples casualidade. Não sabemos qual teria sido a sua trajetória destinal se, em vez de ir a Paris, ele tivesse tido a oportunidade de ir para Roma. Não devemos esquecer, contudo, o papel imponderável que desempenhou nesta equação a sua companheira de toda uma vida, a francesa Simone Boué. Muitos são os que pensam que, sem esta mulher providencial ao seu lado, Cioran teria perigado de fracassar completamente. Em todo caso, voltando à sua pergunta, Cioran, como todos os romenos, sentia uma natural e espontânea familiaridade nos confrontos com a Itália, a ponto de considerar os italianos simplesmente como romenos com uma história.

EMCioran/Br: Você escreveu um artigo sobre Cioran (publicado em Cioran, archives paradoxales, tomo II, Éditions Garnier) intitulado “Cioran e a antropologia apocalíptica”. Poderia explicar brevemente como você concebe essa antropologia? Cioran escreveu: “O homem segrega desastre” (Silogismos da amargura); haveria alguma relação entre essa antropologia, tal como você a compreende, e este aforismo?

A.N.B.: Certamente. Com estas quatro palavras pode-se dizer tudo sobre a antropologia negativa ou apocalíptica, como eu a denominei. Já que não nos contentamos com essências e temos o vício de nos embriagarmos com rios de palavras, livros e artigos, também podemos fazer muitas variações sobre o tema. Então eu escrevi o artigo em questão, pois, estudando-se a obra romena de Cioran (a menos conhecida, pelo menos fora da Romênia, mas que eu considero de primária importância), descobre-se que Cioran estava muito interessado em antropologia e em psicologia, esses saberes que se propõem estudar o homem vivo, em carne e osso. Cioran conviveu com essa obsessão por toda a sua vida: “A multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento”, escreveu ele já em Nos cumes do desespero. Não tão longe a ponto de torná-la uma profissão, talvez assumindo o papel do antropólogo misantropo, até porque Cioran não foi feito para ter uma profissão, portanto aquele caminho lhe estava necessariamente interditado. Não obstante, cumpre admitir que Cioran foi um antropólogo sui generis e, ainda que eu presuma que ele não sabia disso, há tantos pontos em comum entre Cioran e Claude Lévi-Strauss, tanto no que concerne à especulação metafísica quanto às suas respectivas biografias. Por exemplo, os dois se formaram em filosofia no mesmo ano (1931). Ambos maturaram a mesma convicção intelectual que os distanciaria radicalmente dos automatismos asfixiantes e anquilosantes da Academia (Cioran se tornará o Privat Denker da mansarda parisiense, enquanto que Lévi-Strauss iria em busca da sua verdade no coração da Floresta Amazônica). Cioran foi à França com uma bolsa de estudos para fazer uma tese de doutorado na Sorbonne (onde Lévi-Strauss, por sua vez, obteria o seu doutorado em 1948), mas sabemos que ele passou todo o tempo sem nem mesmo atravessar a porta da universidade ou fazer contato com os professores para a coordenação da tese. Em sua bicicleta, Cioran percorreria um vasto território e conheceria a França profunda. Sem ter programado isso, terminaria comportando-se como um etnógrafo de bicicleta no interior da França, na qual, neste mesmo período, Lévi-Strauss, no coração da Amazônia, pensava com inefável melancolia (basta ler as suas extraordinárias memórias publicadas sob o título de Tristes trópicos, para -sedar conta dessa interessante coincidência).

Enfim, para não me delongar muito, a antropologia apocalíptica de Cioran (que é perfeitamente reconhecível na entropologia de Lévi-Strauss) reside no fato de que, na sua obra, a imagem do homem é representada como numa fotografia instantânea da queda livre e sem fundo no Irreparável. O homem é uma criatura que “segrega desastre” porque, retomando o tema da antropologia negativa, ele pensa poder criar continuamente novos conteúdos culturais (para não falar da utopia do progresso que nunca, como em nossos dias, revelou o seu exato contrário pela quantidade de guerras, terrorismos e injustiças às quais assistimos). Como mencionei Lévi-Strauss, penso que estas suas linhas significativas podem explicar muito bem o célebre aforismo cioraniano que acabamos de recordar acima: “Desde que começou a respirar e a alimentar-se, até a invenção dos engenhos atômicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e salvo quando se reproduz – o homem nada mais fez do que alegremente dissociar bilhões de estruturas para reduzi-las a um estado em que já não são capazes de integração.” (Tristes trópicos) Desde que começou a respirar, o homem segrega desastre!

EMCioran/Br: Como a lucidez, tal como a compreende Cioran, é compatível com a vida?

A.N.B.: A lucidez de Cioran não deixa escapatória. Penso que Cioran disse tudo o que se poderia dizer sobre o essencial, expurgando com precisão cirúrgica até o mais minúsculo coágulo de ilusões. À primeira vista, a sua pode parecer uma lucidez mortal, intolerável, absolutamente incompatível com a vida, que é feita, sobretudo, de ilusões. Direi que, no fundo, esta é uma questão de gosto, de escolha e de caráter. Alguns preferem viver na ilusão (tantos amantes se comportam desta maneira), mas há também pessoas um pouco mais “radicais” que jamais admitiriam uma bela mentira no lugar de uma verdade dura e dolorosa. Se se pertence a esta última categoria, a lucidez de Cioran não apenas é compatível com a vida como se torna indispensável. Para Cioran, a lucidez significava ter a “paixão do insolúvel”, o que pode levar o homem a excessos inimagináveis (um destes é, na minha visão, a escrita). De qualquer forma, para quem vive nessas alturas vertiginosas, viver ou morrer tornar-se absolutamente irrelevante, como sempre disse Cioran. De fato, viver com essa lucidez esmagadora significa, frequentemente, ter um plus de vida, pois nos tornamos mais conscientes e mais preparados para as inevitáveis desilusões da vida. Significa sermos sobreviventes! Na entrevista a Sylvie Jaudeau, Cioran dirá:

“A lucidez, graças ao vazio que deixa entrever, converte-se em conhecimento. É então mística sem absoluto. A lucidez extrema é o último grau da consciência e dá a sensação de ter esgotado o universo, de ter sobrevivido a ele. Quem não passou por essa etapa, ignora uma variedade especial de decepção, portanto o conhecimento. Os entusiastas começam a tornar-se interessantes quando são confrontados ao fracasso e que a desilusão os torna humanos. O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial.” (Cioran, Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 18).

EMCioran/Br: Quais são os autores italianos com os quais a obra de Cioran poderia estabelecer uma espécie de diálogo?

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Carlo Michelstaedter (1887 – 1910)

A.N.B.: Os autores italianos que eu aproximaria de Cioran (para não mencionar, obviamente, o imenso Leopardi) são Carlo Michelstaedter e Giuseppe Rensi. Cioran tinha 23 anos quando escreveu Nos cumes do desespero; aos 23 anos, Michelstaedter se suicidou, o dia seguinte de ter concluído a redação de sua tese, La persuasione e la retorica (era o ano de 1910, e Cioran nasceria em 1911). Carlo Michelstaedter levou a cabo o suicídio em torno do qual Cioran rondaria durante toda sua vida. Os dois partilham das mesmas persuasões: o desespero associado ao sofrimento, a necessidade de viver, o inconveniente de ter nascido, as falsas certezas da mediocridade sobre as quais se apoia a retórica nauseabunda da sociedade humana e de seus expoentes internamente encharcados de males, a convicção de que as palavras devem sangrar e provocar feridas profundas, a crítica impiedosa da modernidade e do progresso ilusório.

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Giuseppe Rensi (1871 – 1941)

Giuseppe Rensi é um filósofo italiano muito interessante, um cético radical mal digerido do universo blindado do establishment cultural, um filósofo marginal e de nicho, com uma personalidade irriquieta e atormentada. Ele tem em comum com Cioran o pessimismo existencial e o niilismo místico (é autor de lívros que Cioran teria certamente apreciado, como: La filosofia dell’assurdo, Apologia dell’ateismo, La morale come pazzia, para citar apenas alguns). É também o autor de aforismos marcados por um “radicalismo feroz com a mais bestial veia pessimista” (descrição do projeto de Nos cumes do desespero, em carta de Cioran a Petru Comarnescu, de 21/04/1933), como havia dito Il Nostro.

EMCioran/Br: Cioran, um filósofo? Um escritor, as duas coisas juntas?

A.N.B.: Não me parece difícil considerar Cioran como um filósofo. De fato, a sua é a única forma de filosofia ainda possível num mundo em que a impostura do idealismo sistemático (e de todos os –ismos) tem sido amplmente desmitificada. Cioran é o filósofo do desengajamento, um esteta e um virtuoso do vago, mas, ao mesmo tempo, os seus livros amanam emanam uma força tal e uma solidez granítica, precisamente porque estão ancoradas naquele solido nulla [sólido nada] de formulação leopardiana, no fundo, é a única realidade a que podemos nos agarrar. E não se trata de um paradoxo gratuito.
Se comparada a certas filosofias que, detrás dos muros fechados da Academia, proliferam como tantas outras culturas de bactérias anaeróbicas, na ausência de oxigênio, de fato, a filosofia vivida de Cioran tem toda a potência de um saudável e vivificante.

EMCioran/Br: Cioran em uma palavra?

A.N.B.: Usarei uma palavra desgastada: catártico.

EMCioran/Br: Há algum livro de Cioran que seja o seu preferido? Algum aforismo que venha de cor, ou que lhe ocorra agora?

A.N.B.: Eis aqui, de verdade, a dificuldade da escolha, e temo que não estarei à altura de te dar uma resposta. Não me arrisco a escolher um único livro. Admito que me são muito caros os livros do período da juventude, escritos em romeno. Estes textos emanam um extraordinário lirismo demiúrgico que deriva de um valor estilístico arcaizante de inefável beleza: a melhor combinação entre poesia e filosofia. Para apreciá-lo plenamente, é preciso lê-lo em romeno, a tradução neste caso trai bastante o original.
Um aforismo que me vem à mente praticamente todos os dias ao despertar é este: “Ser é estar encurralado” (Écartèlement). Estejamos todos encurralados: iludidos e desiludidos, enamorados e desamorados, crentes e descrentes. Está encurralado quem quer que ainda cultive algum sonho, algum ideal, ou mesmo algum simples desejo, mas se dá conta de que já não não tem (mais) a força de realizá-lo e de lutar contra forças que o superam; está encurralado quem já não tem mais nenhum desejo porque, no fundo, o seu único, o seu inconfessável desejo é  tornar a desejar e esperar. Quem comete o suicídio acredita, talvez, poder eludir a armadilha, mas, na realidade, não faz nada além de lançar-se à mesma sorte que tocará cada um de nós. Só há uma única saida obrigatória, e a única realização do suicida é a de ter furado a fila. Não nos esqueçamos nunca: “Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?” (Silogismos da amargura).

EMCioran/Br: Para terminar, por que ler Cioran?

A.N.B.: Voltando aos aforismos que citei anteriormente, direi que ler Cioran serve simplesmente para caminar adiante num mundo que, por sua vez, está indo cada vez mais à deriva. E serve também para dar uma saudável e sonora risada de tudo.

EMCioran/Br: Amelia, te agradeço mais uma vez pela entrevista.

A.N.B.: Eu é que agradeço, Rodrigo.

*

Novara (Ita) – São Paulo (Bra), agosto de 2016
Tradução do italiano: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

 

 

“Cioran, la naissance et le Zen”, par Massimo Carloni [Fr]

Article paru dans Alkemie Revue semestrielle de littérature et philosophie, numéro 9 / Juin 2012 (thème: L’être)

Abstract: This article suggests approaching the problem of the birth in Cioran. By interpreting the fall from Heaven as the exile, Cioran aims at subtracting the narrative of the Genesis from the moral dialectic innocence/fault towards God, to conjugate it with the profound intuitions on the consciousness of the Zen Buddhism.

Key words: Genesis – conscience – knowledge – Zen – original nature – immediate – kōan – Nothing – satori – mono no aware – cioban – Lin-Chi – Buddha

 L’esprit humain n’est pas la pensée, mais le vide et la paix
qui forment le fond et la source de la pensée.
Houeï-nêng

Être homme signifie précisément être conscient. Être détaché de soi-même, en fuite perpétuelle de ce qu’on est, pour saisir ce qu’on n’est pas.

Bien avant d’être le sujet d’un livre ou d’un article, la naissance a été pour Cioran surtout une obsession, dont il ne s’est jamais libéré. S’acharner contre sa propre venue au monde… Comment une telle folie serait-elle concevable ? Pourquoi donc se vouer à une cause déjà perdue d’avance ? À quoi bon se tourmenter avec l’Insoluble ? En effet, au moment même où nous discutons de la naissance, il est déjà trop tard : « Ne pas naître est sans contredit la meilleure formule qui soit. Elle n’est malheureusement à la portée de personne »[1]. Le forfait, à vrai dire, est désormais accompli, cependant s’arrêter sur cet événement capital n’est pas une occupation oisive, au contraire, car elle pourrait bien se révéler une expérience libératrice.

En glissant sur le problème de la naissance, le Christianisme perdit ab initio l’essentiel de la Genèse transmis par la tradition. Le Bouddhisme, au contraire, en fit l’un des points fondamentaux de sa doctrine. Quant à Cioran, son interprétation magistrale du récit de la Genèse, vise à  le soustraire à la dialectique morale innocence/culpabilité envers Dieu, pour le conjuguer avec les profondes intuitions du bouddhisme Zen.[2]

  1. L’exil de la conscience

Au-delà du langage mythique, la chute originaire du Paradis raconte le drame de la conscience, la tentation du savoir qui se révèlera être fatale à l’homme. Effectivement, botaniste exécrable, l’homme opta pour le faux arbre: il préféra l’arbre de la Connaissance à celui de la Vie. On lit alors dans la Bible : « ses yeux se sont ouverts ». Royaume de l’évidence inarticulée, « le Paradis était l’endroit où l’on savait tout mais où l’on n’expliquait rien. L’univers d’avant le péché, d’avant le commentaire »[3], glose Cioran. L’avènement de la conscience établit donc une fracture, une discontinuité dans l’économie de l’être. L’individu naît donc comme une entité séparée psychiquement de son milieu. Cioran rappelle distinctement l’épisode de son enfance qui marqua en lui le réveil de la conscience, par laquelle il entendit, pour la première fois, le poids d’être au monde.

Tout à coup, je me trouvai seul devant… Je sentis, en cet après-midi de mon enfance, qu’un événement très grave venait de se produire. Ce fut mon premier éveil, le premier indice, le signe avant-coureur de la conscience. Jusqu’alors je n’avais été qu’un être. À partir de ce moment, j’étais plus et moins que cela. Chaque moi commence par une fêlure et une révélation.[4]

En nommant les êtres vivants et les choses, l’homme crée une opposition entre soi et le monde. En vertu d’un savoir purement abstrait et par la médiation logique de l’idée, il s’imagine pouvoir reconstituer l’unité originaire du réel, en gouvernant ainsi le devenir. En vain. Car il ne fera qu’agrandir de plus en plus le gouffre qui le sépare du sein de la Nature. « Au plus intime de lui-même, l’homme aspire à rejoindre la condition qu’il avait avant la conscience. L’histoire n’est que le détour qu’il emprunte pour y parvenir. »[5]

Naturellement intentionnelle, la conscience est toujours conscience-de-quelque-chose. En établissant la distinction originaire entre soi-même et l’autre, la conscience structure l’expérience en un sens dualiste (sujet vs objet), conformément à la logique discursive de l’intellect. De cette façon l’ontologie de la substantia, qui classifie les organismes en vertu de leur différence essentielle, se superpose à l’interdépendance primordiale (relatio) de tous les phénomènes, où ceux-ci sont le produit momentané d’un réseau de conditionnements réciproques entre éléments dépourvus de nature propre. Ce faisant l’homme, ce « transfuge de l’être »[6], accomplit un saut en dehors du flux vital où il était immédiatement plongé, hors de l’inconscience d’un éternel présent qui le tenait à l’abri, sinon de la mort – l’arbre de la Vie lui était quand même interdit – au moins de la mortalité.

Auparavant il mourait sans doute, mais la mort, accomplissement dans l’indistinction primitive, n’avait pas pour lui le sens qu’elle a acquis depuis, ni n’était chargée des attributs de l’irréparable. Dès que, séparé du Créateur et du crée, il devint individu, c’est-à-dire fracture et fissure de l’être, et que, assumant son nom jusqu’à la provocation, il sut qu’il était mortel, son orgueil s’en agrandit, non moins que son désarroi.[7]

Il en découle une fuite en avant désespérée, à corps perdu, vers l’extérieur, vers l’histoire, pour exorciser cette peur de mourir qui fait corps avec son premier instant. La conscience d’être hic et nunc et la conscience de sa propre mortalité se soutiennent réciproquement, ce sont le recto et le verso de de la même médaille. Le cercle vicieux dans lequel l’homme est tombé depuis Adam, est déterminé par la prétention de se sauver consciemment de la catastrophe de la conscience, en se sauvant à la manière de Munchausen, qui tire sur ses propres cheveux. Une telle ambition équivaut à « refaire l’Éden avec les moyens de la chute »[8]. Si « naître c’est s’attacher »[9], intentionnellement ou non, à notre moi et aux choses du monde, pour en sortir il faut parcourir à reculons le chemin, « faire éclater les catégories où l’esprit est confiné »[10], rétablir la condition originaire antérieure à la dichotomie sujet-objet. Autrement dit, il faut renaître sous l’arbre de la Vie.

L’inconscience est le secret, le « principe de vie » de la vie. Elle est l’unique recours contre le moi, contre le mal d’être individualisé, contre l’effet débilitant de l’état de conscience, état si redoutable, si dur à affronter, qu’il devrait être réservé aux athlètes seulement.[11]

  1. Le visage originaire avant la naissance

L’état d’inconscience évoqué par Cioran n’a rien à voir avec l’inconscient de la psychanalyse. Pour Cioran il s’agit donc de révéler les convergences surprenantes de cette inconscience avec ce que le bouddhisme Zen, dans ses différents courants, définit parfois comme : Nature-Bouddha, non-esprit (Wu-hsin), non-pensée (Wu-nien), « visage originaire avant la naissance » (pien-lai mien-mu), non-né (fusho).[12] Cioran même décrit la délivrance comme « état de non-pensée »[13] et il envisage d’écrire un essai à propos de cette condition.[14]

Cette concordance n’est pas le fruit du hasard. À partir des années 1960 – comme en témoignent les Cahiers – Cioran montre un intérêt croissant pour l’interprétation pragmatique du bouddhisme élaborée par le Zen. La virulence anti-métaphysique, typique de la tradition chinoise et japonaise, se marie à merveille avec son anti-intellectualisme viscéral.

Conversant avec un chinois de Hong-Kong, Cioran partage avec lui la méfiance vers la philosophie occidentale « qu’il trouve verbeuse, superficielle, extérieure, car dépourvue de réalité, de pratique ».[15] À un moment donné Cioran arrivera à définir Mozart et le Japon comme « les résultats les plus exquis de la Création ».[16] Charmé par la délicatesse nippone, il recopiera une page entière du livre de Gusty Herrigel sur l’Ikebana, ou « l’art d’arranger les fleurs ».[17] Pendant l’hiver 1967, Cioran ressentira une pitié authentique pour les fleurs de son balcon, exposées au froid intense, au point de les emmener avec soin dans sa  mansarde pour les protéger.[18]

Chez Cioran, le refus de la conscience n’est rien d’autre que « la nostalgie de ce temps d’avant le temps »[19] où le bonheur consistait dans un « regard sans réflexion ».[20] Parce qu’elle perturbe la spontanéité du geste, l’activité consciente fausse la vie. Préfigurant un but à atteindre, l’esprit se scinde en spectateur et en acteur, et se place à la fois dans et hors de l’action. Le geste s’accomplit donc dans un état de tension, d’effort conscient, car l’esprit est troublé par les conséquences possibles de son action à venir.

 Toute activité consciente gêne la vie. Spontanéité et lucidité sont incompatibles.
Tout acte essentiellement vital, dès que l’attention s’y applique, s’accomplit avec peine et laisse après soi une sensation d’insatisfaction.
L’esprit joue par rapport aux phénomènes de la vie le rôle d’un trouble-fête.
L’état d’inconscience est l’état naturel de la vie, c’est en lui qu’elle est chez elle, qu’elle prospère et qu’elle connaît le sommeil bienfaisant de la croissance. Dès qu’elle se réveille, dès qu’elle veille surtout, elle devient haletante et oppressée, et commence à s’étioler.[21]

Le Zen, dont l’esprit imprègne tous les arts japonais, reconduit l’homme à la réalité du hic et nunc, à l’« ainsité » (tathata)[22]. Afin de se syntoniser sur la longueur d’onde de la vie, il faut que le geste de l’artiste, comme du samouraï d’ailleurs, soit spontané, sans hésitations ; il faut que le geste surgisse du vide de la pensée, en oubliant aussi la technique apprise. Autrement dit, il faut que l’art soit à tel point intériorisée jusqu’à devenir connaissance du corps, en sorte que celui-ci puisse réagir à la situation de manière autonome et instantanée, en éludant la direction de la conscience. Seulement si la technique (waza), l’énergie vitale (Ki) et l’esprit (shin), sont fusionnés harmonieusement, sans que l’une prévale sur les autres, l’action résulte efficace et opportune. Comme une balle flottant dans une rivière, portée par le courant, l’esprit doit couler sans s’arrêter sur rien[23]. À ce propos D.T. Suzuki soutient que

La vie se dessine de soi sur la toile nommé le temps – et le temps ne se répète jamais, une fois passé il ne revient plus. Il en est de même pour l’acte : une fois accompli, il ne peut plus être défait. La vie est comme la peinture nommée sumi-e, qui est peinte d’un seul jet, sans hésitations, sans intervention de l’intellect, sans corrections. La vie n’est pas comme une peinture à l’huile qu’on peut effacer et retoucher jusqu’à ce que l’artiste en soit satisfait. Dans la peinture sumi-e chaque coup de pinceau qu’on passe une deuxième fois devient une tache, il n’a plus rien de vivant […] Et il en est de même pour la vie. Ce qu’elle est devenue par notre action nous ne pouvons plus le reprendre, ou mieux nous ne pouvons même plus effacer pas ce qui est passé à travers notre conscience simplement. Ainsi le Zen doit être cueilli pendant que la chose arrive, ni avant ni après : dans l’instant.[24]

Avec perspicacité, Cioran établit une corrélation directe entre l’immédiat et le réel, d’un côté, et la souffrance et la conscience de l’autre. Takuan Sōhō lui fait écho, lorsqu’il affirme que « Dans le bouddhisme nous détestons cet arrêt, cet hésitation de l’esprit sur l’une ou l’autre chose, que nous définissons comme étant la souffrance » [25]. L’excès d’auto-conscience fait de l’homme un système hautement instable, sensible aux moindres sollicitations du milieu, aussi bien extérieur qu’intérieur. Cela crée un état d’anxiété, d’oscillation entre contraires, qui retarde l’agir ou le rend gêné et inefficace. L’obsession du contrôle, le besoin spasmodique de sûreté et de certitudes préventives, sont autant de témoignages montrant que l’homme est sorti de la spontanéité de la vie, et qu’il vit dans un état d’agitation fiévreuse, incapable de concilier la réalité du vécu avec l’idée qu’il a élaboré a priori. Entre les espèces vivantes, l’homme est le plus souffrant, car il est parvenu au plus haut degré de conscience de soi.

Il vaut mieux être animal qu’homme, insecte qu’animal, plante qu’insecte, et ainsi de suite. Le salut ? Tout ce qui amoindrit le règne de la conscience et en compromet la suprématie.[26]

Alors, comme peut-on retrouver en soi-même cette « virginité ‘‘métaphysique’’ »[27], qui permet de percevoir les éléments comme si on les voyait pour la première fois, « au lendemain de la Création »[28] et « avant la Connaissance »[29] ? Il faut avant tout discerner la vacuité intrinsèque des choses, des mots qui les désignent et, finalement, de la conscience du moi empirique. Autrement dit, il faut démolir complètement la conception ordinaire de la réalité, en même temps que l’armature logique qui la soutient.

Les maîtres Zen étaient harcelés par leurs élèves, à propos de questions sur l’essence dernière du bouddhisme. Pour arrêter chez les novices le flux de la pensée discursive, les maîtres Zen adoptèrent une série de stratégies, soit verbales soit physiques, telles que : le kōan, le paradoxe, la contradiction, le cri, le coup de bâton, le gifle, l’indication directe… Cette pars destruens du Zen vise à provoquer un choc psychologique, un court-circuit intellectuel, jusqu’à ce que « le langage soit réduit au silence et la pensée n’ait aucune voie à suivre » .[30] Il faut tuer dans l’œuf chaque tentative de fuite de la réalité vers le symbolique. Interroger le maître, c’est encore croire à la connaissance objective, doctrinale, séparée de l’ignorance ; c’est détourner l’attention de soi-même, c’est sacrifier sur l’autel d’un absolu métaphysique l’instant éternel qu’on vit. De ce point de vue, le kōan peut être considéré comme un paradigme de la vie elle-même, dont la complexité ne demande pas une compréhension simplement intellectuelle, mais toujours existentielle, vécue complètement dans l’instant.

Pour éviter tout cela, le Zen invite à expérimenter le Néant, c’est-à-dire le stade où on arrive à reconnaître que « les montagnes ne sont plus des montagnes »[31] (A n’est pas A), où les choses, en perdant leur essence et leurs déterminations, glissent vers le vide. Suzuki à ce propos soutient que « le Zen est une philosophie de négations absolues qui sont en même temps affirmation absolues » .[32] Cioran aussi répondit dans ces termes à une question sur son côté nihiliste

Je suis sûrement un négateur, mais ma négation n’est pas une négation abstraite, donc un exercice ; c’est une négation qui est viscérale, donc affirmation malgré tout, c’est une explosion ; est-ce qu’une gifle est une négation ? Donner une gifle n’est-ce pas… c’est une affirmation, mais ce que je fais ce sont des négations qui sont des gifles, donc ce sont des affirmations.[33]

Ce que les critiques occidentaux interprètent de manière expéditive, chez Cioran, comme étant du nihilisme, du pessimisme, est en réalité une tentative extrême pour emmener le lecteur – et peut-être lui-même – en face de son propre néant, afin que l’esprit, vidé de tout contenu, puisse retourner à la surface des choses, en se réveillant à la perception pure de toute réflexion. « Le véritable bonheur, c’est l’état de conscience sans référence à rien, sans objet, où la conscience jouit de l’immense absence qui la remplit. »[34]

  1. La châtaigne et le satori

Que Cioran le sache ou non, quand il soutient que « connaître véritablement, c’est connaître l’essentiel, s’y engager, y pénétrer par le regard et non par l’analyse ni par la parole », il nous fournit une définition du satori, ou connaissance intuitive, non duale, transcendante, qui recueille instantanément la nature de la réalité. Sur ce point, D. T. Suzuki précise :

Le satori peut être défini comme une pénétration intuitive de la nature des choses, par opposition à leur compréhension analytique ou logique. Pratiquement, il comporte le déploiement devant nous d’un nouveau monde, jamais perçu auparavant à cause de la confusion de notre esprit orienté de façon dualiste. On peut dire de plus que, par le satori, tout ce qui nous entoure nous apparaît selon une perspective insoupçonnée.[35]

Regarder sa nature originaire n’est jamais le résultat d’une pratique méditative, et encore moins le contenu d’une connaissance transmissible. Une fois que notre esprit est engorgé de notions conceptuelles, il se trouve bloqué par le Grand Doute ; dès lors, un événement quelconque, même le plus insignifiant, est à même d’éveiller la conscience.

C’est d’ailleurs ce que connut Hsiang-yen (? -898), élève de Kuei-shan. Le maître lui demanda quel était son visage originaire d’avant la naissance, mais Hsiang-yen ne répondit pas. Dans l’espoir de trouver la réponse à son kōan, il compulsa en vain tous ses livres. Alors, dans un accès de colère, il brûla tous les textes, bien qu’il continuât à se tourmenter au sujet de ce problème insoluble. Un jour, pendant qu’il arrachait les mauvaises herbes du terrain, il heurta une pierre laquelle, par ricochet, frappa à son tour une canne de bambou : c’est ainsi que Hsiang-yen obtint son satori.[36] Même Cioran expérimente un état d’âme identique, lorsqu’il écrit :

Comme je me promenais à une heure tardive dans cette allée bordée d’arbres, une châtaigne tomba à mes pieds. Le bruit qu’elle fit en éclatant, l’écho qu’il suscita en moi, et un saisissement hors de proportion avec cet incident infime, me plongèrent dans le miracle, dans l’ébriété du définitif, comme s’il n’y avait plus de questions, rien que des réponses. J’étais ivre de mille évidences inattendues, dont je ne savais que faire…
C’est ainsi que je faillis avoir mon satori. Mais je crus préférable de continuer ma promenade[37].

Au-delà du mot adopté et de l’ironie finale, il n’y a pas de doute que l’expérience rappelle une expression clé de l’esthétique japonaise, ce mono no aware qui désigne un certain « pathos (aware) des choses (mono) », c’est-à-dire le sentiment ressenti par l’observateur face à la beauté éphémère des phénomènes, lorsque il est pénétré par la brève durée d’une telle splendeur, destinée à s’évanouir de même que celui qui la contemple est voué à disparaître.[38] Ce n’est pas par hasard que, entre les sens du mot aware, on peut trouver celui de compassion, dans le sens étymologique de cum-patire, de souffrir ensemble, qui rapproche l’homme du reste de la nature, liés par un même destin fugace. En reprenant dans les Cahiers l’épisode de la châtaigne, Cioran souligne justement cette vérité métaphorique

Tout à l’heure, en faisant ma promenade nocturne, avenue de l’Observatoire, une châtaigne tombe à mes pieds. « Elle a fait son temps, elle a parcouru sa carrière », me suis-je dit. Et c’est vrai : c’est de la même façon qu’un être achève sa destinée. On mûrit, et puis on se détache de l’« arbre » [39]

 Il est symptomatique qu’ailleurs, pour désigner ce clair obscur de l’âme, Cioran utilise une expression typique de l’esthétique japonaise, employée lorsqu’on perçoit « le ah ! des choses »[40]. Ce soupir évocateur, en saisissant la nature impermanente de la vie, indique un sentiment inexplicable de plaisir subtil, imprégné d’amertume, devant chaque merveille qu’on sait périssable. Si d’un côté telle disposition dévoile le côté mélancolique de l’existence, d’un autre côté, il en émane un certain charme du monde qui, en dernière analyse, ne mène pas à la résignation, mais confère un sursaut de vitalité à l’âme de l’observateur.[41]

Le spectacle de ces feuilles si empressées à tomber, j’ai beau l’observer depuis tant d’automnes, je n’en éprouve pas moins chaque fois une surprise où «le froid dans le dos » l’emporterait de loin sans l’irruption, au dernier moment, d’une allégresse dont je n’ai pas encore démêlé l’origine.[42]

Ce sentiment, par les traits morbides de la Vergänglichkeit, ou de la caducité universelle, revient dans toute une série d’impressions notées dans les Cahiers. En maintes occasions Cioran montre qu’il a éprouvé l’expérience du vide mental, de dépouillement intérieur, qui aboutit à une perception absolue de la réalité. De même que le peintre zen se fait creux pour accueillir l’événement qu’il va représenter, pour devenir lui même la chose contemplée, de même, Cioran propose de se rendre totalement passif comme un « objet qui regarde »[43] : « l’idée, chère à la peinture chinoise, de peindre une forêt ‘‘telle que la verraient les arbres’’… ».[44] Du reste, c’est seulement ainsi qu’il est possible de « remonter avant le concept, [d’]écrire à même les sens ».[45] Autrement dit, il faut « Écarter la pensée, se borner à la perception. Redécouvrir le regard et les objets, d’avant la Connaissance ».[46] Le 25 décembre 1965, il note :

Le bonheur tel que je l’entends : marcher à la campagne et regarder sans plus, m’épuiser dans la pure perception.[47]

La contemplation permet de retrouver la dimension éternelle du présent, non contaminée par les fantômes du passé et par les anxiétés de l’avenir. Être entièrement dans un fragment de temps, totalement absorbé par le « hic et nunc » que nous sommes en train de vivre, car, en dehors de l’instant opportun, tout est illusion.

Autrefois un moine demanda à Chao-chou (778-897), un des plus grands maîtres Zen : « Dis-moi, quel est le sens de la venue du Premier Patriarche de l’Ouest ? »[48] Chao-chou répondit : « Le cyprès dans la cour ! » [49]  Or, si pour le sens commun la réponse semble totalement insensée, en revanche, dans l’optique Zen, elle ne l’est pas. Chao-chou soustrait le moine à la métaphysique aride de la pensée discursive, pour le reconduire à la poésie vivante de la réalité. À ce moment-là le cyprès recèle en lui-même le monde entier, bien plus que la réponse doctrinale attendue par le moine. Chao-chou et le moine, dans leur perception immédiate, sont le cyprès. L’être, dans sa nature indifférenciée, se révèle comme VOIR le cyprès. Cioran n’est pas loin de la spiritualité Zen lorsqu’il affirme :

Marcher dans une forêt entre deux haies de fougères transfigurées par l’automne, c’est cela un triomphe. Que sont à côtés suffrages et ovations ? [50]

Ailleurs Cioran parle du vent en tant qu’ « agent métaphysique »[51], révélateur donc de réalités inattendues : écouter le vent « dispense de la poésie, est poésie ».[52] L’insomnie et les réveils brusques au cœur de la nuit, le comblèrent souvent de visions ineffables, d’une béatitude paradisiaque.

Insomnie à la campagne. Une fois, vers 5 heures du matin, je me suis levé pour contempler le jardin. Vision d’Éden, lumière surnaturelle. Au loin, quatre peupliers s’étiraient vers Dieu.[53]

Durant l’été 1966, à Ibiza, après une énième veillée nocturne, c’est encore la beauté déchirante du paysage qui déjoue les sombres résolutions suicidaires.

Ibiza, 31 juillet 1966. Cette nuit, réveillé tout à fait vers 3 heures. Impossible de rester davantage au lit. Je suis allé me promener au bord de la mer, sous l’impulsion de pensées on ne peut plus sombres. Si j’allais me jeter du haut de la falaise ? […] Pendant que je faisais toute sorte de réflexions amères, je regardai ces pins, ces rochers, ces vagues « visités » par la lune, et sentis soudain à quel point j’étais rivé à ce bel univers maudit.[54]

Un autre aspect qui rapproche Cioran du Zen, réside dans une prise de conscience : la vie authentique est propre au cioban, au rustique qui vit au contact de la nature et qui gagne sa vie par le travail manuel[55]. Les années d’enfance, passées en tant qu’« enfant de la nature »[56], « Maître de la création »[57] dans la campagne transylvanienne, ont certainement été comme un imprinting pour Cioran, cependant même le Cioran adulte expérimente en maintes occasions ce qu’il appelle « le salut par les bras ».[58] Il va jusqu’à sanctifier la fatigue physique, car, en abolissant la conscience, elle empêche l’inertie mentale qui aboutit au cafard.[59] Finalement, il caresse un rêve :

 avoir une «propriété », à une centaine de kilomètres de Paris, où je pourrais travailler de mes mains pendant deux ou trois heures tous les jours. Bêcher, réparer, démolir, construire, n’importe quoi, pourvu que je sois absorbé par un objet quelconque – un objet que je manie. Depuis des années déjà, je mets ce genre d’activité au-dessus de toutes les autres ; c’est elle seule qui me comble, qui ne me laisse pas insatisfait et amer, alors que le travail intellectuel, pour lequel je n’ai plus de goût (bien que je lise toujours beaucoup, mais sans grand profit), me déçoit parce qu’il réveille en moi tout ce que je voudrais oublier, et qu’il se réduit désormais à une rencontre stérile avec des problèmes que j’ai abordés indéfiniment sans les résoudre.[60]

D’après le Zen, l’esprit quotidien est la Voie (chinois : Tao, japonais : Do). Donc, soutient Lin-tsi, il n’y a rien de spécial à faire (wu-shih) : « allez à la selle, pissez, habillez-vous, mangez, et allongez-vous lorsque vous êtes fatigués. Les fous peuvent rire de moi, mais les sages savent ce que je veux dire ». [61] Les maîtres Zen, sans différences de rang, s’occupaient des champs, du ménage, préparaient les repas, de telle sorte qu’aucun travail manuel n’était pour eux humiliant. Pendant ces activités, ils donnaient leçons pratiques aux disciples ou bien ils répondaient à leurs interlocuteurs de manière tranchante…

Chao-chou était occupé à nettoyer lorsque survint le ministre d’État Liu, qui, en le voyant si occupé, lui demanda : « Comment se fait-il qu’un grand sage, comme vous, balaye la poussière ? » « La poussière vient d’ailleurs », répondit promptement Chao-chou. Une fois reconquise l’esprit originaire, alors chaque chose, même la plus prosaïque, s’illumine d’immensité : « Faculté miraculeuse et merveilleuse activité ! / Je tire l’eau du puits et fends le bois ! ».[62]

  1. Tuer le Bouddha

Afin de voir le visage originaire qui précède la naissance, il nous faut encore surmonter un dernier obstacle, peut-être le plus ardu, puisqu’il s’agit de la sainte figure de l’Éveillé, le Bouddha même. S’il est vrai que, comme l’écrit le dernier Cioran, « Tant qu’il y aura encore un seul un dieu debout, la tâche de l’homme ne sera pas finie »[63], alors le Zen a accompli sa mission depuis longtemps. Il y a mille deux cents ans, Lin-tsi exhorta ses disciples à ne rien chercher en dehors de soi-même, ni le Dharma, ni le Bouddha, ni aucune pratique ou illumination. Il ne faut seulement avoir une infinie confiance dans ce qu’on vit à chaque instant, le reste est une fuite illusoire de l’esprit qu’il faut éviter à tout prix. C’est comme si nous avions une autre tête au-dessus de celle-là que nous portons déjà.

Disciples de la Voie, si vous voulez percevoir le Dharma en sa réalité, simplement ne vous faites pas tromper par les opinions illusoires des autres. Peu importe ce que vous rencontriez, soit au-dedans soit au dehors, tuez-le immédiatement : en rencontrant un bouddha tuez le bouddha, en rencontrant un patriarche tuez le patriarche, en rencontrant un saint tuez le saint, en rencontrant vos parents tuez vos parents, en rencontrant un proche tuez votre proche, et vous atteindrez l’émancipation. En ne vous attachant pas aux choses, vous les traversez librement.[64]

Cioran talonne Lin-tsi sur cette voie, lorsqu’ il affirme qu’ « être rivé à quelqu’un, fût-ce par admiration, équivaut à une mort spirituelle. Pour se sauver, il faut le tuer, comme il est dit qu’il faut tuer le Bouddha. Être iconoclaste est la seule manière de se rendre digne d’un dieu ».[65] Moines qui crachent sur l’image du Bouddha[66] ou qui en brûlent la statue de bois pour se réchauffer, l’utilisation des écritures sacrées comme papier hygiénique, etc. : là où les autres confessions ne voient que sacrilèges, le zen voit des actes vénérables. Une telle fureur iconoclaste se révèle plus nécessaire que jamais, puisque implique une pratique de la vacuité universelle. L’invitation de Lin-tsi à nous allonger, sans attachement, sur la réalité des phénomènes, détruit à la racine n’importe quelle séparation entre sacré et profane, entre nirvāna et samsāra, entre illumination et ignorance. Cioran l’a bien compris, lorsqu’il nous exhorte à « Aller plus loin encore que le Bouddha, s’élever au-dessus du nirvâna, apprendre à s’en passer…, n’être plus arrêté par rien, même par l’idée de délivrance, la tenir pour une simple halte, une gêne, une éclipse… ».[67]

L’élégance suprême et paradoxale du Zen, ce qui le rend supérieur à n’importe quelle autre expérience spirituelle, c’est sa capacité, après avoir tout démoli, à se démolir lui-même, tranquillement. Une fois « plongé » dans la littérature Zen, et après en avoir assimilé la leçon, Cioran flaire le danger et comprend que le moment est venu de s’en détacher. L’expérience de la vacuité doit provenir de soi-même, de ses sensations : « Sur le satori, on ne lit pas ; on l’attend, on l’espère ».[68]

« Les montagnes sont de nouveau des montagnes, les eaux de nouveau des eaux  »… à quoi bon s’efforcer d’obtenir quelque chose ?

Le spectacle de la mer est plus enrichissant que l’enseignement du Bouddha.[69]

NOTES:

[1] Cioran, De l’inconvénient d’être né, in Œuvres, Paris, Gallimard, coll. « Quarto », 1995, p. 1400. Toutes les références  aux œuvres de Cioran sont extraites de cette édition, alors que les œuvres d’autres auteurs sont tirées d’éditions italiennes, sauf exception notifiée le cas échéant. Les traductions sont de l’Auteur (T.d.A.).

[2] D.T. Suzuki avait déjà tenté un premier parallèle entre la Genèse et le bouddhisme : « L’idée judéo-chrétienne de l’Innocence est l’interprétation morale de la doctrine bouddhiste de la Vacuité, qui est métaphysique ; alors que l’idée judéo-chrétienne de la Connaissance correspond, du point de vue épistémologique, à la notion bouddhique de l’Ignorance, encore que l’Ignorance soit superficiellement le contraire de la Connaissance », in D.T. Suzuki, « Sagesse et vacuité », Hermès, n° 2 « Le vide. Expérience spirituelle en Occident et en Orient », Paris, 1981, p. 172.  

[3] De l’inconvénient d’être né, p. 1372.

[4] Ibid., p. 1399.

[5] Ibid, p. 1346.

[6] La Chute dans le temps, p. 1076.

[7] Ibid, p. 1073.

[8] Histoire et utopie, p. 128.

[9] De l’inconvénient d’être né, p. 1283.

[10] Cahiers. 1957-1972, Paris, Gallimard, coll. « Blanche », 1997, p. 139.

[11] Ibid., p. 156.

[12] Houeï-nêng (638-713), le sixième patriarche fondateur de l’école Ch’an du sud, se demande : « Qu’est-ce qu’est le wu-nien, l’absence de pensée ? Voir toutes les choses, pourtant maintenir notre esprit pur de chaque tache et de chaque attachement – celle-ci est l’absence de pensée » cit. in D.T. Suzuki, La dottrina Zen del vuoto mentale, Astrolabio-Ubaldini, Roma, p. 105. (T.d.A.). Takuan Sōhō (1573-1645), maître japonais de l’école Rinzai-shu, écrit : « En réalité, le vrai Soi est le soi qui existait avant la division entre ciel et terre, et avant encore la naissance du père et de la mère. Ce soi est mon soi intérieur, les oiseaux et les animaux, les plantes et les arbres et tous les phénomènes. C’est exactement ce que nous appelons la nature du Bouddha », cit. in Takuan Sōhō, La mente senza catene, Rome, Edizioni Mediterranee, 2010, p. 109 (T.d.A.). Le non-né ou non-produit est un terme forgé par le maître japonais Bankei (1622-1693) pour indiquer l’esprit bouddhique, antérieur à la scission opérée par la conscience.

[13] Cahiers, op. cit., p. 728.

[14] « J’ai l’intention d’écrire un essai sur cet état que j’aime entre tous, et qui est celui de savoir qu’on ne pense pas. La pure contemplation du vide. » Ibid., p. 300.

[15]Ibid., p. 298. À cette occasion, Cioran décrit ainsi son interlocuteur : « Extrêmement intelligent et insaisissable. Son mépris total pour les Occidentaux. J’ai eu nettement l’impression qu’il m’était supérieur, sentiment que je n’ai pas souvent avec les gens d’ici. »

[16] Ibid., p. 364.

[17] Ibid., p. 366.

[18] Ibid., p. 457.

[19] De l’inconvénient d’être né, p. 1281.

[20] Cahiers, op. cit., p. 94.

[21] Ibid., p. 119.

[22] Littéralement « ce qui est ainsi », ou bien, voir les choses telles qu’elles sont. Dans l’interview avec Christian Bussy, réalisée à Paris le 19 février 1973 pour la télévision belge, Cioran argumente : « Je crois effectivement que voir les choses telles qu’elles sont rend la vie presque intolérable. En ce sens que j’ai remarqué que tous les gens qui agissent ne peuvent agir que parce qu’ils ne voient pas les choses telles qu’elles sont. Et moi, parce que je crois avoir vu, disons, en partie les choses comme elles sont, je n’ai pas pu agir. Je suis toujours resté en marge des actes. Alors, est-ce qu’il souhaitable pour les hommes de voir les choses telles qu’elles sont, je ne sais pas. Je crois que les gens en sont généralement incapables. Alors, il est vrai que seul un monstre peut voir les choses telles qu’elles sont. Puisque le monstre, il est sorti de l’humanité ». Le texte nous a été fourni par Christian Bussy, que nous remercions.

[23] Cf. Takuan Sōhō, Op. cit., p. 31.

[24] D.T. Suzuki, Saggi sul buddismo Zen, Rome, Edizioni Mediterranee, 1992, vol. I, p. 282. La peinture à l’encre noire (sumi-e) se produit sur du papier de riz, rêche, mince et assez absorbant, cela ne permet pas d’avoir des mouvements de pinceau hésitants, car il en résulterait des taches: il faut que le peintre agisse soudainement et avec netteté, sans revirements, comme s’il maniait une épée.

[25] Takuan Sōhō, Op. cit., p. 31.

[26] De l’inconvénient d’être né, p. 1289.

[27] Cahiers, op. cit., p. 437.

[28] Ibid., p. 295.

[29] Ibid., pp. 437 et 674.

[30] Izutsu, La filosofia del buddismo zen, Rome, Astrolabio-Ubaldini, 1984, p. 40 (T.d.A.). Le kōan, (en chinois : kung-an), est un terme Zen qui désigne une sorte de problème ou casse-tête, intentionnellement illogique, donné par le maître comme sujet de méditation pour l’élève. Celui-ci, en se tourmentant à cause de cette énigme insoluble, se trouvera bientôt face à une barrière insurmontable, sans issue, jusqu’ il se mette à désespérer de chaque solution logique et discursive possible. Devant l’évidence du vide, la conscience abdique, et se met au niveau de compréhension qu’implique tout être concret, en tant que corps et en tant qu’esprit. Il en résulte la production de la seule réponse possible, qui coïncide avec le retour à la réalité, au flux inconscient de la vie qui depuis toujours nous soutient.

[31] Suivant un célèbre kōan : « Avant qu’une personne n’étudie le Zen, les montagnes sont les montagnes, les eaux sont les eaux. Après un premier aperçu de la vérité du Zen, les montagnes ne sont plus les montagnes, les eaux ne sont plus les eaux. Après l’éveil, les montagnes sont de nouveau des montagnes, les eaux de nouveau des eaux »

[32] Suzuki, La dottrina zen del vuoto mentale, op. cit., p. 91. « La phrase la plus célèbre de Tu-shan était ‘‘Trente coups quand tu peux dire un mot, trente coups quand tu ne peux pas dire un mot !’’ ‘‘Dire un mot’’ c’est une expression presque technique du Zen et signifie n’importe quelle chose démontrée soit par les mots, soit par les gestes, au sujet du fait central du Zen. Dans ce cas ‘‘donner un coup’’ signifie que toutes ces démonstrations ne sont d’aucune utilité. » Ibid.

[33] Interview de Christian Bussy à Cioran, réalisée à Paris le 19 février 1973.

[34] Cahiers, op. cit., p. 642.

[35] D. T. Suzuki, Saggi sul buddismo Zen, Rome, Edizioni Mediterranee, 1992, vol. I, p. 216.

[36] Cf. Leonardo Vittorio Arena, Storia del buddismo Ch’an, Milan, Mondatori, 1998, pp. 190-191.

[37] E.M. Cioran, « Hantise de la naissance », La Nouvelle Revue Française, n° 217, Paris, janvier 1971, p. 15. Il est caractéristique que dans la première version de cet aphorisme, Cioran utilise justement le mot Zen satori, tandis que dans la version suivante publiée dans De l’inconvénient d’être né, il la remplace par le terme de dérivation mystique « suprême ».

[38] L’amour traditionnel pour les fleurs de cerisier est un exemple typique de mono no aware dans le Japon contemporain. Esthétiquement, ces fleurs ne sont pas plus belles que celles du poirier ou du pommier, cependant ils sont les plus appréciés par les japonais pour leur caractère transitoire. En effet, ces fleurs commencent à tomber habituellement une semaine après leur épanouissement. Les fleurs de cerisier font objet d’un véritable culte au Japon, rituellement, toutes les années une foule énorme  envahit les champs pour en admirer la floraison.

[39] Cahiers, op. cit., p. 748.

[40] Cioran, Écartèlement, p. 103 : « On ne peut être content de soi que lorsqu’on se rappelle ces instants où, selon un mot japonais, on a perçu le ah ! des choses. » Cette exclamation reprend l’Entretien avec Léo Gillet : « Ça, on peut le sentir, mais on ne peut pas l’exprimer en paroles, sauf dire : ‘‘Ah ! indéfiniment […] on ne peut pas formuler abstraitement une chose qui doit être vraiment sentie’’ », in Cioran, Entretiens, Paris, Gallimard coll. « Arcades », 1995, p. 94.

[41] Cf. Leonardo Vittorio Arena, Lo spirito del Giappone, Milan, BUR, 2008, pp. 376-377.

[42] Cahiers, op. cit., p. 996.

[43] Ibid., p. 170.

[44] Ibid., p. 568.

[45] De l’inconvénient d’être né, p. 1288.

[46] Cahiers, op. cit., p. 674.

[47] Ibid., p. 323. À ce propos, selon Izutsu : « Le Zen demande vigoureusement que même une telle quantité de conscience du moi soit effacée de l’esprit, de même que finalement tout soit réduit au seul acte de VOIR pur et simple. Le mot ‘‘non-esprit’’, déjà mentionné, se réfère précisément à l’acte pur du VOIR, dans l’état d’une réalisation immédiate et directe », La filosofia del buddismo zen, p. 30.

[48] C’est-à-dire : « quelle est la vérité fondamentale du Zen ? ».

[49] Cfr. Izutsu, La filosofia del buddismo zen, op. cit., p. 160.

[50] De l’inconvénient d’être né, p. 1383.

[51] Cahiers, op. cit., p. 298.

[52] Cioran, Cahier de Talamanca – Ibiza (31 juillet-25 août 1966), Paris, Mercure de France, 2000, p. 30.

[53] Cahiers, op. cit., p. 298.

[54] Cahier de Talamanca, op. cit., p. 13.

[55] Cioban : berger en roumain. Dans la lettre à Arşavir Acterian du 11 juillet 1972, il avoue : « … je serais plus dans le vrai aujourd’hui si j’avais fait une carrière de cioban dans mon village natal plutôt que de me trémousser dans cette métropole de saltimbanques », in Emil Cioran, Scrisori cãtre cei de-acasă, Bucarest, Humanitas, 1995, p. 215 (T.d.A.).

[56] Cahiers, op. cit., p. 101.

[57] Ibid., p. 137.

[58] Ibid., p. 298.

[59] Ibid., p. 101.

[60] Ibid.,  p. 851.

[61] La Raccolta di Lin-chi (Rinzai Roku),  trad. par Ruth Fuller Sasaki, Rome, Astrolabio-Ubaldini, 1985, p. 30.

[62] Verset du poète zen P’ang-yun, cité in Alan W. Watts, The Way of Zen, trad. it, La via dello Zen, Feltrinelli, Milano,  2000, p. 145 (T.d.A.).

[63] Cioran, Aveux et anathèmes, p. 1724.

[64] La Raccolta di Lin-chi, op. cit., p. 46.

[65] Cahiers, op. cit.,  p. 994.

[66] Cioran cite l’anecdote dans ses Cahiers, op. cit., p. 869.

[67] De l’inconvénient d’être né, p. 1396.

[68] Cahiers, op. cit.,  p. 306.

[69].Lettre à Arşavir Acterian du 13 juillet 1986, Cioran, Scrisori cãtre cei de-acasă, op. cit., p. 241(T.d.A.).

“O pensamento insuportável de Emil Cioran”, por João Maurício Barreiro Brás

O pensamento insuportável de Emil Cioran

João Mauricio Barreiros Brás, investigador CLEPUL (Faculdade de Letras de Lisboa)

Resumo: Cioran é um pensador incontornável do século XX. Pela originalidade do seu pensamento mas também pela recuperação de uma lição antiga. Pensar e viver são inseparáveis. O filósofo funcionário é um pensador estéril. Vive-se e pensa-se sobre o que se vive, e esse pensar retorna à vida, como experiência e promessa de sabedoria. Este é um filósofo existencial, não existencialista, que retoma as antigas lições gregas, um cínico do século XX que não foi incorporado pela máquina trituradora do cânone Ocidental, democrático e neoliberal. Pertence a uma corrente marginal da filosofia que não faz parte da versão oficial, mas não é por isso menos importante, e situa-se entre todos aqueles que colocam reservas em relação à legitimidade da existência humana, e que vão de Theognis e Diógenes até Nietzsche.

Palavras chave: Cioran, Pensamento, existência humana

Abstract: Cioran is an inescapable thinker of the 20th century. For originality of this thought but also by retrieving an ancient lesson. Thinking and living are inseparable. The philosopher-employee is a sterile thinker. Living and thinking about the existence, so that this knowledge returns to life, as an experience and promise of wisdom. This is an existential philosopher, not a Existentialist, which resumes the ancient Greek Philosophy lessons. This is a cynic of the 20th century, it was not incorporated by the shredder of the Western Canon, liberal and democratic. Belongs to a marginal current of philosophy, incompatible with official version, but that’s not less important. Cioran lies between all those who place reservations about the legitimacy of human existence, in a lineage that goes from Theognis and Diogenes to Nietzsche.

Key-words: Cioran, thinking, human existence

Ler as obras de um filósofo, não é um ato passivo, mas um diálogo, tanto mais fecundo, quanto nos transforma e perturba. Emile Cioran foi um homem livre e lúcido como não sabemos e não conseguimos ou mesmo não podemos ser. A descoberta generalizada deste autor começa na década de oitenta do século XX. Fernando Savater foi e é um
dos seus principais divulgadores, a sua tese de doutoramento é sobre o pensamento de Cioran, o que na época e na academia espanhola suscitou a duvida se não se trataria de uma provocação ou partida, se não estaria a inventar um filósofo inexistente. Atualmente a adjetivação da sua obra e pensamento está porventura esgotada, faltará ainda algo mais, debate-lo e para os mais ousados praticá-lo. Na verdade não é possível lê-lo sem praticar uma certa militância ou optar pelo desdém e desvalorização, ou na pior das hipóteses, fazer de Cioran uma moda, citar umas passagens da sua obra e ter umas frases sempre à mão. Não há contudo autor mais sério. Não se trata de uma seriedade enfatuada e estéril, de uma técnica, de uma doutrina ou jargão sobre uma área ou domínio do conhecimento… [texto integral

 

O princípio de estilo (Patrice Bollon)

Dossiê "Cioran, aristocrata da dúvida" (Magazine Littéraire, 12/1994)
Dossiê “Cioran, aristocrata da dúvida” (Magazine Littéraire, 12/1994)

Cinismo? Ceticismo? Estoicismo? Há uma “filosofia de Cioran”? Não de maneira sistemática, mas um princípio de autenticidade e de estilo. Da elegância como ética…

Por Patrice Bollon*

Artigo publicado na Magazine Littéraire (dossiê “Cioran, aristocrate du doute”) nº 327, dezembro de 1994

“Nada mais irritante que essas obras nas quais se coordena as ideias densas de um espírito que visa a tudo, menos ao sistema.  Para que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, sob o pretexto de que elas giram ao redor de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo buscar nele uma vontade de ordem, uma preocupação pela unidade. Cativo de seus humores, ele registrou suas variações.  Em sua filosofia, meditação sobre  seus caprichos, os eruditos querem  discernir as constantes que ela recusa.” Nada fácil, após esta passagem de La tentation d’exister, evocar como toda a inocência uma “filosofia de Cioran”. Tanto mais quanto impressiona logo de entrada a impossibilidade quase que radical de vinculá-lo inteiramente a uma das três ou quatro grandes tradições filosóficas derivadas do mundo grego, às quais se resume facilmente o seu pensamento – todo o resto, sejam os sistemas, não sendo a seus olhos, vão exercício de definição, “pequenos universos inverossímeis”.[1]

Um cético singular, com efeito, um “aristocrata da dúvida” mesmo que, a crer nele, não cesse de sentir a falta da força da ilusão, ou então que deplore o colapso desses “preconceitos” obscuros que fundam as grandes civilizações – inclusive enxergando nesse fato a explicação de sua “decadência” –, ele que pensa que “tudo o que conta foi feito fora da dúvida!”[2] Libertário paradoxal, também, que faz o elogio dos tiranos – “Um mundo sem tiranos seria tão enfadonho quanto um zoológico sem hienas”, escreve ele em História e Utopia –, concebe a liberdade como um “vírus” altamente destrutivo, e, ainda assim, chega a fazer louvores a Torquemada e a Nero! Um estoico não menos surpreendente, enfim, admirador de Marco Aurélio, que não pode – e menos ainda quer – refrear seus instintos, confessando em De l’inconvenient d’être né: “Não mais lerei os sábios. Eles me fizeram muito mal. Eu deveria ter me entregado aos meus instintos, deixar florescer a minha loucura. Fiz todo o contrário, pus a máscara da razão, e a máscara terminou por substituir o rosto e por usurpar o resto”!

De fato, é quase o Cioran inteiro que seria necessário citar para dar-se conta dessa posição propriamente insustentável e inclassificável que afirma no mesmo movimento tanto a necessidade da lucidez mais extrema e a necessidade da ilusão mais sombria, tanto a busca quietista da sabedoria e o recurso primitivo aos instintos, tanto ao elã místico quanto o apego ao materialismo ou, a fortiori, tanto o progresso quanto a inelutabilidade romântica da revolta…

Uma “soma de atitudes”, uma “meditação sobre seus caprichos” – não são estas perfeitas definições de sua maneira de pensar? Conforme comenta Susan Sontag, em Sob o signo de Saturno, o estilo aforístico de Cioran difere, com efeito, daquele da grande escola moralista de Chamfort e La Rochefoucauld na medida em que, representando “menos um princípio ontológico que um princípio epistemológico”, ele “manifesta que o destino de toda ideia profunda é de ser rapidamente ‘derrotada’ por uma outra, cuja existência estava implicitamente contida na primeira”. Pensar tornar-se assim, para ele, “uma confissão, um exorcismo”, no qual toda ideia de verdade definitiva, ultima, só pode, por definição, estar ausente, a favor da representação de um balanço contínuo, inevitável, entre um postulado e todos os limites que o exercício da lucidez lhe impõe. Em suma, no horizonte de Cioran não há nada de “filosofia” no sentido próprio do termo, e menos ainda, certamente, de “sistema”; em vez disso, uma “soma de atitudes” voluntariamente, dir-se-ia necessariamente contraditórias, já que refletem os meandros de uma alma atormentada pela busca de “sua” verdade.

O que Cioran não apenas ilustrou incessantemente em seus aforismos, mas também, mais de uma vez, se não “teorizou”, ao menos “pensou” – e isso, desde seus primeiros livros –, até fazer disso uma razão de rejeitar a filosofia.  Assim, pode-se ler, no Breviário de decomposição, um “adeus à filosofia” particularmente violento, ao qual se opõe, alguns capítulos depois, um elogio de evidencia autobiográfica do “pensador de ocasião”. “Aquele que pensa quando quer”, escreve assim Cioran numa veia que faz lembra r Schopenhauer de Contra a filosofia universitária, “não tem nada a dizer-nos: está acima, ou melhor, à margem de seu pensamento, não é responsável por ele, nem está em absoluto comprometido com ele, pois não ganha nem perde num combate em que ele mesmo não é seu próprio inimigo. Não lhe custa nada crer na Verdade.” O que equivale, para Cioran, a definir implicitamente sua própria atitude de “pensador de ocasião”, cujas verdades, não sendo mais que os “sofismas de (seu) entusiasmo ou de (sua) tristeza”, formam com ele uma só realidade, lado prazeres assim como lado sofrimentos: “Tudo o que concebi se resume a mal-estares degradados em generalidades”.

Condenado a “se constatar, como os enfermos e os poetas”, não saberia o pensador jamais ser outra coisa que uma espécie de “secretário de suas sensações”, cronista-memorialista de sua alma, cujo propósito residiria tão-somente no estabelecimento de verdades altamente subjetivas e marcadas pelo instante em que elas se impõem a ele, portanto transitórias e flutuantes? Cioran não hesita em ir ainda mais longe, fazendo da contradição a única matéria possível do pensamento: “Um espírito só nos cativa”, escreve ele ainda no Breviário de decomposição, “por suas incompatibilidades, pela tensão de seus movimentos, pelo divórcio de suas opiniões e suas tendências. […] Um pessimista sem entusiasmos, um agitador de esperanças sem amargura, merece apenas desprezo. Só é digno de nosso apego quem não tem nenhum respeito com seu passado, com o decoro, a lógica ou a consideração […] Apóstolo de suas flutuações, já não se embaraça com um si mesmo ideal; seu temperamento constitui sua única doutrina, e o capricho de cada hora seu único saber.”

Em suma, poder-se-ia satisfazer-se de fazer de Cioran um destes “pensadores” do capricho (em oposição a “filósofo”, por definição, mais “objetivo”) destinado aos escritores (“Os filósofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores”, Écartèlement), ou ainda – filiação evidente e que ele reivindica em diversos momentos de sua obra – um “cínico” no sentido grego, original, do termo, seja, como o definiu Peter Sloterdijk em sua Crítica da Razão Cínica, uma “mímica” de seu próprio metabolismo físico e mental; e tudo seria dito sobre sua “filosofia”. Nada evidente, contudo. Pois esse “processo de pensamento”, conforme o nomeia justamente Susan Sontag, que seus aforismos retraçam fielmente, à maneira de um sismógrafo, não apenas comporta diversas “constantes”, mas também desenha, talvez, senão um sistema ou um esboço de sistema, uma “via” filosófica (da mesma maneira que esse budismo que ele constantemente evoca fala de um “caminho” do despertar).

Desafiando o interdito que impedia seu desenvolvimento sobre Nietzsche, voltemo-nos, para definir essa via, ao parece que parece ser muito bem a contradição fundamental de Cioran: o combate da lucidez contra a fé, e, mais ainda, do ceticismo contra um vitalismo jamais renegado desde seus primeiros livros romenos – notadamente, o bastante romântico Nos cumes do desespero. Desse “esquartejamento” (écartèlement), que deveria inclusive fornecer-lhe significativamente o título de um de seus livros, nasce, com efeito, todo o seu pensamento, tanto no que concerne àquela que se poderia apontar como sendo sua posição política, a meio-caminho, quase – na medida em que isso for possível – no meio entre um ceticismo conservador e um anarquismo revoltado, quanto a sua atitude diante de Deus, dividida entre o respeito do divino e um elã místico, por um lado, e o ateísmo, dir-se-ia uma vontade blasfematória, por outro – e não é uma das últimas sentenças que ele escreveria, em Aveux et Anathèmes, este verdadeiro slogan anarquista? “Enquanto ainda houver um só deus de pé, a tarefa do homem não terá terminado.”

Não haveria, não se poderia então haver ai alguma “resolução” – no sentido de que se fala, na música, de um acorde “resolvido” (un accord résolu) – a esse conflito central, que implica fatalmente a suspensão, a abstenção de todo juízo, e, portanto, a uma espécie de deserção da vida? E convergiria tudo a esse pessimismo integral, a esse reconhecimento do sem-sentido de tudo, ao qual a maioria dos comentadores de Cioran, em última instância, parece se resignar? Eis, aparentemente, uma interpretação insuficiente, que consiste no objeto mesmo, da parte do interessado, em diversas partes de sua obra,… de uma refutação em sua devida forma! “Quanto mais leio os pessimistas”, escreveu ele então em 1937, em Lágrimas e Santos, “mais eu amo a vida. Após uma leitura de Schopenhauer, reajo como um noivo. Schopenhauer tem razão de dizer que a vida não passa de um sonho. Mas ele comete uma inconsequência grave quando, em vez de encorajar as ilusões, as desmascara levando a crer que existiria algo por detrás delas.” Em suma, mesmo o pessimismo não saberia oferecer, aos olhos de Cioran, um horizonte ao seu pensamento, ao pensamento em geral!…

De fato, um princípio permite superar bem todas essas contradições incessantes que Cioran vive e exprime: a necessidade de lhes dar uma voz, seja a busca de uma autenticidade imediata, de uma “elegância moral” (“A verdadeira elegância moral reside na arte de transformar suas vitórias em derrotas”, Écartèlement), que reflete também a elegância da expressão: em suma, aquilo que se poderia nomear de um “princípio de estilo”. Seria necessário, então, paradoxalmente, ir em direção a isso que se considera habitualmente como um “plus”, ou um simples “envelope” de uma obra para descobrir tanto o centro verdadeiro quanto a contribuição última da obra de Cioran: o estilo.

Para convencer-se disso, convém reler, certamente com um mínimo de perversidadef, o que permanece sem dúvida o mais belo, ainda que aparentemente o mais excêntrico, o mais “antiquado”, nem mesmo isento de certa insolência, dos seus Exercícios de admiração: aquele que ele consagra ao pensador que, por seu quietismo e sua moderação, parece o mais distante dele, Valéry. Em “Valéry diante de seus ídolos”, encontra-se, com efeito, em estado de esboço, todo um pensamento do vínculo que pode unir lucidez e materialismo, de um lado, e poesia e misticismo, de outro. Nesse verdadeiro “pedaço de bravura”, no qual seu estilo, talvez, nunca tenha sido significativamente tão brilhante, Cioran traça um paralelo entre a ascese que representa a exigência da lucidez e “o grau de despertar que toda experiência espiritual supõe” – sendo que a única e mais radical diferença entre os dois é que a primeira se situa “para cá do absoluto”, enquanto que a segunda, “que é propriamente a via mística”, busca o despertar “em vista do absoluto”: “todo analista impiedoso, todo denunciador de aparências, e com maior razão todo “niilista”, não é mais do que um místico bloqueado, e isso porque se recusa a dar um conteúdo a sua lucidez, dirigi-la no sentido da salvação, associando-a a um desígnio que a ultrapassa”.

Um “místico bloqueado”, e quase, poder-se-ia acrescentar, sem contradição, um “místico realista”, uma vez que para ali onde recomeçaria a ilusão: não seria essa a melhor definição – quase um autorretrato íntimo – de quem, como Cioran, busca na lucidez um princípio superior? Assim poder-se-ia definir o espaço de uma resolução de suas contradições, em suma, o horizonte de uma filosofia – a saber, uma espécie de “ética da elegância”, não muito distante, na  verdade, do famoso “estágio estético” de Kierkegaard, porém, ultrapassando-o, e cujo “modelo histórico” deveria ser buscado tanto na Grécia revisitada por Nietzsche quanto nessa França do século XVIII com a qual Cioran tanto sonhara e na qual tanto se obstinara, por meio da escritura, a ressuscitar.

Nada fácil, certamente, fixar uma matéria tão volátil quanto essa “filosofia do estilo”. O melhor que se pode fazer é circunscrever os limites com a ajuda de algumas máximas. “É fácil ser ‘profundo’; basta deixar-se invadir pelas próprias taras”, escreve Cioran nos Silogismos da Amargura. No mesmo movimento em que afirma a necessidade da lucidez, Cioran se recusa a deixar-se enredar-se nas profundezas que, “sendo naturalmente sem fundo, não podem levar a nenhum lugar” (Breviário). Por que, a partir de então, não prestar culto às aparências, como a este fim poderia conduzir essa outra frase famosa, ela também extraída dos Silogismos: “Sonho com um mundo em que se morreria por uma vírgula”? É porque para Cioran, o realista, isso seria bascular uma vez mais numa realidade tão profunda quanto aquelas que, por outro lado, ele denuncia.

Todas essas ideias não são, em realidade, novas: elas já se encontram na introdução da Gaia Ciência de Nietzsche, quando este observa que os gregos souberam ser “superficiais por profundidade”. Quanto à ascese que representa o estilo, era ela que autorizou Baudelaire a identificar no dândi um herdeiro dos estoicos. Como não perceber, então, na reivindicação de Cioran da “inutilidade” – sem dúvida, uma das palavras que mais incidem sob sua pena –, um eco de certos motivos de O meu coração a nu: “Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo”? Como o artista, para Baudelaire, o pensador lúcido, para Cioran, não podendo decidir por nenhuma posição definitiva que seja, é o homem estéril por excelência, que inclusive extrai de sua esterilidade reivindicada o seu valor, ou seja, poder-se-ia dizer, seu “heroísmo”. A única diferença é que, em Cioran, para parafrasear o célebre aforismo de Baudelaire, “Tu me deste tua lama e eu a transformei em ouro”, o “ouro” da linguagem conserva, deve conservar um resto de “lama” metafísica – o que se situa para além do dandismo: nessa espécie de “santidade civil”, que era, ademais, para os estoicos, a definição da realização filosófica e que Cioran nunca cogitou reivindicar para ele mesmo, preferindo, em seus Exercícios de admiração, elegante no mais alto nível, exaltá-la como Wittgenstein ou como seu amigo Beckett…

*Tradução do francês: Rodrigo Menezes (02/08/2013)


[1] Exercícios de admiração.

[2] De l’inconvenient d’être né.

Les nuits blanches de Cioran (R. Jaccard)

La fadeur du suicide

Au cours de ces nuits blanches à Sibiu, Cioran se fit le géographe de ses propres effondrements, il apprit à saisir en lui-même le démon. Sa philosophie, ” infestée ” par son moi, se devait désormais d’être une exploration des trois grandes hantises de l’homme : la maladie, la solitude et la folie (” Le pressentiment de la folie se double de la peur de la lucidité dans la folie, la peur des moments de retour à soi, où l’intuition du désastre risque d’engendrer une folie encore plus grande. C’est pourquoi il n’y a pas de salut par la folie. On aimerait le chaos, mais on a peur de ses lumières. “)

Après un tel rugissement de désespoir, même le suicide paraît plein de fadeur. Exacerbée, la lucidité va plus loin que le suicide : elle crucifie celui qui se donne à elle, mais elle lui laisse la vie sauve et des nuits blanches pour laver ses blessures.

Cioran voulait être le cobaye de sa philosophie. C’est cette hâte de s’écorcher, cette impatience de découvrir le pire, qui donnent à son premier livre une “sincérité infernale “. Sur les cimes du désespoir est à l’oeuvre de Cioran ce que les Mémoires écrits dans un souterrain sont à celle de Dostoïevski : le récit d’un ratage qui sauve. La formule de l’homme souterrain : ” Une conscience clairvoyante, je vous assure, messieurs, c’est une maladie, une maladie très réelle “, on croit entendre Cioran la prononcer avec l’accent des Carpates.

Commencer une oeuvre par l’affirmation : je suis perdu pour la vie et j’ai perdu foi en la philosophie, tel est le paradoxe de Cioran. C’est pourtant ce reniement de soi, ce geste d’autodestruction, qui permet l’oeuvre à venir. Le sentiment de rupture totale, la négativité forcenée, le désir inouï de dévastation, ouvrent la voie au détachement.

Plus tard, quand il commença d’écrire en français, Cioran loua, chez le moraliste idéal, l’homme capable de lyrisme et de cynisme, d’exaltation et de froideur, habile à rassembler sous les mêmes cieux Rousseau et Laclos, Vauvenargues et Sade.

Aux nuits blanches de Sibiu devaient succéder les nuits blanches du Luxembourg. Cioran abandonna le roumain. Sur les cimes du désespoir, ce suicide halluciné, lui avait permis de faire la connaissance des gouffres. Si, tel un fauve qui se camoufle, il adopta la langue française, ce fut, de son propre aveu, dans le souci de concilier l’enfer et le tact.

ROLAND JACCARD
© Le Monde 1999
Le 30 Mars 1990