O Diabo, filantropo funesto (E.M. Cioran)

PLANEJAR uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos…

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“Cioran: pensador-cantor com uma alma perdidamente musical” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Não se pode eludir a existência com explicações, só se pode suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorá-la ou temê-la, nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres.” (Breviário de decomposição) “Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia:…

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“Retrato do civilizado” (E.M. Cioran)

“Portrait du civilisé” é o segundo ensaio de La chute dans le temps (1964),o primeiro sendo “L’arbre de vie” [A árvore da vida], no qual Cioran apresenta a sua exegese pouco ortodoxa do mito do pecado original. O ensaio aqui traduzido dialoga tanto com o livro anterior, História e Utopia (1960), quanto com o seguinte…

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“Não se varre o vazio para debaixo do tapete”: necessidade de estar só, insuficiência humana e autoestima (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Publicado originalmente em Itinerarivm Mentis in Nihilvm:
A psicanalista Maria Homem fala da necessidade de solidão, sobretudo nos tempos atuais em que são estimulados, de maneira maximizada, o gregarismo, o espírito de rebanho, a dependência e a heteronomia em todos os níveis e sentidos, em detrimento de todo ideal de emancipação e autonomia subjetiva. Não…

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Realidade e Irrealidade, ou o “Ecletismo do Sorriso e da Destruição” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Je suis la plaie et le couteau ! Je suis le soufflet et la joue ! Je suis les membres et la roue, Et la victime et le bourreau ! BAUDELAIRE, L’Heautontimoroumenos Si Stavrogin croit, il ne croit pas qu’il croie. S’il ne croit pas, il ne croit pas qu’il ne croie pas. DOSTOIEVSKI, Frères…

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“Desejo e Horror da Glória” avant la lettre (E.M. Cioran)

“Désir et horreur de la gloire” é um dos ensaios que compõem La chute dans le temps (1964), livro que sucede diretamente a História e utopia (1960) no qual este tema (tão “adâmico”) já se encontra enunciado e problematizado, antecipando o que virá a seguir. Trata-se da dualidade-contradição — inconciliável — entre o desejo e…

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Antinatalismo e Mistério (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“O que nos distingue de nossos antepassados é nossa petulância em face do Mistério. Nós até o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo…” (Silogismos da amargura) AFASTA-ME do antinatalismo a total carência do sentido do mistério, o misterioso, no caso, sendo uma categoria teológica ou — a fortiori — mística por excelência — e perfeitamente fora…

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“Cioran, entre filosofia e poesia: ambivalência, hibridismo, temeridade” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Já que tudo o que se concebeu e empreendeu dede Adão é ou suspeito ou perigoso ou inútil, que fazer? Dessolidarizar-se da espécie? Seria esquecer que nunca se é homem tanto como quando se lamenta sê-lo.” (La chute dans le temps) O “pecado original” de Cioran é ser demasiado filósofo, pensador. Corrijo-me: é não ser…

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Guido Ceronetti por Cioran

GUIDO seria um amante de desequilíbrios disfarçado de erudito? Às vezes isso me convence, mas no fundo não penso assim. Porque, se tem uma nítida preferência pela podridão, por outro lado é igualmente atraído pelo que há de puro na sabedoria visionária ou desesperada do Antigo Testamento. Não traduziu — admiravelmente — Jó, o Eclesiastes,…

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Liberdade, Enfermidade, Utopia (E.M. Cioran)

A LIBERDADE, eu dizia, exige o vazio para manifestar-se; o exige e sucumbe a ele. A condição que a determina é a mesma que a anula. Ela carece de bases: quanto mais completa for, mais vacilará, pois tudo a ameaça, até o princípio do qual emana. O homem é tão pouco feito para suportar a…

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Sobre cinismos, niilismos e terrorismo de Estado (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Com o absurdo não se barganha, não se negocia. “Absurdo”, ou seja, esta palavrinha que nós, modernos, encontramos para maquiar o Mal. Como as explicações teológicas e metafísicas perderam sua razão de ser, não pegaria bem continuar usando tão atávica (e suja) expressão: “o Mal”. “O absurdo” soa melhor, mais moderno, mais filosófico, menos “cristão”… A…

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“A Música é essencialmente triste ou alegre? Uma questão ociosa” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Quando esgotamos os pretextos que incitam à alegria ou à tristeza, conseguimos vivê-las, ambas, em estado puro: nos igualamos assim aos loucos… (Silogismos da amargura) Uma discussão interessante, mas não fecunda, senão ociosa, é entabulada por Clément Rosset em seu livro sobre o tema da beatitude em Nietzsche: Alegria — A Força Maior (1983) —…

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Individuação, dualidade & êxtase musical (Emil Cioran)

Quanto mais e melhor se conhece uma pessoa, mais próximo se está de uma fatal separação dela. O conhecimento separa um ser do outro e anula os grãos de mistério que se encontram em toda existência, por mais medíocre que ela seja. Os homens resistem tão pouco ao conhecimento que, ao cabo de breve tempo,…

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“A Filosofia ao alcance dos centauros” (Ciprian Vălcan)

REVISTA BRASILEIRA, fase VIII, outubro/novembro 2014, ano III, no. 81, p. 91-104. Aqueles que procuram, nos dias de hoje, defender a importância da Filosofia parecem, já de início, destinados à derrota. Nenhuma das antigas virtudes que animavam os amantes da sabedoria parece servir de referência para apoiar tais excêntricas preocupações. A morte dos ideais foi…

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Cioran e a arte de não fazer nada (Mircea Lăzărescu)

Homens de Letras escrevem romances ou poesia. Os músicos se ocupam da música. Os pintores, da pintura. Neste mundo, a única coisa que restou ao seu alcance, tendo em vista a concepção de vida que ele se criou, era não fazer nada. E foi isto o que ele fez. Não fez nada. Ou seja, após…

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“Racionalismo e mística” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Mede-se a carência de sentido místico de um indivíduo pela necessidade que tem de argumentos para convencer a si mesmo e os demais da existência de Deus. Não apenas essa carência como também o grau de racionalismo. Não apenas os filósofos sofrem desse mal; inclusive os indivíduos religiosos, qualquer que seja a sua crença, o…

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O diretor americano Terrence Malick é autor de uma respeitável obra cinematográfica que inclui filmes Badlands (1973), Além da Linha Vermelha (1998), A Árvore da Vida (2011) e De Canção em Canção (2017), entre outros. Alguns dados biográficos são dignos de nota: nem todos os apreciadores da obra cinematográfica de Malick sabem que ele é filósofo […]

via Proposta de leitura de dois filmes de Terrence Malick pela ótica de Kierkegaard (pt. I) — Leitvras, Escritvras & Poéticas do Fragmento

Kierkegaard, precursor do “Antifilósofo” cioraniano (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

O prefácio de O Desespero Humano (1849) é bastante elucidativo da problemática existencial — e religiosa — colocada pelo pensamento kierkegaardiano, e também da sua divisa intelectual existencial-religiosa em oposição ao “totalitarismo” racionalista do Espírito absoluto hegeliano. “O professor, o mestre de estudos, o estudante e enfim o filósofo, amador ou formado não ficam na…

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Clément Rosset: sobre sabedoria erudita e sabedoria popular (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Nietzsche, Além do Bem e do Mal “Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no…

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Cioran: solidão, êxtase, solidariedade (Rodrigo Menezes)

Um comentário que sempre me chamou a atenção na entrevista de Cioran a Sylvie Jaudeau, e que me parece uma chave de leitura ao essencial do pensamento insone e errático de Cioran, é o seguinte: “A única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial —…

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Sobre ruídos e “fruição estática” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Por onde começar? Podemos começar de qualquer ponto. É sempre útil examinar o negativo para poder ver claramente o positivo. O negativo do som musical é o ruído. Ruído é o som indesejável. Ruído é a estática no telefone ou o desembrulhar balas do celofane durante Beethoven. Não há outro meio para defini-lo. Às vezes,…

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“O pessimismo dos mamíferos inteligentes” (Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes)

Observou-se justamente que, na Índia, um Schopenhauer ou um Rousseau jamais seriam levados a sério, pois viveram em desacordo com as doutrinas que professavam. para nós, eis aí precisamente a razão do interesse que nos suscitam. O sucesso de Nietzsche é devido em grande parte ao fato de que ele defendeu teorias às quais, em…

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Sobre Revelação e Revolução, religiões utópicas e utopias políticas (E.M. Cioran)

Muitas vezes o reacionário é apenas um sábio habilidoso, um sábio interesseiro que, explorando politicamente as grandes verdades metafísicas, vasculha sem fraqueza nem piedade os segredos do fenômeno humano, para revelar seu horror. Um aproveitador do terrível, cujo pensamento — coagulado pelo cálculo ou pelo excesso de lucidez — minimiza ou calunia o tempo. Mais…

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A Criação fracassada (E.M. Cioran)

Como o mal preside tudo o que é corruptível, o que equivale a dizer tudo o que vive, é uma tentativa ridícula querer demonstrar que ele possui menos ser que o bem, ou que não possui nenhum. Os que o assimilam ao nada imaginam salvar, assim, o pobre deus bom. Só se pode salvá-lo tendo…

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“Hang the DJ” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Será que a inteligência artificial nos tornará uma espécie de Über-marionetes, como sugere John Gray em seu primoroso ensaio sobre a liberdade humana, A Alma da Marionete? Após a notícia de que uma prestigiada casa de leilões de Londres iria leiloar o primeiro quadro pintado por inteligência artificial, desta vez a notícia é de que…

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“Cioran, antípoda de Aristóteles” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

ARISTÓTELES, Tomás de Aquino, Hegel – três escravizadores do espírito. A pior forma de despotismo é o sistema, em filosofia e em tudo. (Do inconveniente de ter nascido) § Beckett, a propósito do Démiurge, me escreve: “Em vossas ruínas, eu me sinto ao abrigo.” (Cahiers) § Não existe filosofia criadora. A filosofia não cria nada. Quero dizer que ela…

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“Necessidade e Contingência, o ‘Irreparavelmente Já Sabido Desde Sempre’ e o Imponderável do Não-Saber Essencial (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer? (Silogismos da amargura) Poucas são as filosofias capazes de equilibrar, numa rara harmonia na tensão, os princípios ontológicos antinômicos da necessidade e da contingência; ora necessidade, ora contingência, ou…

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“Uma modesta proposta” (Jonathan Swift)

É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola. Estas mães, não sendo capazes…

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“Os muros absurdos” (Albert Camus)

Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer. A constância de um movimento ou repulsão dentro da alma se reconhece em hábitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseqüências que a própria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido…

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“Lev Shestov and Kierkegaard” (Nikolai Berdyaev)

The book of L. Shestov about Kierkegaard, 1  beautifully translated into the French language, — is perhaps the finest of his books. It was brilliantly written, just like the greater part of the books of this author. In it his fundamental thought is expressed with the greatest of concentration, but also with the greatest of clarity,…

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“Escola de tiranos [3]” (E.M. Cioran)

Todos os homens são mais ou menos invejosos; os políticos o são completamente. Tornamo-nos invejosos quando já não suportamos mais ninguém nem ao lado nem acima de nós. Engajar-se em qualquer empreendimento, mesmo o mais insignificante, é pactuar com a inveja, prerrogativa suprema dos seres vivos, lei e mola dos atos. Se a inveja te…

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“Nem Buda nem Satanás: Schopenhauer” (Guido Ceronetti)

O belo livrinho dos Colóquios de Schopenhauer, que a Rizzoli publicou nos seus breviários do “Ramo d’oro” com a curadoria apaixonada de Anacleto Verrecchia, tem-me sido recentemente uma ótima companhia de viagem; e com Arthur Schopenhauer, filósofo que muito me ajudou, junto a Montaigne e Espinoza, a formar juízos livres, a viver e a não…

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