“Palestra sobre nada” + História da Romênia na PUC-SP

"Palestra sobre nada", de Euler Santi
“Palestra sobre nada”, de Euler Santi

No dia 25 de outubro de 2013, foi realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) um evento consistindo na apresentação do monólogo “Palestra sobre nada” de Euler Santi e numa conversa informal com Fernando Klabin (tradutor do romeno, tendo sido o responsável pela publicação, no Brasil, de autores romenos como Emil Cioran, Mircea Eliade, Constantin Noica, Nicolae Steinhardt, entre outros) sobre a Romênia: sua história, cultura, língua.

100_1900A apresentação teatral sobre Cioran se destacou, desta vez, por ser feita especialmente para um público acadêmico (estudantes de Filosofia e outras áreas), dentro de um espaço acadêmico, levando a filosofia marginal de Cioran para dentro da universidade. Como não poderia deixar de ser, cada membro do público reage à sua maneira, porém, é impossível que fiquem indiferentes.

Após o espetáculo, teve-se a oportunidade de aprender um pouco sobre a história da Romênia, sua cultura, sua língua, etc. Fernando Klabin, que morou em Bucareste há mais de 10 anos, tendo traduzido de lá para cá importantes nomes da cultura romena (dentre eles, o próprio Cioran, com seu primeiro livro em romeno, Nos Cumes do Desespero). Euler Santi, o ator que interpreta Cioran, também esteve presente para participar da conversa e responder perguntas sobre o espetáculo.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Fernando Klabin falou sobre a configuração geopolítica da Romênia, a especificidade geográfica e cultural da região da Transilvânia, em que Cioran nasceu, em relação aos outros grandes territórios que compõe o espaço nacional da Romênia, a Valáquia e a Moldávia. Sua proximidade com a Europa central e sua inserção no espectro de domínio do Império Austro-Húngaro, que fez com que o transilvano tivesse uma formação mais européia do que os outros romenos. Explicou a origem da expressão popular romena “cabeça baixa, espada não corta” (Capul plecat sabia nu-l taie) na estratégia de sobrevivência face às sucessivas invasões de outros povos, bárbaros ou não, que consistia em certo “jogo de cintura”, e uma perspicácia psicológica, para lidar com os inimigos, sobretudo os turcos (de onde a alusão à espada), e conseguir reduzir os danos causados por suas investidas. É notável que, muito embora tenha sofrido a invasão otomana, a Romênia, diferentemente da Hungria, pôde manter intacta sua religião, o cristianismo ortodoxo, sem proibição de culto, fechamento de igrejas, perseguição religiosa, tanto que é que os otomanos não estabeleceram nenhuma mesquita em território romeno.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Euler Santi respondeu a perguntas sobre a peça e pôde falar sobre o processo de criação da mesma, suas motivações artísticas, as influências adjacentes que compõe, além de Cioran, o seu horizonte referencial em termos de arte e pensamento: Jacques Rigaut, Samuel Beckett, Os Dadaístas… Enfim, as pessoas presentes tiveram a oportunidade de assistir a uma apresentação especial, ironicamente instalada no interior de uma instituição que Cioran tanto desprezava como sendo “a morte do espírito” (Entrevistas), da “Palestra sobre nada” dedicada a Emil Cioran, que é incorporado com naturalidade e verossimilhança, profundidade e intensidade, por Euler Santi. Uma palestra de tirar o fôlego e que “abre sob nossos olhos”, como diz Jacques Lacarrière sobre Cioran, “os apocalipses e abismos do ser” (apud BRUM, José Thomas, prefácio ao Breviário de Decomposição). Também tiveram a chance de conhecer um pouco mais sobre este obscuro pensador e o seu país, que ainda têm muito a ser conhecidos pelo público brasileiro. Por fim, houve o sorteio de livros de autores romenos publicados pela É Realizações, como Matéi Visniéc (“Desvãos Cioran”), Nicolae Steinhardt (“O Diário da Felicidade”), Constantin Noica (“Diário Filosófico”) e Lucian Blaga (“A Barca de Caronte”).

Rodrigo Menezes, 27/10/2013

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