Os terrores e delícias de uma alma demasiado musical: “O Livro das Ilusões”, de Emil Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

O Livro das Ilusões deixa transparecer uma experiência densa e dolorosa, temperada por elãs líricos e transes místicos. Um caminhar fragmentário e extático revela um jovem leitor de Nietzsche fascinado ora por Barrès, ora por Gide.

José Thomaz BRUM (do prefácio do livro)

Se leio tanto, é na esperança de um dia encontrar uma solidão maior do que a minha.

CIORAN, Cahiers: 1957-1972

Saiu no Brasil, em 2014, mais um título de Emil Cioran. O livro das ilusões (“Cartea Amărgirilor” no original em romeno, “Le Livre des Leurres” em francês) é, cronologicamente, o segundo escrito no conjunto da obra do pensador romeno, e também o segundo título de sua produção romena a ser publicado por aqui, apenas dois anos após o lançamento de Nos cumes do desespero (Hedra, 2012). A tradução, rigorosamente atenta ao espírito da letra cioraniana, mais uma vez fica por conta de José Thomaz Brum, maior conhecedor brasileiro da obra deste autor romeno.

À parte as correspondências temáticas com o livro de estréia (o desespero, a melancolia, a tristeza, a solidão, o êxtase, o sofrimento, a loucura, o demoníaco, a transfiguração), este Livro das ilusões, escrito em 1935 e publicado em 1936 na Romênia, se destaca pela acentuação de um lirismo discursivo já presente no texto anterior, e pela pungência de um pensamento que se pretende, mais do que nunca, musical, em detrimento de todo conceitualismo fenomenológico e abstrato (característica sensível de Nos cumes…). Enfim, um livro inspirado, cantado, chorado, rido, uivado; a expressão de uma alma transbordante de paixão, sofredora e jubilosa, frenética, extática – uma alma que não cabe em si mesma de tanta volúpia, de tanta sensualidade, tamanha sua sede de experiências limítrofes e transfiguradoras.

Um jovem romântico “possuído” pelo espírito da música (seu paradigma de existência) e animado pela verve poética, portador de uma linguagem lírica, pulsante, vibrante, melódica, viva… Não há aqui, como encontraremos em seus livros franceses (os Silogismos da amargura, por exemplo), nenhum princípio de laconismo, nenhuma vontade de concisão, muito pouca ironia; em vez disso, uma profusão de sentimentos — uma melancolia exaltada, um dilaceramento jubiloso, uma agonia torrencial, enfim, um estado de espírito em que tristeza e alegria se encontram e se con-fundem. Cumpre lembrar que, assim como o anterior, este segundo livro foi gestado sob os efeitos transfiguradores de uma insônia que consumiu o jovem romeno, a partir da adolescência, até “os cumes do desespero”, e à qual ele atribuiria sua visão lúcida das coisas, isto é, uma forma peculiar de lucidez (ou clarividência) que ele reivindicará para si para o resto de sua vida.

Uma questão – filosófica entre todas – a atravessar o texto é a que concerne ao princípio de individuação, tão sofrível para este jovem pensador insone, em contraposição ao que seria para ele certa indiferenciação primordial no seio do ser puro, anterior à existência individual a que aspira nostalgicamente o autor. Cioran medita sobre “o maior dos pesares”, ou seja, “o pesar de não se ter realizado em mim a vida pura, […] que a vida não seja cântico, entusiasmo e vibração […].” (p. 14-15) A individualidade e a corporeidade são aqui problematizadas, postas em questão por um espírito que se sente prestes a arrebentar de tanto dinamismo, de tanta intensidade, de tanta superabundância. A insônia aporta a Cioran a sensação de não poder mais viver dentro dos limites da própria individualidade, a sensação de que é necessário absorver a totalidade do ser e por ele ser absorvido. Nada mais análogo ao “sentimento oceânico” de que fala Sigmund Freud em Mal-estar na civilização, e que estaria, segundo o austríaco, na base de toda religiosidade humana (o desejo de tornar-se um com o todo). Assim, na primeira parte do livro, “Êxtase musical”, lemos:

O estado musical associa, no indivíduo, o egoísmo absoluto com a maior das generosidades. Queres ser só tu, mas não por um orgulho mesquinho, mas por uma suprema vontade de unidade, pela ruptura das barreiras da individuação, não no sentido de desaparição do indivíduo, mas de desaparição das condições limitativas impostas pela existência deste mundo. Quem não tenha tido a sensação da desaparição do mundo, como realidade limitativa, objetiva e separada, quem não tenha tido a sensação de absorver o mundo durante seus êxtases musicais, suas trepidações e vibrações, nunca entenderá o significado dessa vivência na qual tudo se reduz a uma universalidade sonora, contínua, ascensional, que evolui para o alto em um agradável caos. (p. 8)

Assim como no caso dos demais livros romenos de Cioran, este Livro das Ilusões tem o mérito de apresentar ao leitor os precedentes intelectuais daquele que se tornaria conhecido como um dos grandes estilistas de língua francesa do século XX, conhecido também como um “cético a serviço de um mundo agonizante” (Aveux et Anathèmes, 1987). Um pensador até então nem um pouco cético: eis o Cioran antes de E.M. Cioran, o jovem pensador romeno em pleno processo de formação intelectual, o discípulo apaixonado de Nietzsche anterior àquele que se tornaria um pensador cansado e desiludido – o cético-niilista autor de breves aforismos em francês. O Livro das ilusões fornece diversas chaves para compreendermos tanto o que permanece quanto o que muda, no pensamento de Cioran, na transição do romeno para o francês que marca sua trajetória intelectual.

A começar pelo papel da insônia, da qual este livro proporciona uma nova perspectiva, mais poética e menos fenomenológica do que aquela apresentada em Nos Cumes…. As febres da insônia, durante as quais a escrita se faz uma questão de vida ou morte, não poderiam deixar de tingir suas páginas com as marcas do calor, tal como, em seu crepúsculo, Cioran recordaria: “Não escrevi uma linha na minha temperatura normal” (“Confissão resumida”, em Exercícios de admiração, p. 123). Um princípio de criação que já está manifesto no Livro das Ilusões: “E, se não quereis ver no entusiasmo vossa única riqueza, aprendei então a pensar na febre, a ter pensamentos ardentes, a extrair vapor das ideias. Que a febre seja a condição natural de vossos pensamentos.” (CIORAN 2014: 76). De onde a recorrência sensível de metáforas relacionadas ao elemento fogo: chamas, brasas, incandescência, ardor… com efeito, pode-se sentir o calor que emana do pathos de amor e de sofrimento com que o livro foi escrito. Na França, por sua vez, uma vez tendo descido e se afastado dos cumes do desespero, aos quais a insônia o lançara, Cioran adota como que uma “camisa-de força”, um dispositivo de contenção das paixões (que a própria língua francesa lhe proporciona) que se traduz, estilisticamente, na forma de um laconismo, de uma secura, de uma frieza, por assim dizer, discursivas. A propósito, o que distingue, em matéria de estilo, este jovem autor daquele mais velho, radicado na França, é o paroxismo verbal, a embriaguez lírica, a expressão apaixonada e efusiva, aquilo que Nicolas Cavaillès descreve como um “jorro textual intuitivo” e, num certo sentido, “bárbaro” (Le Corrupteur Corrompu: barbarie et méthode dans l’écriture de Cioran[1]), em contraste com o classicismo formal e com a brevidade discursiva que predominam em sua escritura francesa.

Do sofrimento – este é um tópico interessante para acompanharmos a evolução do estilo e do pensamento de Cioran entre suas fases de juventude e de maturidade. No Livro das Ilusões, ele anota: “Só o sofrimento muda o homem. Todas as outras experiências e fenômenos não conseguem modificar essencialmente o temperamento de ninguém nem aprofundar certas disposições suas a ponto de transformá-las completamente. (p. 25) E em Aveux et Anathèmes (1987): “É o sofrimento, e não o gênio, unicamente o sofrimento, o que nos permite deixar de ser marionetes.”

Outro ponto de reflexão que também estará presente nos livros posteriores, como um tema que Cioran revisitará por perspectivas variadas, é a oposição entre espírito (ou consciência) e vida, correspondendo à cisão irremediável entre o homem e o mundo, entre o eu subjetivo e a alteridade que o transcende objetivamente. Trata-se de um dualismo – trágico – intimamente ligado à problemática da individuação que tanto preocupa o autor. A insônia é responsável por acentuar a consciência desta oposição/cisão/dualidade, produzindo uma hiperconsciência da morte em vida que é, por sua vez, geradora de angústia, sofrimento e, por fim, de uma solidão infinita. Espírito (locus do conhecimento) e vida (locus da existência) não caminham juntos, não se identificam, de onde o drama fundamental do ser humano: encontrar-se dividido entre a vida e o conhecimento, princípio de morte (intui-se quanto o jovem Cioran apaixonado por Nietzsche é ao mesmo tempo tão diferente de Nietzsche). O tema é revisitado em História e Utopia (1960): “Nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente à nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.” E também em La Chute dans le Temps (1964), o livro seguinte, desta vez revisitado pela perspectiva teológica (bíblica) do pecado original: o erro originário do homem (do qual não podia escapar, pois é o seu fatum) é haver preterido a vida a favor do conhecimento do bem e do mal. O que interessa a Cioran antes de tudo é a Vida, e esta se encontra em oposição irredutível ao ato de conhecer que é característico do homem. Seu lamento por saber-se um herdeiro dessa escolha maldita feita por nosso “primeiro ancestral” já se faz manifestar neste Livro das Ilusões.

Tudo gira em torno da música neste livro. E da tristeza de não poder ser “a vida pura“, de não poder ser música, enfim, de ser indivíduo. A música como possível escapatória ao sofrimento causado pela solidão de ser indivíduo, de estar apartado do todo em função da autoconsciência separadora. A música é o paradigma estético a que Cioran recorre para moldar seu pensamento e sua escritura; na ausência da fé religiosa, na incapacidade de salvar-se em Deus, ele busca a salvação na música, a mais pura das expressões artísticas. Pois “a música, ao tornar sutil a matéria, ao anular-nos como presença física, nos torna etéreos.” A divisa cioraniana de sempre: “como suportar a si mesmo”, como existir estando consciente de sua limitação, de sua relatividade, de sua insuficiência essencial? Uma vez mais: consciência e vida compõem um casamento fadado ao fracasso, à morte. Por isso, “os raros momentos em que lamentamos estar distantes da música só fazem despertar em nossa consciência a fatalidade de nossa limitação espacial e temporal, de nossa distância com relação ao mundo. (p. 38)

O ideal é poder se repetir, como Bach.” (Aveux et Anathèmes)

De onde a importância absoluta da música para o autor romeno. Sem ela, é possível que se tivesse suicidado bastante cedo. Mas eis que a música é o seu suporte, o seu alimento, o seu modelo de ser e de escrever. Pois para ele o que importa não é produzir, não é criar uma obra, mas desenvolver, criar o ritmo próprio, recorrendo para isso à escrita: oportunidade de conciliar e harmonizar, na medida do possível, vida e pensamento. Por isso é que a obra cioraniana não tem nenhuma pretensão de novidade ou mesmo de utilidade teórica, pedagógica, humanística, já que é o produto de sua luta pessoal com e pela a existência, com o ser e o não-ser, com a vida e a morte – ele, que se sente condenado desde jovem a uma “lucidez vertiginosa que converteria o paraíso num centro de tortura.” (Nos cumes do desespero, p. 15) Já que não podemos não pensar, já que estamos condenados a isso, e que “os pensamentos mais profundos e mais preciosos para nós são aqueles pelos quais lamentamos carecer de lágrimas” (p. 46), a solução encontrada por Cioran foi transmutar os pensamentos em melodias, em notas musicais, desenvolvendo uma escritura musical que lhe permite expressar-se na forma de canto. Um canto elegíaco, com efeito, sublime e triste, já que a “tristeza é a poesia do pecado original…” (Breviário de decomposição)

Não podendo ser música, Cioran se resignou a imitá-la em sua escritura elegíaca, nessa “filosofia lírica”, “filosofia dos momentos únicos” (La Tentation d’éxister) que é uma meditação sobre o próprio destino, a criação do próprio destino. A escritura cioraniana pode ser lida como um conjunto de variações sobre o mesmo tema: os êxtases musicais experimentados, e dos quais seus escritos buscam registrar os ecos, as lembranças. Não é um livro que tenho diante de mim, mas a alma mesma do pensador que seguro em minhas mãos, pulsante, oscilante, vibrante, melodiosa, rítmica –  segundo um ideal de escritura que busca reduzir a zero o intervalo entre ser e pensar. Os livros de Cioran estão mais para artefatos materializados a partir de suas lágrimas nostálgicas. Como anotou numa entrevista sua companheira, Simone Boué, nenhuma expressão melhor para resumir o essencial do pensamento de Cioran do que o título de uma coletânea de artigos de sua fase de juventude que seria publicada postumamente, na França: “Solidão e destino”. Uma alma louca de paixão, de amor pela vida, uma alma dilacerada por desejar, por necessitar mesmo, mais do que a vida poderia lhe dar. Cioran, doente de um amor impossível, eternamente irrealizável. E termino com esta confissão extraída de uma entrevista ao filósofo espanhol (e grande amigo de Cioran), Fernando Savater: “Meus livros não são nem depressivos nem deprimentes. Eu os escrevo com furor e com paixão. Se meus livros pudessem ser escritos a sangue frio, seria perigoso. Mas não posso escrever a sangue frio, sou como um enfermo que, em todo caso, supera febrilmente sua enfermidade.”

Rodrigo I. R. Sá Menezes, 06/04/2014

[1] http://www.fabula.org/actualites/nicolas-cavailles-le-corrupteur-corrompu-barbarie-et-methode-dans-l-ecriture-de-cioran_12840.php

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