Cioran na Espanha

Virá o dia em que trocaremos a busca da “diferença’ por um pouco de seriedade nacional

Evaldo Cabral de Mello, Caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 17 de janeiro de 1999

Cioran escutou, certa vez, num museu de Valladolid, o comentário anônimo diante de um retrato de Felipe 3º: “Foi com ele que começou nossa decadência”. A partir da observação inesperada, o escritor romeno fez excelentes reflexões sobre o narcisismo trágico que os espanhóis cultivaram até sua recente integração à Europa (os espanhóis são tão ciosos da sua história que mesmo aos episódios pouco estimáveis costumam apor o pronome possessivo: “Nossa decadência; nossa guerra civil”).

Um povo que se considera decadente há três séculos é um povo que questiona o próprio sentido da sua existência nacional. Todos nós questionamos no dia-a-dia a utilidade das nossas instituições políticas, a eficiência do nosso sistema econômico e a justiça da nossa organização social. É excepcional, porém, que um povo questione sua própria existência coletiva. Como observou Cioran, não é possível encontrar um inglês se perguntando pelo sentido da Inglaterra: “Ele sabe que é inglês e isto lhe basta”.

Além de enfrentar, como todo mundo, o problema concretíssimo da sua existência individual, o espanhol ainda tinha por cima de se haver no quotidiano, e não apenas nas crises nacionais, com o problema da existência da Espanha. Desde o século 17, sucessivas gerações de intelectuais, a começar pelos chamados “arbitristas”, se inclinaram sobre um alegado enigma espanhol sem lograr decifrá-lo. Sobre o assunto, o medievalista Sánchez Albornoz sustentou uma interminável polêmica com o filólogo Américo Castro. Antes deles, a chamada “geração de 98”, que surgiu à raiz da derrota diante dos Estados Unidos na guerra de Cuba, havia bordado sobre o tema do que hoje chamaríamos da identidade ibérica. E até Francisco Franco, “o caudilho de Espanha pela graça de Deus”, invocava a explicação de que “a Espanha é diferente” como justificação doutrinária para seu regime, assim como os derradeiros “aparatchiks” comunistas da Europa refugiam-se no bunker da identidade sérvia.

Outro exemplo clássico da tendência mórbida à introspecção nacional foi evidentemente o da Rússia e dos eslavistas do século 19. Tampouco Portugal escapou à moda desde que Antero de Quental dispôs-se a indagar, numa das célebres conferências do Cassino, “as causas da decadência dos povos peninsulares”. A obra historiográfica de Oliveira Martins é um incessante carpir sobre o passado nacional.

O que tais exemplos têm em comum? O fato de que o problema da identidade nacional só se colocou na Europa periférica e marginalizada no processo de desenvolvimento capitalista. Como indicam os livros de viajantes estrangeiros, alguns deliciosos como os de Beckford ou Borrow, a Península Ibérica constituiu-se desde o século 18 no lugar privilegiado da curiosidade britânica, não devido ao exotismo dos seus traços físicos ou naturais, como a América ou a África, nem muito menos a sua antiguidade e a dos monumentos que esta legara, como a Itália, a Grécia, o Egito, mas em termos de uma paisagem humana e social que a Europa transpirenaica já percebia como prosaicamente arcaica.

Todo o relato que Beckford escreveu acerca da excursão a Alcobaça está impregnado desse prazer que o arcaísmo português dispensava a uma europeu “civilizado”, a começar pelo episódio em que uma rica proprietária rural, que o autor do “Vathek” foi encontrar na sua quinta, rodeada de quantidade de pássaros, não esconde sua surpresa ao saber que na Inglaterra também os havia. O episódio talvez tenha inspirado Eça de Queirós a imaginar o ministro da Instrução Pública que se surpreende ao saber que também havia poesia e poetas ao norte do canal da Mancha.

Por trás do tema da diferença latejava, muitas vezes inconfessada, a dúvida cruel: seremos realmente europeus, isto é, teremos a possibilidade de ascender ao mesmo nível de civilização dos países do norte da Europa? Caso contrário, não estaremos perdendo nosso tempo? Não seria preferível proclamar à face do mundo, como a Espanha franquista, o salazarismo e tantos outros regimes de direita, nossa incompatibilidade visceral com o Estado de direito e com a economia de mercado?

Os países nascidos do colapso dos impérios espanhol e português na América prolongaram o gosto pela auto-análise coletiva, conspicuamente ausente, por motivos óbvios, nos Estados Unidos, no Canadá ou na Austrália. Tanto mais que, relativamente ao Ocidente, a América ibérica podia-se queixar de uma diferenciação ainda mais acusada que a das antigas metrópoles.

Foi certamente no México e no Brasil que a tradição do ensaísmo peninsular fincou mais resistentes raízes. Ao passo que ali os “criollos” setecentistas já haviam elaborado uma ideologia “nacional” que valoriza a herança indígena, entre nós o pessimismo racial e os ônus da colonização portuguesa foram a tônica das preocupações até praticamente os anos 30. A partir de então, os termos da questão inverteram-se. O Brasil transitou do pessimismo entranhado à euforia irresponsável acerca do futuro nacional. Parte desta mudança de clima mental, deveu-se à “Casa Grande & Senzala”, obra que, sem dizer “água vai”, transformou a miscigenação e a colonização portuguesa, de passivos em ativos da história brasileira; ou ao otimismo demagógico do populismo político, a que não se furtou tampouco o regime militar (“Brasil: ame-o ou deixe-o”).

Em época recente, essa tendência decantou-se numa afirmação ingênua e exibicionista de identidade nacional, sinal de que não estamos assim tão seguros dela ou de que apreendemos o que nela existe de artificial. Das ciências sociais à música popular, os brasileiros estão mesmerizados pela sua originalidade. Um antropólogo dedicou um livro inteiro a desvendar o sentido do Brasil, idéia que parece antes uma questão metafísica na acepção pejorativa da palavra e, como tal, surpreendente na cabeça de um marxista. Já circulam teorias sobre a baianidade e sobre a mineiridade. Na minha província, surgiram três atentados tomos intitulados “Pernambucanidade”. Confesso que, a despeito de estudar sua história há alguns decênios, não sei o que isso venha a ser.

Não cabe, porém, preocupar-nos excessivamente com os camelôs da identidade nacional ou das identidades estaduais, fantasiando estes últimos em perigosos separatistas. Felizmente no Brasil, ao contrário da ex-Iugoslávia, trata-se de uma superficial questão de moda que, como tal, passará dentro de uns anos. Cumpre apenas procurar preservar a pesquisa em ciências humanas dos seus efeitos nocivos, sobretudo da provincialização deprimente que eles acarretam.

Para a mania, existe, aliás, um antídoto infalível. A integração da Espanha na União Européia veio demonstrar que a incompatibilidade entre seu “caráter nacional” e os valores da chamada modernidade era um falso problema. Não me recordo se Bandeira ou Drummond tem um verso em que, se declarando cansado de ser moderno, exprime a vontade de ser eterno. Pois bem, a Espanha cansou de ser diferente, agora quer ser como a Europa. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil passará pela mesma experiência. Cansar-nos-emos de ser brasileiros e nos resolveremos a trocar um quinhão da nossa sacrossanta originalidade por um pouco mais de seriedade nacional. Nesse dia, a afirmação estridente da nossa identidade nos soará tão ridícula quanto nos parecem atualmente os homens do século 19 que nos queriam europeizar a ferro e a fogo.

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