“A √°rvore da vida” (E.M. Cioran)

Ad√£o e Eva expulsos do Para√≠so (Gustave Dor√©)N√ÉO √Č BOM que o homem se lembre a cada instante de que √© homem. Debru√ßar-se sobre si j√° √© um mal; debru√ßar-se sobre a esp√©cie, com o zelo de um obcecado, √© ainda pior: √© atribuir √†s mis√©rias arbitr√°rias da introspec√ß√£o um fundamento objetivo e uma justificativa filos√≥fica. Enquanto tritura-se o pr√≥prio eu, tem-se o recurso de acreditar que se est√° cedendo a um capricho; a partir do momento em que todos os eu convertem-se em centro de uma intermin√°vel rumina√ß√£o, os inconvenientes da pr√≥pria condi√ß√£o encontram-se, por uma esp√©cie de desvio, generalizados, o pr√≥prio acidente erigido em norma, em caso universal.

Primeiro percebemos a anomalia do fato bruto de existir; apenas depois aquela de nossa situação específica: o assombro de ser precede o assombro de ser humano. Não obstante, o caráter insólito do nosso estado deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades: é menos natural ser homem do que simplesmente ser. Isto, sentimos instintivamente; de onde essa voluptuosidade cada vez que nos desviamos de nós mesmos para identificar-nos com o bem-aventurado sono dos objetos. Não somos realmente nós mesmos até que, face ao próprio eu, não coincidimos com nada, nem sequer com nossa singularidade. A maldição que recai sobre nós já pairava sobre nosso primeiro ancestral, antes mesmo que se dirigisse à árvore do conhecimento. Insatisfeito de si, estava-o ainda mais de Deus, que invejava sem sabê-lo; viria a ter consciência disto graças aos bons ofícios do tentador, auxiliar e não autor de sua ruína. Antes, vivia no pressentimento do saber, numa ciência que se ignorava a si mesma, numa falsa inocência, propícia à eclosão da inveja, vício engendrado pelo comércio com seres mais afortunados; pois bem, nosso primeiro ancestral estava intrigado com Deus, espiava-o e era espiado por ele. Nada de bom poderia resultar.

‚ÄúV√≥s podeis comer de todas as √°rvores do jardim, mas n√£o comer√°s da √°rvore do conhecimento do bem e do mal, pois o dia em que o fizeres, certamente morrer√°s.‚ÄĚ A advert√™ncia do alto revelou-se menos eficaz que a sugest√£o de baixo: melhor psic√≥logo, a serpente saiu ganhando. De resto, o que o homem queria mesmo era morrer: buscando igualar seu Criador pelo saber, n√£o pela imortalidade, ele n√£o tinha nenhum desejo de se aproximar da √°rvore da vida, nenhum interesse por ela; disso se deu conta Yahweh, uma vez que n√£o lhe proibiu o acesso a ela: por que temer a imortalidade de um ignorante? Mas se o ignorante comesse das duas √°rvores, e se ele se apossasse da eternidade e da ci√™ncia, tudo mudaria. A partir do momento em que Ad√£o provou o fruto culpado, Deus, entendendo com que teria que se ver, perdeu o ju√≠zo. Ao colocar a √°rvore do conhecimento no meio do jardim, ao exaltar suas vantagens e sobretudo seus perigos, cometeu uma grave imprud√™ncia, adiantou-se ao desejo mais secreto da criatura. Proibir a outra √°rvore teria sido melhor pol√≠tica. Se n√£o o fez, foi porque estava certo de que o homem, aspirante teimoso √† dignidade de monstro, n√£o se deixaria seduzir pela perspectiva da imortalidade enquanto tal, demasiado acess√≠vel, demasiado banal: n√£o era esta a lei, o estatuto do lugar? A morte, por outro lado, pitoresca e investida do prest√≠gio da novidade, poderia intrigar um aventureiro disposto a arriscar por ela sua paz e sua seguran√ßa. Paz e seguran√ßa relativas, √© verdade, pois o relato da queda permite entrever que no cora√ß√£o mesmo do √Čden o promotor de nossa ra√ßa j√° sentia um mal-estar, sem o qual n√£o se saberia explicar a facilidade com que cedeu √† tenta√ß√£o. Cedeu a ela? Buscou-a, na verdade. J√° se manifestava nele esta inaptid√£o para a felicidade, esta incapacidade de suport√°-la que todos n√≥s herdamos. Ela a tinha √†s m√£os, podia apropriar-se dela para sempre, mas a rejeitou; desde ent√£o a perseguimos sem encontr√°-la e, mesmo que a alcan√ß√°ssemos, n√£o nos adaptar√≠amos a ela. Que mais esperar de uma carreira iniciada por uma infra√ß√£o √† sabedoria, por uma infidelidade ao dom da ignor√Ęncia que nos outorgou o Criador? Precipitados no tempo √† causa do saber, fomos imediatamente dotados de um destino. Pois somente fora do para√≠so √© que h√° destino.

Se tiv√©ssemos ca√≠do de uma inoc√™ncia completa, total, verdadeira em suma, a lamentar√≠amos com tamanha veem√™ncia que nada prevaleceria contra nosso desejo de recuper√°-la; mas o veneno j√° estava em n√≥s, mal indistinto at√© ent√£o, que em seguida se definiria e se apoderaria de n√≥s para marcar-nos e individualizar-nos para sempre. Esses momentos em que uma negatividade essencial preside nossos atos e nossos pensamentos, em que o futuro caduca antes mesmo de nascer, em que um sangue devastado nos inflige a certeza de um universo de mist√©rios despoetizados, louco de anemia, prostrado sobre si mesmo, onde tudo se resolve num suspiro espectral, r√©plica de milhares de experi√™ncias in√ļteis; n√£o seriam esses momentos o prolongamento e o agravamento desse mal-estar inicial sem o qual a hist√≥ria n√£o teria sido poss√≠vel, nem sequer conceb√≠vel, j√° que, como ela, n√£o tolera a menor forma de beatitude estacion√°ria? Essa intoler√Ęncia, esse horror mesmo, impedindo-nos de encontrar em n√≥s nossa raz√£o de existir, nos fez dar um salto para fora de nossa identidade e como que para fora de nossa natureza. Separados de n√≥s mesmos, faltava-nos est√°-lo de Deus: tamanha ambi√ß√£o, j√° sonhada na inoc√™ncia de outrora, como n√£o nutri-la agora que n√£o temos mais nenhuma obriga√ß√£o para com ele? De fato, todos nossos esfor√ßos e todos nossos conhecimentos tendem a diminu√≠-lo, a question√°-lo, a ferir sua integridade. Quanto mais nos domina o desejo de conhecer, signo de perversidade e de corrup√ß√£o, mais tornamo-nos incapazes de permanecer no interior de qualquer realidade. Quem o possui age como profanador, como traidor, como agente de dissolu√ß√£o; sempre ao lado ou fora das coisas, quando n√£o obstante lhe ocorre de insinuar-se sobre elas, o faz √† maneira de um verme no fruto. Se o homem tivesse a m√≠nima voca√ß√£o para a eternidade, ao inv√©s de correr em dire√ß√£o ao desconhecido, ao novo, aos estragos provocados pelo apetite de an√°lise, teria se contentado com Deus, com a familiaridade da qual prosperava. Aspirou a emancipar-se, a separar-se dele, e o conseguiu para al√©m de suas esperan√ßas. Ap√≥s haver quebrado a unidade do para√≠so, empenhou-se em arruinar tamb√©m aquela da terra, introduzindo nela um princ√≠pio de fragmenta√ß√£o que acabaria com a ordem e o anonimato. Certamente antes tamb√©m morria, mas a morte, cumprimento na indistin√ß√£o primitiva, n√£o tinha para ele o sentido que viria a adquirir depois, e tampouco estava carregada dos atributos do irrepar√°vel. Desde que, separado do Criador e do criado, tornou-se indiv√≠duo, isto √©, fratura e fissura do ser, e que, assumindo seu nome at√© a provoca√ß√£o, soube que era mortal, seu orgulho aumentou assim como sua confus√£o. Morria enfim √† sua maneira, orgulhava-se disso, mas morria completamente, e isto o humilhava. N√£o querendo um desenlace que desejou arduamente, terminou por voltar-se, de m√° vontade, aos animais, seus companheiros de outrora: os mais vis como os mais nobres, todos aceitam seu destino, comprazem-se com ele ou resignam-se; nenhum deles seguiu seu exemplo, nem imitou sua rebeldia. As plantas, mais do que as bestas, regozijam-se de serem criadas: a urtiga mesma respira ainda em Deus e se pavoneia; apenas o homem se asfixia, e n√£o √© justamente esta sensa√ß√£o de sufocamento que o incita a singularizar-se na cria√ß√£o, a desempenhar o papel de proscrito conformado, de r√©probo volunt√°rio? O resto dos seres vivos, pelo fato mesmo de se confundirem com sua condi√ß√£o, t√™m certa superioridade sobre ele. E √© quando ele os inveja, quando sente falta de sua gl√≥ria impessoal, que compreende a gravidade do seu caso. Em v√£o tentar√° recuperar a vida, da qual fugiu pela curiosidade em rela√ß√£o √† morte: jamais em sintonia, sempre estar√° mais aqu√©m ou mais al√©m dela.

CIORAN, E. M. “L’arbre de vie”, in La chute dans le temps, Oeuvres. Paris: Quarto/Gallimard, 1995.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. S. Menezes