Intérprete do pensamento trágico, Clément Rosset defende a idéia de que toda realidade é cruel. Essa “ética da crueldade” se baseia em dois princípios que são o objeto principal deste livro. O primeiro, o princípio de realidade suficiente: o real basta e dele nada escapa, posto que é real. Cabe aos homens se contentar e esse contentamento, gratuito como a graça de que fala Pascal, é o que o autor chama de alegria.

O segundo princípio é o de incerteza: toda a verdade é duvidosa, hipótese que vale especialmente para a filosofia, a ponto de Rosset defender que “uma verdade incontestável cessaria, por isso mesmo, de ser filosófica”. A incerteza é cruel e essa crueldade é própria da filosofia. Para que serve? Não para produzir o verdadeiro, posto que ele só habita o incerto. Mas para destruir idéias falsas: uma verdade filosófica, por ser sempre negativa ou crítica, é “de ordem essencialmente higiênica” e Clément Rosset, contrariando os seguidores de Moise ou Lacan, promove aqui, explicitamente, Montaigne, para ele o mais penetrante dos pensadores franceses.

O filósofo francês Clément Rosset nasceu em 1939. Ex-aluno da Escola Normal Superior de Paris é agregé e doutor em filosofia. Ensinou essa cadeira em Montreal, no Canadá, e mantém o cargo de maître-assistant de filosofia na Universidade de Nice. Seu primeiro livro publicado, La philosophie tragique, saiu em 1960 pela P.U.F. Tem vários livros traduzidos para o espanhol e em 1988 sua obra começou a ser traduzida para o alemão (texto da orelha do livro).

Considerado uma das poucas personalidades filosóficas francesas do nosso tempo, por ter estabelecido, através dos anos, um pensamento coerente e peculiar, Clément Rosset aprofunda, neste livro, algumas de suas teses principais. O conceito de real, por exemplo. Para Rosset, o geral e o universal só existem nas palavras; o real é, sempre, singular. E a realidade é cruel. Não somente porque é “intrinsecamente dolorosa e trágica”, mas também porque a unicidade do real nos priva, por sua vez, de todo o remédio. Não há escapatória ou consolo. Dissecando tais temas, Rosset chega à “ética da crueldade”, cujo âmbito qualifica, a seu ver, toda a obra filosófica: não se deve esperar pelo melhor, mas acomodar-se ao pior (texto da contracapa)

INTRODUÇÃO:

Só há provavelmente pensamento sólido — como de resto obra sólida de qualquer gênero, seja comédia ou ópera- bufa — no registro do implacável e do desespero (desespero pelo qual não entendo uma disposição de espírito voltada para a melancolia mas, longe disso, uma disposição absolutamente refratária a tudo o que se assemelha à esperança ou à expectativa). Tudo o que visa atenuar a crueldade da verdade, as asperidades do real, tem como conseqüência infalível desacreditar a mais genial das empresas assim como a mais estimável das causas — como prova, por exemplo, o cinema de Charles Chaplin. No que se refere a isso, vejo muita exatidão em uma observação de Ernesto Sábato, em seu romance Abaddón, o exterminador. “Desejo ser seco e não enfeitar nada. Uma teoria deve ser implacável e volta-se contra seu criador se este não trata a si mesmo com crueldade.”

Refletindo sobre esta questão, perguntei-me se era possível pôr em evidência um certo número de princípios que regem esta “ética da crueldade” — ética cujo respeito ou desrespeito qualifica ou desqualifica, a meus olhos, toda obra filosófica. E pareceu-me que esta podia ser resumida em dois princípios simples, que chamo “princípio de realidade suficiente” e “princípio de incerteza”, cuja exposição constitui o objeto deste livro.

Serão encontrados em apêndice três textos anteriores à redação deste estudo. O primeiro é relativo ao primeiro capítulo; o segundo e o terceiro ao segundo capítulo.

ROSSET, Clément, O Princípio de crueldade. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.