“A ‘questão social’ segundo Philipp Mainländer” (José Orlando Lima de Souza)

Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Serviço Social apresentado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Serviço Social (Natal – RN, 2017). Orientador (a): Profª. Drª. Daniela Neves de Sousa.

RESUMO: Intentando apresentar o conceito de questão social segundo o filósofo alemão Philipp Batz, conhecido pelo pseudônimo Philipp Mainländer, este trabalho foi desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica exploratória, considerando as principais produções literárias voltadas ao estudo da chamada Escola de Schopenhauer, donde o referido pensador foi considerado o mais radical desta linha filosófica. A obra magna de Mainländer – a Filosofia da Redenção, além de apresentar as principais contribuições do autor no âmbito da Metafísica e da Teoria do Conhecimento, entre outros tópicos de sua investigação filosófica, oferece vasto e precioso material para compreensão da realidade social dos trabalhadores industriais alemães, possibilita o entendimento de conceitos e sentidos dados pelos pensadores de seu tempo quanto aos minuciosos processos de consolidação do então nascente sistema capitalista e a organização teórica e filosófica das estratégias para sua superação no campo da filosofia pessimista.
Palavras-chave: Mainlander. Filosofia. Redenção. Pessimismo.

SOMMARIO: Intentando introdurre il concetto di questione sociale secondo il filosofo tedesco Philipp Batz, conosciuto con lo pseudonimo Philipp Mainländer, questo lavoro è stato sviluppato da una ricerca bibliografica, considerando che le principali produzioni letterarie orientate allo studio della cosiddetta Scuola di Schopenhauer, dove detta pensatore era considerato il più radicale filosofia di questa linea. La grande opera di Mainländer – Filosofia della Redenzione, oltre a presentare i principali contributi dell’autore sotto la Metafisica e Teoria della Conoscenza, tra gli altri argomenti della sua ricerca filosofica, offre materiale vasto e prezioso per comprendere la realtà sociale dei lavoratori industriali tedeschi, esso consente la comprensione dei concetti e delle indicazioni fornite dai pensatori del suo tempo, come i processi dettagliati del consolidamento del sistema capitalista nascente e l’organizzazione teorica e filosofica di strategie per superarle nel campo della filosofia pessimista.
Parole chiave: Mainlander. Filosofia. Redenzione. Pessimismo.

INTRODUÇÃO

Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento científico, econômico, tecnológico e industrial era crescente na Europa ao longo do século XIX, a pobreza e a miséria assolavam centenas de famílias, segregando-as, a partir de suas posses, e sujeitando-as às mais desumanas condições de vida, saúde e trabalho. Submetidos ao pulso firme dos patrões, trabalhadores e famílias inteiras morriam sem nenhuma assistência, nem destes nem do Estado.

A questão social, que, de modo a defini-la aqui, pode ser entendida como o conjunto das expressões das desigualdades sociais produzidas no interior das sociedades capitalistas maduras (Iamamoto, 1999, p. 27), tem sua origem a partir do século XIX, na Europa Ocidental, diante do seguinte cenário: acelerado processo de industrialização das grandes cidades (ao mesmo tempo em que aumentava a pauperização e a miséria entre os trabalhadores das indústrias); aumento alarmante da mortalidade infanto-juvenil; crescente desemprego provocado pela exploração do trabalho; semiescravidão, fome e miséria, entre outras expressões, que serviram de base, à época, para o desenvolvimento e implementação das chamadas políticas sociais.

De acordo com Marilda Iamamoto, na raiz comum desse conjunto de expressões, que dá origem à questão social, está que “[…] a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade” (idem.). Ainda que a burguesia industrial fingisse não ver a miséria da população, os trabalhadores iniciaram intensos protestos reivindicando melhores condições de vida e trabalho. Os movimentos ganharam força e chamaram a atenção dos poderosos, que rapidamente resolveram tomar frente à questão.

De modo a reduzir a proliferação de doenças infecciosas entre a população, conter a violência nos centros urbanos, frear as manifestações dos operários nas fábricas e uma “revolução proletária”, o Estado e a burguesia industrial viram-se forçados a adotar medidas paliativas para redução dos conflitos entre trabalhadores e patrões, desenvolvendo políticas sociais e ações patronais voltadas ao atendimento da população mais pobre, além de atenderem algumas reivindicações feitas pelos trabalhadores quanto à redução da jornada de trabalho, férias, salários, entre outros.

A compreensão da questão social ou como ela se apresenta na história e na atualidade pode divergir ou conciliar reflexões e conceitos diferentes em áreas do conhecimento também diferentes. Para que nossa abordagem tenha um rumo definido, tomaremos aqui, como base para nossa reflexão, a análise filosófica de Philipp Batz, também conhecido como Philipp Mainlander, considerando a importância de apresentar um “olhar diferente” sobre a questão social, bem como o enriquecimento teórico que sua contribuição poderá trazer para pesquisas posteriores sobre este tema.

Para estudantes das áreas das Ciências Sociais e, especificamente, de Serviço Social, ainda que tão somente para acúmulo de conhecimento e enriquecimento histórico, teórico e filosófico acerca da questão social, Mainländer pode oferecer, através de minuciosa investigação de sua obra, alguns apontamentos que ajudem a descrever mais detalhadamente a realidade social dos trabalhadores alemães no século XIX, além de alguns indicadores sociais sobre a população europeia, bem como a configuração familiar marcada pelo patriarcado e pela “cultura do estupro conjugal”, sendo essa realidade vivenciada na família do autor tedesco.

O interesse em abordar a reflexão do autor da Filosofia da Redenção (Die Philosophie der Erlösung, 1876) surgiu a partir de uma pesquisa na internet sobre o conceito de questão social, donde, entre os trabalhos disponíveis, foi sugerida a leitura de um artigo sobre “o pessimismo e a questão social em Philipp Mainlander”, publicada pelo filósofo brasileiro Flamarion Caldeira Ramos, da Universidade de São Paulo (USP), em 2007.

Não comum nas aulas de Filosofia ou mesmo nas disciplinas do curso de Serviço Social, a apresentação de uma visão pessimista da questão social pareceu, num primeiro momento, curioso e atrativo, digno de aprofundamento. Após as leituras iniciais dos comentadores da vida e obra de Mainländer, voltando-se ao trabalho de Ramos, uma questão fundamental se apresentava, principalmente quando considerada a “teoria do auto-extermínio” proposto por Mainländer em sua obra principal: qual o sentido direto da filosofia de Mainländer sobre o conceito de questão social? Quais os limites de seu pensamento, dado o suicídio como finalidade da existência?

O contato com a filosofia pessimista e a leitura de textos referentes à obra de Mainländer começaram a provocar uma “vontade motivacional investigativa”: entender que sentido a obra de Mainländer teria no mundo de hoje e quais as aproximações teórico-práticas que sua filosofia poderia acrescentar aos estudos sobre a questão social. Para tanto, ficou a dúvida e ponto de partida para esta reflexão: qual o conceito de questão social segundo Philipp Mainländer?

Assim, objetivando compreender o conceito de questão social a partir das reflexões do desconhecido filósofo e tendo por referência basilar os comentadores de sua obra, interessa-nos contemplar uma “abordagem diferente” acerca do tema proposto, incentivando o aprofundamento de estudos voltados a esta temática, além de possibilitar o enriquecimento de pesquisas que tratem desta categoria específica ou que corroborem para o alargamento do conhecimento do conceito que este termo abarca.

Desenvolvida a partir de pesquisa bibliográfica exploratória, esta pesquisa intenta abordar o contexto individual, social e filosófico onde Mainländer viveu e desenvolveu seu pensamento, bem como os efeitos diretos e indiretos que a filosofia de Schopenhauer marcou seus passos na formulação de sua obra, identificando possíveis contribuições destas referências no encontro do que se busca.

No intuito de unir ou aproximar ainda mais as contribuições da filosofia pessimista de Mainländer e a abordagem à questão social estudada ao longo das leituras sobre este tema no curso de Serviço Social, outras pesquisas foram realizadas, chegando, assim, ao conhecimento de outros autores que apresentavam o pensamento mainlanderiano no mundo, sobretudo os trabalhos do filósofo italiano Fabio Ciracì, da Universidade de Salento (Itália), que teve significativa importância no contato com a história de Mainländer; do pesquisador e filósofo Marcelo Ronconi Lemes da Silva, que, numa página na web, foi o primeiro contato direto com a história de Mainländer, através de uma postagem referente à sua vida e obra no blogger “O Suicidário”, no “Prólogo” do site; e, da estudiosa Sandra Baquedano Jer, entre outros, que nos permitiram desvendar alguns fragmentos da obra de Mainländer. Tais referências, entre outras aqui suprimidas, foram fundamentais neste contato e descobrimento da vida e pensamento de Philipp Mainländer.

Acerca da divisão deste intento, o mesmo foi desenvolvido em dois capítulos, onde, no primeiro capítulo, intitulado PHILIPP MAINLANDER: Traços peculiares à história do “piccolo filosofo”, são abordados os aspectos gerais dos principais biógrafos do poeta e filósofo de Main, as contribuições destes no redescobrimento de sua obra, bem como a relação existente entre a curta vida do filósofo e a parca documentação de seus escritos. Ainda nesta primeira parte é feita a apresentação dos principais aspectos referentes à família, terra natal, formação escolar e individual do pensador alemão, considerando sua turbulenta relação com seus pais. Também neste capítulo são apresentados os principais e importantes fatores sociais e econômicos da cidade de origem de Mainländer, considerando, de acordo com seus comentadores, seu recatado e tristonho modo de vida. Além disso, apresentaremos de modo simplificado, as influências de autores clássicos da Filosofia na formação intelectual do pensamento mainlanderiano, bem como a relação que Mainländer desenvolveu com a filosofia pessimista de Schopenhauer, seu mestre.

No capítulo segundo, apresentamos o escopo deste trabalho: a compreensão de questão social em Philipp Mainländer, dividida em dois subitens, nos quais são tratados: no primeiro, o contexto geral do pensamento de Mainländer em sua “Filosofia da Redenção”; e, no segundo, o conceito de questão social segundo Philipp Mainlander.

Por fim, nas considerações conclusivas, apresentaremos uma análise geral do processo de produção deste trabalho, considerando os desafios, dificuldades e conquistas durante sua elaboração, bem como o que ficou entendido por questão social segundo Philipp Mainländer.

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