Escritas do desastre e outras vol√ļpias: entrevista com Ricardo Gil Soeiro, autor de “Notas Soltas para Cioran” (Labirinto, Portugal, 2019)

“A EXIST√äNCIA, para Cioran, oscila sempre nessa delicada tens√£o entre, por um lado, se assumir como uma trag√©dia incomensur√°vel e, por outro lado, ser perspectivada como um leve aborrecimento, como um t√©dio que se tem de suportar‚Ķ Mas trata-se sempre (como tamb√©m em Pessoa) de um enquadramento muito espec√≠fico: de uma teologia sem teologia, uma esp√©cie de reflex√£o intersticial e n√≥mada que surge quando o niilismo se cruza com um certo misticismo de contornos indefinidos. O que brota de uma tal reflex√£o √© a tal nostalgia intang√≠vel de que fala, a fome de um absoluto incompuls√°vel, que se poderia aproximar do sentido do mist√©rio da rela√ß√£o do homem com aquilo que Rudolf Otto apelida de ‚Äúnuminoso‚ÄĚ, desse mysterium tremendum que n√£o pode deixar de assaltar quem se aproxima do transcendente.”¬†(R.G.S.)

Ricardo Gil Soeiro √© poeta e ensa√≠sta. Doutorado em Estudos Liter√°rios pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde √© investigador do Centro de Estudos Comparatistas, desenvolve pesquisa sobre literatura comparada, teoria da literatura e estudos p√≥s-humanistas. Organizou e traduziu o volume As Artes do Sentido, de George Steiner (Rel√≥gio D‚Äô√Āgua, 2017), traduziu Confiss√Ķes e An√°temas, de Emil Cioran, e co-editou o livro Paul Celan: Da √Čtica do Sil√™ncio √† Po√©tica do Encontro (2014). Publicou os seguintes livros de ensaio: O Pensamento Tornado Dan√ßa (2009), Gram√°tica da Esperan√ßa (2009), Po√©ticas da Incompletude (2017) e, mais recentemente, O Claro Enigma da Mat√©ria: Uma Aproxima√ß√£o P√≥s-Humanista √† Poesia de W. Szymborska (Abysmo, 2019, no prelo). Em 2012 veio a lume L‚Äôapprendista di enigmi, uma antologia po√©tica traduzida para o italiano. Com Imin√™ncia do Encontro foi galardoado com o Pr√©mio PEN Clube Portugu√™s ‚Äď Primeira Obra 2010. Com o livro A Sabedoria da Incerteza foi finalista do Pr√©mio PEN de Ensaio 2016. Com o livro Palimpsesto foi finalista do Pr√©mio Autores 2017-SPA, na categoria de Literatura ‚Äď Melhor Livro de Poesia. Com o livro A rosa de Paracelso foi finalista do Grande Pr√©mio de Literatura DST 2018. √Č autor do ainda in√©dito Vol√ļpia do Desastre: Notas Soltas para Cioran, a ser publicado pela Editora Labirinto no in√≠cio de 2019. Este Portal teve o privil√©gio de conversar com ele sobre Cioran e outros temas: Fernando Pessoa e Clarice Lispector, escritas e tessituras, o fragmento e outros exerc√≠cios, di√°logos infinitos…

EMCioran/Br: Como você descobriu a obra de Cioran, e que valor lhe atribui? O que o motivou a escrever essas sugestivas Notas Soltas para Cioran?

R.G.S.: O primeiro contacto que tive com Cioran foi atrav√©s da leitura de Hist√≥ria e Utopia,[1] no meu primeiro ano de licenciatura. A obra, como √© bom de ver, n√£o constava do programa de nenhuma disciplina: comprei o livro numa pequena feira do livro que estava a decorrer na Faculdade de Letras de Lisboa e fiquei imediatamente fascinado com o tom e a intransig√™ncia do seu pensar e a qualidade da sua escrita, porque tamb√©m √© de literatura que temos de falar, quando falamos de Cioran‚Ķ Fascinou-me o contorno niilista das suas obsess√Ķes (a morte, o t√©dio, a solid√£o, o tempo, o desespero), mas tamb√©m a veem√™ncia do estilo em que tal pensamento radical se plasmava. Na altura eu estava imerso no Livro do Desassossego e em H√ļmus, de Raul Brand√£o, bem como na leitura do Nietzsche e de Heidegger. Esse livro foi, de facto, o rastilho para incendiar, de forma irrevog√°vel, a minha paix√£o por Cioran. Como acontece com todas as genu√≠nas obsess√Ķes, a partir desse momento, comecei a devorar tudo o que pudesse encontrar desse autor t√£o enigm√°tico e paradoxal. Cedo li A Tenta√ß√£o de Existir (Lisboa: Rel√≥gio D‚Äô√Āgua, 1988), na altura a √ļnica obra traduzida aqui em Portugal (para al√©m do Hist√≥ria e Utopia),[2] e encomendei alguns livros em franc√™s. As primeiras obras de Cioran que li no original foram De l‚Äôinconv√©nient d‚Äô√™tre n√© e Pr√©cis de d√©composition. Li tamb√©m uma excelente monografia da autoria de Jo√£o Maur√≠cio Br√°s, intitulada O Pensamento Insuport√°vel de √Čmile Cioran.[3] A paix√£o permaneceu intacta e a verdade √© que sempre acalentei o desejo de escrever alguma coisa sobre Cioran. Na altura n√£o sabia exactamente o qu√™, porventura algum ensaio acad√©mico. Nunca deixei de dialogar com Cioran, mas s√≥ muito mais tarde voltei a ele de forma mais profunda: traduzi a obra Confiss√Ķes e An√°temas e creio at√© que esse regresso ter√° influenciado decisivamente alguns dos meus trabalhos mais recentes em termos liter√°rios: Brevi√°rio Clandestino das Extravag√Ęncias e S√ļmula das Aporias (os dois √ļltimos volumes de Magma, um pol√≠ptico que ser√° publicado em 2019 na Abysmo). Quando estava a traduzir essa obra, n√£o parava de dizer para comigo que iria escrever alguma coisa sobre o Cioran, embora n√£o soubesse em que moldes.

EMCioran/Br: ‚ÄúS√≥ nos resta escrever; escrevamos, pois‚ÄĚ ‚Äď a frase inaugural do seu livro n√£o poderia ser mais oportuna, evocando certa concep√ß√£o blanchotiana da escrita como um trabalho infinito, sem come√ßo nem fim; a ‚Äúobra‚ÄĚ como um objeto sempre inacabado, e inacab√°vel… Seria a escrita um doce veneno, uma err√Ęncia salutar, um desastre irresist√≠vel?

R.G.S.: Agradam-me muito essas formula√ß√Ķes, porque, para al√©m de belas, s√£o certeiras. Sim, quis que o incipit do livro dialogasse com a sua coda e que esta fosse o espelho invertido da abertura. Quando, no fim do livro, recupero o seguinte passo de A Tenta√ß√£o de Existir: ‚Äútrata-se de escrever, n√£o √© verdade? Pois escrevamos‚Ķ, enganemo-nos uns aos outros‚ÄĚ, o que procuro fazer √© conferir a coer√™ncia poss√≠vel a um livro que, em boa verdade, √© eminentemente fragment√°rio e, portanto, sem fio de Ariadne que o conduza de uma ponta √† outra. Ao faz√™-lo, n√£o deixei de introduzir, todavia, uma nota cioraniana, ir√≥nica e deceptiva, que operasse uma esp√©cie de desconstru√ß√£o da sua promessa de sentido. Sim, escrevemos sempre, n√£o podemos deixar de escrever. Mas como e a que pre√ßo? Creio que n√£o estarei muito equivocado se disser que, em tudo o que escrevo, est√° sempre presente uma reflex√£o mais abrangente sobre o acto de escrever. Tamb√©m neste op√ļsculo est√° presente esse pendor auto-reflexivo. Esse ser√°, porventura, a pedra de toque de todo o meu labor ensa√≠stico e po√©tico. Escrever: porqu√™ e como? Como come√ßar? No cap√≠tulo inaugural de O claro enigma da mat√©ria (Lisboa: Abysmo, 2019), que √© um ensaio sobre W. Szymborka, debru√ßo-me justamente sobre a dificuldade que √© come√ßar. A poetiza polaca tem um poema fant√°stico, em que nos confidencia que ‚Äúcada in√≠cio/√© s√≥ continua√ß√£o,/e o livro das ocorr√™ncias/est√° sempre aberto ao meio.‚ÄĚ[4] O in√≠cio encerra sempre um perp√©tuo recome√ßo, o trabalho infinito de que nos fala Blanchot, sendo que, por outro lado, a ru√≠na da obra marca, de forma indel√©vel, a sensibilidade fragment√°ria de Cioran. Neste sentido, todo o texto n√£o pode sen√£o trair as suas pr√≥prias promessas. √Č dessa inevit√°vel trai√ß√£o que se faz o prec√°rio e precioso sentido a que podemos ter acesso. A leitura alimenta-se desse delicado milagre. Por sua vez, a escrita ser√° sempre essa esp√©cie de sedu√ß√£o amaldi√ßoada. Blanchot √©, de facto, uma figura que comparece neste op√ļsculo, sobretudo pela tematiza√ß√£o que faz da ideia de inacabamento e do trabalho infinito, mas tamb√©m da no√ß√£o de desastre (dis-astrum), remetendo para um tipo de escrita que ficou √≥rf√£ do seu astro, que se viu usurpada da sua estrela-guia.

EMCioran/Br: Permita-me citar uma passagem de Derrida, logo no início da sua Farmácia de Platão:

Seria preciso, pois, num s√≥ gesto, mas desdobrado, ler e escrever. E aquele que n√£o tivesse compreendido nada do jogo sentir¬≠-se-¬≠ia, de repente, autorizado a lhe acrescentar, ou seja, acrescentar n√£o importa o qu√™. Ele n√£o acrescentaria nada, a costura n√£o se manteria. Reciprocamente, aquele que a ‚Äúprud√™ncia metodol√≥gica‚ÄĚ, as ‚Äúnormas de objetividade‚ÄĚ e os ‚Äúbaluartes do saber‚ÄĚ impedissem de p√īr a√≠ algo de si tamb√©m n√£o leria. Mesma tolice, mesma esterilidade do ‚Äún√£o s√©rio‚ÄĚ e do ‚Äús√©rio‚ÄĚ. O suplemento de leitura ou de escritura deve ser rigorosamente prescrito, mas pela necessidade de um jogo, signo ao qual √© preciso outorgar o sistema de todos os seus poderes.‚ÄĚ[5]

Tendo em mente esta prescri√ß√£o, eu perguntaria: que dificuldades, riscos, desafios, voc√™ enfrentou no processo cr√≠tico-criativo de abordar uma ‚Äúobra‚ÄĚ t√£o paradoxal como a de Cioran? E para enunciar uma quest√£o colocada em uma das suas Notas Soltas: ‚ÄúComo responder ao repto deste ap√°trida do sentido (um ‚Äėescritor extraterritorial‚Äô, segundo voc√™, a partir da caracteriza√ß√£o celebrizada por Steiner), √† tempestade das suas palavras? Porqu√™ fazer proliferar a met√°stase do coment√°rio? N√£o seria prefer√≠vel deixar a obra intacta, √† merc√™ do seu sil√™ncio imperiosamente loquaz?‚ÄĚ (RGS 2019: 6)

R.G.S.: Estou plenamente ciente do risco que corri ao escolher uma via um pouco mais heterodoxa. Em obras anteriores (como A Sabedoria da Incerteza, 2015, ou Po√©ticas da Incompletude, 2017), a minha abordagem a objectos liter√°rios e filos√≥ficos foi, de facto mais convencional e acad√©mica, mas, ao confrontar-me com a forma mentis de Cioran, senti que tinha de optar por algo diferente e esta pareceu-me a abordagem que melhor serviria os solavancos do seu pensamento antin√≥mico. Procurei respeitar a complexidade desta ‚Äúobra‚ÄĚ (e faz todo o sentido que se coloque entre aspas esse lexema, uma vez que o pr√≥prio Cioran sublinhou, em diversas circunst√Ęncias, a sua desconfian√ßa face √† edifica√ß√£o de um pensamento sistem√°tico e inexpugn√°vel) e da√≠ as diferentes tipologias textuais que adoptei: oscilando sobretudo entre passagens mais ensa√≠sticas e passos mais afor√≠stico. √Č um livro que, embora inclua uma bibliografia final e diversas notas-de-rodap√©, prima pelo um fluxo descont√≠nuo, assumindo um pendor fragment√°rio. O subt√≠tulo ‚Äď ‚ÄúNotas soltas para Cioran‚ÄĚ ‚Äď visa enfatizar um tal pendor, aludindo igualmente ao singelo desejo de homenagem que pretendi expressar. A verdade √© que, at√© bem recentemente, o que imperou foi a sensatez de deixar a obra intacta, inconspurcada pela tirania do coment√°rio. Mas se, como diz Manuel Gusm√£o, todas as formas em que se formula o discurso cr√≠tico mais n√£o s√£o do que ‚Äúmaneiras de falar alto no escuro‚ÄĚ, a verdade √© que, em virtude do irrecus√°vel apelo que algumas obras exercem, n√£o podemos deixar de professar o desejo de encetar uma conversa ininterrupta com essas mesmas obras. No meu caso, havia uma d√≠vida de amor que tinha de ser saldada e este pequeno livro foi a forma arriscada que encontrei para aceitar o repto do mestre da desilus√£o.

EMCioran/Br: Em 2011 foi organizado, na Universidade do Porto, um Encontro Pessoa/Cioran: nos 76 anos da morte de Pessoa e nos 100 anos do nascimento de Cioran. As aproxima√ß√Ķes entre o escritor franc√™s de origem romena e o poeta portugu√™s s√£o inevit√°veis, e sempre oportunas. Voc√™ fala de uma afinidade electiva entre os dois, ‚Äúnas isotopias e na cosmovis√£o que ambos exploram‚ÄĚ, e reconhece neles ‚Äúum negrume que tinge o pensamento e que nasce de uma clarivid√™ncia implac√°vel.‚ÄĚ (RGS 2019: 19-20). A prop√≥sito, Pessoa (Bernardo Soares) escreveu, no Livro do Desassossego:

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.
Eu não me queixo pelo mundo. Não protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me, mas não sei se o que há de geral é o sofrimento nem sei se é humano sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?
Eu sofro, não sei se merecidamente. (Corça perseguida.)
Eu n√£o sou pessimista, sou triste.[6]

Seria tamb√©m o caso de Cioran? Ali√°s, eu gostaria de evocar aqui uma terceira figura, feminina, uma escritora brasileira, mas nascida na Ucr√Ęnia: Clarice Lispector. Voc√™ trata da literatura de Lispector em A sabedoria da incerteza: imagina√ß√£o liter√°ria e a po√©tica da obriga√ß√£o (H√ļmus, 2015).[7] Que afinidades haveria entre essas tr√™s figuras e suas respectivas obras?

R.G.S.: Essa √© uma quest√£o imensa a que eu certamente n√£o saberei responder de forma minimamente adequada. S√£o tr√™s autores paradoxais, s√£o universos mentais profundamente contradit√≥rios, todos eles lan√ßando um manto de suspei√ß√£o sobre a pr√≥pria ideia de obra e sobre a insufici√™ncia da palavra para testemunhar o nosso desamparo ontol√≥gico e a nobreza da nossa mortalidade. Os sujeitos plurais que decorrem dessa escrita e desse pensamento multifacetados s√£o sujeitos dilacerados e nom√°dicos, ir√≥nicos, passivos, inconformados, ab√ļlicos, ag√≥nicos, altivos e intr√©pidos‚Ķ A rela√ß√£o entre Pessoa e Cioran √©, por assim dizer, mais directa e est√° razoavelmente bem documentada.[8] Em rela√ß√£o a Lispector, a quest√£o √© um pouco mais problem√°tica, mas creio que h√° pontos de contacto. Se pensarmos em Cioran e Lispector, por exemplo, pressinto que a percep√ß√£o de que a escrita √© uma ‚Äúmaldi√ß√£o que salva‚ÄĚ prov√©m do mesmo solo sombrio, do mesmo abismo inconfess√°vel. A crise que se abate sobre o acto de escrita como que espelha a aguda crise que acomete o sujeito e a sua conturbada rela√ß√£o com o mundo. Na cr√≥nica ‚ÄúO grito‚ÄĚ, Lispector confessa-se de forma desassombrada: ‚ÄúO que farei de mim? Quase nada. N√£o vou escrever mais livros. Porque se escrevesse diria minhas verdades t√£o duras que seriam dif√≠ceis de serem suportadas por mim e pelos outros. H√° limite de se ser. J√° cheguei a esse limite.‚ÄĚ[9] √Č uma inquietude cortante, um assombro interior que se confunde com um triunfal sentimento de fracasso que tamb√©m vislumbro em Pessoa e em Cioran. Seja como for, tanto quanto posso avaliar, a cosmovis√£o lispectoriana parece-me bastante mais solar, quando comparada com o negrume da mundivid√™ncia, perfilhada por Cioran e Pessoa.

EMCioran/Br: Cioran, que amava o tango argentino e o fado portugu√™s (especialmente pela voz de Am√°lia Rodrigues), gostava de lembrar que o seu idioma materno √© um dos poucos que t√™m um equivalente √† nossa saudade e ao Sehnsucht alem√£o: o dor romeno. Uma sugestiva transfer√™ncia sem√Ęntica de uma l√≠ngua √† outra, e uma ‚Äúfeliz‚ÄĚ coincid√™ncia, a julgar pelo que exprimem os dois grafemas (‚Äúsaudade‚ÄĚ, ‚Äúdor‚ÄĚ), por sua contiguidade na cartografia dos afetos da l√≠ngua portuguesa, voc√™ n√£o acha? A afinidade electiva entre Cioran e Pessoa n√£o passaria por certa nostalgia de algo inexistente ou, em todo caso, indispon√≠vel, inacess√≠vel, um absoluto, um ‚Äúpara√≠so perdido‚ÄĚ?

R.G.S.: Sim, √© uma coincid√™ncia absolutamente deliciosa e repleta de simbolismo. Creio que √© na entrevista concedida a Sylvie Jaudeau que Cioran faz essa aproxima√ß√£o.[10] O facto de ela surgir no decurso da sua reflex√£o sobre o paradoxo que a m√ļsica encerra (como um modo de eternidade entrevista no tempo) s√≥ contribui para adensar esse simbolismo. E √© curioso que utilize a express√£o ‚Äúpara√≠so perdido‚ÄĚ, j√° que a mesma aponta para a no√ß√£o de queda que informa o quadro mental da escrita de Cioran. Eu refiro esse aspecto no livro e creio que o ex√≠lio √© uma das palavras-chave do pensamento cioraniano. A trag√©dia capital, para Cioran, seria justamente essa queda no ser e no tempo, a inescapabilidade da exist√™ncia, pois. E essa √© uma intui√ß√£o que vai ao arrepio das nossas convic√ß√Ķes mais profundas, mesmo no que toca a uma certa concep√ß√£o darwiniana de se estar ligado √† vida, a lutar pela sobreviv√™ncia, pelo perseverar no ser. Cioran questiona veementemente o primado dessa ideia, opondo-lhe de uma forma que me parece profundamente c√≥mica (muitas vezes essa √© uma dimens√£o olvidada na sua escrita), a ideia de uma inconveni√™ncia de se ter nascido. A exist√™ncia, para Cioran, oscila sempre nessa delicada tens√£o entre, por um lado, se assumir como uma trag√©dia incomensur√°vel e, por outro lado, ser perspectivada como um leve aborrecimento, como um t√©dio que se tem de suportar‚Ķ Mas trata-se sempre (como tamb√©m em Pessoa) de um enquadramento muito espec√≠fico: de uma teologia sem teologia, uma esp√©cie de reflex√£o intersticial e n√≥mada que surge quando o niilismo se cruza com um certo misticismo de contornos indefinidos. O que brota de uma tal reflex√£o √© a tal nostalgia intang√≠vel de que fala, a fome de um absoluto incompuls√°vel, que se poderia aproximar do sentido do mist√©rio da rela√ß√£o do homem com aquilo que Rudolf Otto apelida de ‚Äúnuminoso‚ÄĚ, desse mysterium tremendum que n√£o pode deixar de assaltar quem se aproxima do transcendente.

EMCioran/Br: Voc√™ √© um estudioso da obra de George Steiner, a quem dedicou um livro: Imin√™ncia do Encontro (2009). Sabe-se que Steiner escreveu coisas dur√≠ssimas sobre Cioran. Como voc√™ avalia a cr√≠tica devastadora que ele faz em seu ensaio ‚ÄúCurto prazo final‚ÄĚ, √† obra de Cioran, mais especificamente a √Čcart√®lement (Drawn & Quartered na vers√£o inglesa de Richard Howard)? Voc√™ n√£o acha que ela vai no mesmo sentido da acusa√ß√£o de Sartre contra Camus, de que o autor d‚ÄôA peste ‚Äúodiava Deus mais do que odiava os nazistas‚ÄĚ, e que estes ‚Äúnunca realmente contaram no mundo de Camus‚ÄĚ? Para Susan Neiman (no contexto de uma discuss√£o sobre o problema filos√≥fico do mal no s√©culo XX), a cr√≠tica de Sartre n√£o carece de fundamento (e o mesmo se poderia dizer da cr√≠tica de Steiner a Cioran), pois, segundo ela, ‚Äúa met√°fora de Camus beira a irresponsabilidade involunt√°ria. […] A discuss√£o sobre os males morais e naturais feita por Camus, no entanto, era resultado n√£o de uma confus√£o conceitual, mas sim de uma afirma√ß√£o consciente. Tanto os males morais quanto os naturais s√£o casos especiais de algo pior: o mal metaf√≠sico inerente √† condi√ß√£o humana.‚ÄĚ[11] Isso nos remete √† controv√©rsia em torno da fun√ß√£o social do escritor, do artista, do intelectual moderno, o seu papel enquanto figura p√ļblica comprometida e solid√°ria com a sua √©poca, tema, ali√°s, de La morale dans l‚Äô√©criture: Camus, Char, Cioran, de Michel Jarrety.[12] A julgar por uma de suas Notas,[13] estamos diante de um caso excepcional de d√©soeuvrement: a ‚Äúanti-obra‚ÄĚ desse que aspirou voluptuosamente √† ‚Äúsantidade do √≥cio‚ÄĚ, a ser ‚Äúmais inutiliz√°vel que um santo‚ÄĚ… Como voc√™ concebe a rela√ß√£o, em Cioran, entre a po√©tica do desastre e certa metaf√≠sica do fracasso? Seria a ‚Äúgenerosidade do fel‚ÄĚ a sua contribui√ß√£o numa √©poca dominada pela auto-ajuda, pela angelismo new age e otimismos afins?

R.G.S.: Confesso que a obra steineriana sempre me fascinou. Imin√™ncia do Encontro constitui justamente o resultado de um aturado di√°logo com o mestre de Cambridge. Todavia, j√° em Imin√™ncia do Encontro eu procurava interrogar a hermen√™utica da transcend√™ncia, socorrendo-me da hermen√™utica radical, protagonizada pelo fil√≥sofo norte-americano John Caputo. Mas, respondendo directamente √† sua pergunta, a aprecia√ß√£o steineriana em rela√ß√£o a Cioran parece-me francamente injusta e algo estranha, uma vez que o pr√≥prio Steiner come√ßa esse texto[14] por confessar abertamente as afinidades electivas que sente relativamente ao pessimismo filos√≥fico que o serm√£o f√ļnebre de Cioran efectivamente encerra: ‚ÄúNa verdade, o meu pr√≥prio instinto n√£o aponta para direc√ß√Ķes muito mais animadoras.‚ÄĚ Como assinala Robert Boyers na introdu√ß√£o ao volume George Steiner at the New Yorker, que inclui esse texto sobre Cioran, a resist√™ncia do autor de Gram√°ticas da Cria√ß√£o prender-se-ia com um brutal excesso de simplifica√ß√£o num escritor que havia dado mostras de uma capacidade de fina ironia e de uma grande subtileza estil√≠stica. √Č tanto mais estranho quanto uma das principais acusa√ß√Ķes movidas a Steiner foi justamente a de um excesso de simplifica√ß√£o argumentativa e te√≥rica, patente num certo ensa√≠smo impressionista e num excessivo e dogm√°tico negrume que tinge o seu pensamento (penso designadamente em obras perpassadas de um pessimismo filos√≥fico como A Morte da Trag√©dia, 1961, Linguagem e Sil√™ncio, 1967 e No Castelo do Barba Azul, 1971). De resto, a acusa√ß√£o, segundo a qual Cioran estaria fascinado pelo seu tom oracular, foi tamb√©m uma acusa√ß√£o que foi movida ao pr√≥prio Steiner. E Steiner sempre respondia (e creio que com propriedade) que, no que diz respeito √† indaga√ß√£o human√≠stica, a teoria n√£o √© sen√£o uma intui√ß√£o impaciente.[15] No texto em apre√ßo, Steiner valoriza Minima Moralia de Adorno em detrimento da obra recenseada ‚Äď √Čcart√®lement (1979), mas esta √©, a meu ver, uma obra n√£o menos seminal, repleta de fulgura√ß√Ķes desarmantes e de um comovente lirismo. Queria reiterar este ponto: para al√©m de um pensador poderoso (e n√£o um mero ep√≠gono de Nietzsche, como alguns quiseram fazer crer), Cioran foi um escritor absolutamente excepcional. Quando Cioran escreve: ‚ÄúSou t√£o triste e t√£o feliz que as minhas l√°grimas reflectem o c√©u e o inferno com a mesma precis√£o‚ÄĚ, n√£o √© apenas o pensador que est√° a tentar domar e a ser subjugado pela linguagem; √© tamb√©m o poeta rendendo-se √† alquimia do verbo. Sobre a segunda parte da sua quest√£o, estou totalmente de acordo. Creio mesmo que a reivindica√ß√£o de uma fun√ß√£o moral do escritor n√£o poderia estar mais longe da postura cioraniana. Cioran √© muito claro a esse respeito. A fazer f√© nas suas declara√ß√Ķes, a escrita era t√£o-s√≥ um modo de ele poder formular um pouco melhor as suas obsess√Ķes, uma terap√™utica meramente individual, portanto. Um pensamento que n√£o inspirasse seguidores e que apenas fosse fruto de uma solid√£o indiz√≠vel e intransmiss√≠vel. Esse era o seu desiderato. Nesse sentido, creio que podemos olhar para a obra cioraniana como um precioso manual de anti-ajuda, um cat√°logo de intui√ß√Ķes que exibem a ousadia de celebrar a metaf√≠sica do fracasso por oposi√ß√£o ao pueril culto do sucesso que marca indelevelmente a nossa era do vazio, para recuperar a terminologia de Lipovetsky. E, no entanto, apesar de inegociavelmente √† margem dos ditames infantilmente optimistas da nossa √©poca, n√£o tenho d√ļvidas de que ele continuar√° a ser lido por esp√≠ritos que a ele electivamente se irmanam. Porqu√™? Porque, no fundo, Cioran foi um ex√≠mio sedutor: algu√©m que levou a radicalidade do pensamento ao seu limite, algu√©m que foi implac√°vel com tudo, come√ßando por ele pr√≥prio. Mas quem se atreve a ler este anti-fil√≥sofo, sabe que da descida aos infernos √© sempre poss√≠vel extrair uma dura li√ß√£o de luz ‚Äď a isso poder√≠amos chamar lucidez. Os seus leitores sabem do que falo. Cioran di-lo melhor: ‚ÄúUma pessoa pode se dizer niilista e, no entanto, se apaixonar como o maior dos idiotas.‚ÄĚ

S√£o Paulo – Lisboa
Dezembro de 2018

Mais: “Ricardo Gil Soeiro: uma po√©tica do inacabado“, por Maria Jo√£o Cantinho, in Revista Caliban, 19 de janeiro de 2018.

NOTAS:

[1] Cf. História e Utopia. Lisboa: Bertrand, 1994.

[2] Entretanto, foram publicados apenas mais dois livros de Cioran: Silogismos da Amargura (Lisboa: Letra Livre, 2009) e Do inconveniente de ter nascido (Lisboa: Letra Livre, 2010).

[3] BR√ĀS, Jo√£o Maur√≠cio. O Pensamento Insuport√°vel de √Čmile Cioran. Um Itiner√°rio do Desespero √† Lucidez. Porto: Campo das Letras, 2006.

[4] SZYMBORSKA, W., Paisagem com gr√£o de areia. Lisboa: Rel√≥gio D‚Äô√Āgua, 1998, p. 315.

[5] DERRIDA, Jacques, A Farmácia de Platão. Trad. de Rogério Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005, p. 7-8.

[6] PESSOA, Fernando, Livro do desassossego: composto por Bernardo de Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. S√£o Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 149.

[7] ‚ÄúDespedindo-se do modelo representativo e visando o infinito da linguagem, dir-se-ia que o texto escrev√≠vel √© aquele que se escreve no limiar. Sendo em certa medida um livro por vir, proporcionando uma incompuls√°vel experi√™ncia de loucura, o texto escrev√≠vel √© atravessado por uma palavra plural, fecundada pela multiplicidade e pela descontuidade, tra√ßos inequ√≠vocos da teia rizom√°tica em que se inscreve esta tipologia textual. Poucos escritores ter√£o desafiado t√£o radicalmente, como Clarice Lispector, a ideia de mimesis no labor liter√°rio. A sua escrita, particularmente a experi√™ncia da linguagem e do mundo que avulta nas suas obras mais tardias, constitui um exemplo paradigm√°tico de uma literatura que, ontologicamente, interroga os seus pr√≥prios limites.‚ÄĚ SOEIRO, Ricardo Gil, A sabedoria da incerteza: imagina√ß√£o liter√°ria e a po√©tica da obriga√ß√£o. Ribeir√£o, H√ļmus, 2015, p. 123.

[8] Cf. BR√ĀS, Jo√£o Maur√≠cio, ‚ÄúFernando Pessoa e a filosofia: um di√°logo com Emil Cioran e John Gray‚ÄĚ, in: 100 Orpheu, org. Dion√≠sio Vila Maior/Annabela Rita, Porto, Edi√ß√Ķes Esgotadas, 2016, pp. 113-124; e BORGES, Paulo, ‚ÄúEmil Cioran e Fernando Pessoa: salto no absoluto e ¬ęfuga para fora de Deus¬Ľ‚ÄĚ, in: O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu. Estudos e ensaios pessoanos. Lisboa: Verbo, 2011, pp. 231-271.

[9] LISPECTOR, Clarice, A Descoberta do Mundo. Lisboa: Rel√≥gio D‚Äô√Āgua, 2013, p. 108.

[10] Cf. CIORAN, Emil, ‚ÄúEntretien avec Sylvie Jaudeau‚ÄĚ, Entretiens. Paris: Gallimard, 1995, p. 230. Cf. tamb√©m ‚ÄúPr√©cis de D√©composition‚ÄĚ, Oeuvres. Paris: Gallimard, 1995, pp. 607-609.

[11] NEIMAN, Susan, O mal no pensamento moderno. Uma história alternativa da filosofia. Trad. de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Difel, 2003, p. 321-2.

[12] N√≥s sa√≠mos doravante de uma √©poca em que a disjun√ß√£o radical do autor e da obra conduzia a s√≥ enxergar a rela√ß√£o do escritor com o mundo, essencialmente, na forma de um engajamento que, justamente, o deslocava largamente daquilo que o havia transformado num escritor, estabelecendo-o entre os intelectuais. O prest√≠gio que os seus livros lhe conferiam podia sem d√ļvida fundar a autoridade que lhe reconheciam: e, contudo, ela se dissociava largamente do que ele veio a escrever e procedia menos do autor em si que da figura p√ļblica que se constru√≠ra a partir dele. Assim socializado, rebaixado ao campo da hist√≥ria cultural e pol√≠tica, a presen√ßa do autor no mundo encontrar-se-ia, por um lado, desligada dos valores que os seus livros, precisamente, punham em funcionamento, e dos quais s√≥ se retinha, no melhor dos casos, princ√≠pios abstratos, isto √©, separados de uma vez por todas tanto da experi√™ncia privada que os havia forjado quanto da forma que lhes dava for√ßa.‚ÄĚ JARRETY, Michel, La morale dans l‚Äô√©criture: Camus, Char, Cioran. Paris: Presses Universitaires de France, 1999, p. 5.

[13] ‚Äú√Ä hagiografia da obra contrap√Ķe Cioran o d√©soeuvrement do neutro, um movimento perp√©tuo de desloca√ß√£o de for√ßas e intensidades, a ru√≠na do edif√≠cio.‚ÄĚ SOEIRO, Ricardo Gil, Vol√ļpia do Desastre: Notas Soltas para Cioran (no prelo). Fafe: Labirinto, 2019, p. 7-8.

[14] STEINER, George, ‚ÄúShort Shrift‚ÄĚ (On E. M. Cioran), in: George Steiner at the New Yorker. New York: New Directions, 2009, pp. 239-248.

[15] STEINER, George, Os Logocratas. Lisboa: Rel√≥gio D‚Äô√Āgua, 2006, p. 152. No seu opus magnum, Steiner avan√ßa a seguinte defini√ß√£o: ‚ÄúGostaria de definir a aspira√ß√£o te√≥rica no campo das humanidades como impaci√™ncia sistematizada‚ÄĚ STEINER, George, Presen√ßas Reais. Lisboa: Presen√ßa, 1993, p. 84.